UM POSSÍVEL GUIA TURÍSTICO
Como seria Malanje e as povoações ao seu redor em 1890? Com que olhos veria o europeu aquelas terras? Descobri-o, resumidamente, num livrinho muito curioso publicado em 1891 intitulado “Guia do Colono”, da autoria de J. Bentes Castel-Branco, bacharel em medicina e filosofia que, com a sua filantropia, resolveu publicá-lo e ofertar a receita da venda ao auxílio a prestar aos colonos que quisessem emigrar para Angola.
Propositadamente transcrevi a grafia original para lhe dar a “cor do antigamente”.
Para além das (poucas e resumidas) palavras apelo, sobretudo, à vossa imaginação, para tentarem “ver” como era a nossa Malanje há cento e vinte anos!
Tomás Lima Coelho
-----/-----
MALANGE
É a terra mais importante do interior e a guarda avançada da nossa acção civilisadora no sertão africano.
Fica a 200 kilometros do Dondo, n’um extenso planalto de mais 50:000 kilometros quadrados e passa por ser tão salubre que o europeu já n’este ponto se póde applicar impunemente aos trabalhos agricolas, durante algumas horas do dia.
Os europeus residentes n’este concelho teem boa côr, e tanto entre elles, como entre a população indigena, abundam os casos de longevidade.
Esta observação combinada com a do nenhum aceio da terra e da existencia d’um pantano, a cerca de 10 kilometros da villa, auctorisam a concluir que, com alguma hygiene, este planalto é perfeitamente habitavel pelo europeu e susceptivel de ser colonisado.
Os terrenos são muito ferteis e já se vê bastante cultura.
Cultivam a cana d’assucar, a fava, ervilha, cebola, nabo, pera, maçâ, muitas plantas tropicaes e possuem bastante gado.
Fabricam a telha, o tijolo, a cal e a aguardente.
Os habitantes da villa teem canoas para navegar no Cuanza que lhe passa proximo.
O movimento commercial da villa calcula-se em 250:000§00, mas está já sentindo muito a concorrencia prejudicial do Estado Livre do Congo.
É em Malange que residem os benemeritos irmãos Custodio e Saturnino Machado, introductores do fabrico da aguardente, principaes promotores da agricultura e negociantes que tanto teem auxiliado todas as xpedições que por alli teem passado em direcção a Muatianvua.
A villa de Malange tem muitas casas á europêa, correio, municipio, quartel e as ruas illuminadas a petroleo.
-----/-----
PUNGO ANDONGO
Fica n’uma altitude de 1020 m. em terreno ondulado, e passa por ser um dos melhores climas do districto.
Apesar do calor que é aqui elevado, as febres não tomam grande intensidade, os brancos reproduzem-se havendo alguns em terceira geração e um grande numero de mestiços; no entanto a população branca pura não augmenta o que pode tambem ser devido á falta de mulheres.
Tem alguma cultura e duas fazendas boas.
Como ponto commercial foi já importantissimo; mas nos ultimos tempos tem decahido muito, derivando-se o negocio que alli affluia para o Dondo, Malange ou Benguella.
-----/-----
AMBACA
A séde do concelho é Pemba, onde convergem os caminhos de Malange, dos Jingas e da foz do Cuango.
É outro centro commercial onde reside uma população preta dotada d’actividade superior á do resto do gentio de toda a provincia.
O ambaquista traja aproximadamente á europêa, sabe lêr na grande maioria e raro é o que não tem um dos officios de alfaiate, sapateiro, ferreiro ou carpinteiro.
São os paes que ensinam os filhos.
Chegado á maioridade assim prendado com os conhecimentos herdados ainda dos nossos frades, o ambaquista ou se dedica ao negocio e toma a vida errante do sertanejo ou, procurando exercer a sua profissão, emigra em qualquer sentido acabando por se fixar onde, pelas suas habilidades possa conquistar as boas graças do soba e os logares culminantes.
É assim que se tem espalhado pela provincia, pelo Lunda, e pelo Barotze, concorrendo poderosamente para disseminar em todo o sertão o nosso prestigio e o conhecimento da lingua portugueza.
Os terrenos do concelho estão bastante arroteados.
Há n’este ponto bastantes europeus e uma missão protestante americana.
-----/-----
CASENGO
Tem por séde de concelho: Cambo, pequena povoação formada por uns 100 europeus que habitam em soffiveis predios, e por uma multidão de cubatas indigenas mal alinhadas.
Os terrenos d’este concelho são bastante accidentados, ficam á altura media de 1000 m. e em condições de salubridade relativa, superiores ás do littoral.
A riqueza e importancia d’este concelho é toda agricola, n’elle existem já muitas propriedades sendo algumas das melhores do districto.
Exporta em longa escala o café.
Abundam já aqui os gados e são variados os productos agricolas da sua cultura.
(in “Guia do Colono” de J. Bentes Castel-Branco, 1891)
