O quintal
Ao princípio da noite, antes do jantar, pois não me era permitido estar fora de casa a partir das sete da noite, observando os mais velhos fazia a minha aprendizagem de miúdo da minha rua. Não se fazia exame. O atestado zungava-nos na prática, sofrida às vezes ao ultrapassarmos as nossas capacidades quando não resistíamos à atracção de uma goiaba mais tentadora. No mistério da noite.
Estavam ali todos os dias à frente da minha casa. Mesmo quando as goiabeiras não goiabavam. Eram uma vintena ou pouco mais em um quintal fortaleza. Alinhadas, conversando provocadoramente comigo todos os dias numa frente de cerca de quarenta metros, por cerca de trinta de largura de quintal. Imenso quanto bastava, quando palmilhado à noite. Umas vezes iluminada por um luar fantasmagórico, outras vezes macabramente tenebrosa no seu respirar negro e impenetrável como breu. Alguns anos depois era a fruição do prazer. Nos primeiros tempos o controlo do coração que teimava em assustar-se e assustar-me.
Tudo era um desafio. Mesmo a goiaba que algum dos mais velhos me cedia e não me era dada de boamente tinha de ser mendigada. Chateando. E nunca era a desejada. Eram sempre as imensamente verdes que testavam a firmeza dos meus dentes e eram pacientemente ratadas. Ou as mais amadurecidas que arremessava para o quintal enquanto antevia a minha mãe a comprar quindas cheias para fazer a goiabada e a geleia naquele ponto-entorta-colher.
Ficava-me sempre o sabor amargo da insatisfação e a impotência por não poder transpor um muro de cerca de dois metros e meio de altura. Como uma provocação que me incitava a crescer.
A inventiva e o inconformismo sobrepunham-se.
O quintal pertencia à casa do inspector dos caminhos de ferro, que se situava do lado esquerdo. Do lado direito do quintal a casa de trânsito, com um muro ainda mais alto e com fragilidades goiabísticas. Tinha só duas goiabeiras. Na arquitectura do muro da casa de trânsito, três níveis diferentes: um, a cerca de metro e pouco, relevava a parte de baixo; a zona central até cerca de três metros; por fim, um acabamento-embelezador mais estreito com um arabesco de tijolo caiado com cinquenta, sessenta centímetros. A meio do muro, que circundava a casa de trânsito, umas escadas e a porta de entrada.
A partir das escadas, o ataque começava por tentar atingir com os pés o exíguo relevo de pouco mais de um centímetro que separava as duas primeiras partes do muro. Agarrando-me à parte superior do muro imediatamente antes do acabamento-embelezador. Não foram precisos muitos treinos para transpor este primeiro obstáculo. Comecei quase que instantaneamente a realizar com sucesso este primeiro movimento. Depois, à força de dedos-pulso-e-braço alapava-me à parede com as biqueiras das botas cardadas apoiadas no reduzido relevo e caranguejava para o quintal fortaleza das minhas goiabas, criteriosamente e tacticamente escolhidas durante o dia. Aquela vintena de metros era longa, cheia de armadilhas e apelos à desistência: forças esgotadas pelo próprio movimento e pelas sucessivas tentativas para atingir o goiabal; desequilíbrios provocados por imperfeições daquela passadeira spielberguiana que faziam as botas cardadas escorregar obrigando-me a retomar o início da caminhada indiferente aos dedos e aos joelhos às vezes arranhados; abandonos precipitados ao ouvir o restolhar na fuga, nos saltos e nos murmúrios dos mais velhos que apanhavam berrida dos cães.
Chegado ao fim do quintal da casa de trânsito, já todo eu agoiabado, num esforço último içava o corpo à força de braços, esticava a perna esquerda até a enganchar na parte superior do quintal fortaleza e assim acedia à tentação.
A primeira vez foi um deslumbramento. Eu próprio recolector, autodependente. Com as pernas a tremer, pelo esforço certamente, dei os primeiros passos num muro com cerca de cinquenta centímetros de largura. Mais tarde até corria, à medida que fui ajustando o corpo e o movimento àquele espaço. Mas naquele meu primeiro dia observar era aconselhável. Uma goiabeira anunciava-se ali mesmo, com ramos à distância de uma braçada e com o tronco enraizado a pouco mais de um metro e vinte. Acabara de perceber porque é que se conseguia fugir tão facilmente ao arreganho dos cães. Sentei-me e como quem não quer a coisa deixei-me ficar para decidir se avançava. Exibindo a minha coragem, à noite levantei-me e arranquei uma goiaba. Não me lembro se verde ou se madura. Mas as goiabas assim eram únicas. Diferentes das que podíamos comer se pedíssemos autorização para aquintalar.
E fui melhorando. Passei a subir directamente saltando e grudando-me no quintal de trânsito imediatamente antes de trepar para o muro do goiabal. Depois comecei a aceder directamente ao quintal num ou dois movimentos: corrida-chamada-a-dois-pés-força-de-braços-e-passagem-sentando-me-no-muro e, num refinamento, salto-com-fixação-dos-pés-e-das-mãos-ao-muro-para-depois-num-movimento-ginasticado-e-na-continuidade-transposição-imediata-e-directa-para-o-quintal. Tinha realizado o prazer e o arbítrio na escolha da goiaba suficientemente namorada e enamorada. Aquela. Na retirada, no tempo, atingira também a segurança. Num salto, transpunha o muro, endireitava o corpo e deixava-me ir até intuir o chão do outro lado e começar a dobrar as pernas para amortecer a queda. Sempre na insegurança cega da noite.
Até que um dia me trocaram a rotina feita imediatamente em desafio. Sempre. A Câmara Municipal, antecipando-se ao tempo, numa de gestão do futuro, rasgou o meio da minha rua num buraco de dois metros e muito de profundidade onde começou a instalar manilhas para um futuro esgoto não cumprido. Mas antecipado. Só temo que daqui a algumas centenas de anos venha um arqueólogo alicerçar teorias e adn-isticamente conseguir identificar os trabalhadores que suaram a abrir e tapar o buraco mais os berros dos capatazes. Para que não tenham dúvidas ao descodificar outros registos, aqui me acuso como um dos que ultrapassando o muro do goiabal e caindo um metro e meio depois na areia que se acumulava junto ao muro partia em corrida e saltava o buraco com cerca de dois metros. À noite e no escuro era obra.
Depois calcetaram a minha rua, encandeeiraram-na e asfaltaram-na.
Não mais veria as manadas de gado vindas do sul e conduzidas por pastores a atravessarem a minha rua.
