Uma questão da Cultura
Ontem, Junho de 1974, fui jantar à casa do Toni Marta, na Vila Matilde. Algumas pessoas de diversas famílias, mas amigos próximos, estavam presentes.
Tinha sido construído um alpendre nas traseiras, ou melhor, um espaço delimitado por uma estrutura de bambu. No chão vermelho, esteiras cobriam parcialmente o espaço, sem cadeiras ou mesas.
Chegada a altura da refeição-encontro, a muambada e outras iguarias foram colocadas nas esteiras, onde nos sentámos à espera que as crianças e mais-velhos se servissem em primeiro lugar.
Depois do jantar, enquanto alguns dançavam ao ritmo dos merengues famosos de então, outros conversavam em torno do recente 25 de Abril, ainda de contornos confusos.
Num reduzido grupo, onde era pressuposto estarem os mais “esclarecidos”, comentei a minha recente deslocação (Março), com os finalistas da Escola Industrial e Comercial de Malanje, ao Sul de Angola: Gabela, Sumbe, Lobito, Benguela, Lubango e Huambo. Num rasgo de “clarividência”, argumentei em defesa da prioridade de se levar os Muílas, que tinha visto pela primeira vez, a criarem outros hábitos de higiene, em defesa última da própria saúde. O Aires reagiu. O Aires Botelho de Vasconcelos, mago da palavra e exímio na rapidez de raciocínio, deu-me uma lição política sobre Angola e a multiculturalidade como essência identitária de Angola.
Ouvi, aprendi e calei.
Hoje, Janeiro de 2010, não só teria evitado o argumentário demolidor do Aires como teria introduzido a nuance conceptual de formação social angolana: existência de múltiplas culturas, entre as quais, uma é dominante. E se, no colonialismo, a cultura dominante de matriz repressiva era a portuguesa (não obstante a sua incapacidade política em ter compreendido os ventos da história dos finais do século XIX e as aspirações independentalistas dos angolenses e de ter legado uma língua que realiza a unidade entre as variadas línguas angolanas); actualmente, para além desse resquício importante, a cultura dominante é a urbana. Não como contraponto à rural, onde necessariamente existe a cultura tradicional, mas mercê da guerra civil, porque se assume como um local de fusão cultural. Às vezes, quando na minha introspecção deambulatória sobre Angola me vejo a questionar a concentração populacional nas cidades, retrocedo ao perspectivar a unidade nacional daí resultante. O desafio à governação angolana estará na definição do limiar da transição necessária entre o pilão do sincretismo cultural e a necessidade da descompressão urbana, sob pena de outros conflitos, também importantes, serem gerados e conduzirem a uma hipotética desintegração da formação da sociedade angolana, ou à sua instabilidade e consequentes efeitos sobre a nação.






