seta

 

O leão

 

Hoje, uma estória especial. A de então, Cacimbo de 1968.
Apetece-me conversar convosco através de uma experiência que vivi e que me persegue diariamente. Sem exagero.

Não fui caçador profissional nem nada que se pareça. De miúdo, às vezes acompanhava os mais velhos nas suas caçadas, para ver abater um ou outro antílope.
Cumpri o serviço militar no Bembe e em Marimba, onde passei imensas horas a caçar. De caçador tenho apenas três anos, e "a meio tempo". Algumas memórias, outros tantos sustos, imensas canseiras e muita aprendizagem. Algumas vezes em frente-a-frentes leais, outras eticamente reprováveis com o uso do farolim, mas que em contexto de guerra eram aparentemente mais seguros.

Fui enviado para Marimbanguengo, mesmo naquele ponto em que o Kuango do lado de Malanje se junta àquela linha que delimita a fronteira da Lunda com o Zaire, para substituir temporariamente o alferes que comandava o destacamento militar. Uma missão para cerca de um mês. Levei comigo alguns soldados do meu pelotão: necessariamente, a equipa da caça estava lá toda.

Naquele dia preparei-me para sair ao pôr-do-sol, alertado que fora pela falta de carne para as pessoas do destacamento e espevitado pela conversa tida com um furriel que chegara nesse dia ao destacamento e que se apresentava como experiente caçador, de Benguela.
Marimbanguengo era uma zona que não conhecia cinegeticamente falando. Arrisquei pois ir pelo conhecido. A estrada que ligava a Marimba. Cedo reparei que o furriel, cujo nome já não me recordo, não dominava a arte de farolinar: da leveza da técnica, ao discernimento dos olhos reflectidos. Era um farolinar pesado, como que querendo carregar com o unimog. O foco grudava-se na noite escura como breu. O unimog pendulava nessa corda fantasmagórica aumentando os mistérios da noite africana. Ao atingir um extremo da amplitude, os soldados reagiam. Um resmungar, misto de kimbundo-umbundo-português, elevava-se e ecoava. Não há quem goste de ser iluminado cadenciadamente. Muito menos em zona de guerra. Depois com esforço, ficava com a sensação que utilizava as duas mãos, mudava o foco do farolim para o outro lado da estrada, onde se repetiam os resmungos. De vez em quando, sem a sinalética tradicional e contrariando a regra do silêncio, gritava excitado "pára, pára ... olha ali, olha ali". De início, pedagogicamente, dizia-lhe que era um noitibó e até saí do banco ao lado do condutor, uma ou duas vezes, para espantar e provocar o voo da ave. O frio, o unimog ia sem capota, as lágrimas que escorriam pela face, o banho de pó que nos invadia quando a viatura parava, o cheiro a queimadas não nos demoviam de continuar. Eram factor de adrenalina. Sempre de olhos fixos naquele ponto de luz. Expectantes.
Depois, a insistência no erro levou-me a passar-lhe para a mão a minha Mauser para ele abater o que idealizava ser uma peça de caça. Tiro a tiro lá se foi convencendo que noitibó não é soco, palanca, quissabel ou mesmo corça, muito menos pacaça. Noitibó é noitibó.
Já perto do desvio para Mangando, regressámos.

Ao chegar a Marimbanguengo não me agradou o sabor da noite de caça falhada. Seguimos ao longo do Kuango em direcção ao norte. Mas os deuses da caça estavam zangados connosco, ou com o furriel. Não vimos nada. Só deu para comunicar com alguém que também caçava do outro lado do rio. Talvez alguém do acampamento militar da FNLA. Farolinavámos o céu gesticulando e do outro lado respondiam do mesmo modo. Nunca soube o que queriam dizer. Eu pela minha parte respondia em pensamento "também estamos aqui & tiveram mais sorte?". Chegados de novo a Marimbanguengo tentámos descer o Kuango, penetrando Angola.

Chegados a Bumba, desligámos o farolim. Nunca atravessei uma sanzala de farolim ligado. Era uma regra intuitiva, e só muito mais tarde vim a saber que o contrário conectava tragédia. Mas, na ânsia de caçar, o furriel imediatamente a seguir a Bumba ligou o farolim. Não tínhamos percorrido cinquenta metros quando vi atravessar rapidamente a estrada, no limite da zona de luz difusa do unimog, da direita para a esquerda, uma mancha castanha. Imediatamente me coloquei de joelhos no banco, o condutor acelerou o carro uns metros até ao local de entrada do animal, " soco, soco .." sussurraram alguns elementos da minha equipa, parou o unimog, e entre o pó que nos invadiu, a reflexão da luz do farolim nesse pó, a mancha difusa castanha que via fugir no meio de capim mal queimado, e a excitação, disparei. Sobrepondo-se ao eco do disparo um urro enregelou-nos ainda mais na noite cada vez mais fria. Há momentos que não flúem. Catapultam-se caoticamente. Momentos de confusão perante o inesperado e potencialmente perigoso. Desde o furriel ter apagado o farolim para reacendê-lo por detrás de mim sobre o meu ombro, que não me permitia ver o alvo, unicamente o ponto de mira; aos meus gritos para que voltasse para onde estava anteriormente e para que a minha equipa metesse bala na câmara das FN e só disparasse caso o leão avançasse; até ao ter de recarregar de novo a Mauser pois só tinha uma bala para um encontro que não pressupunha o grau de perigo encontrado; tudo se escoou numa fracção mínima de tempo insuportavelmente infindável. De novo refeita a "normalidade", o foco mostrava-me os olhos imensos e brilhantes à minha frente. Vinte, trinta metros. Calmamente, apoiei a Mauser no pára-brisas, apontei o segundo tiro. Novo urro e um grande salto do leão para o lado direito. Só então ouvi o silêncio que se sobrepõe a um disparo na noite africana. Até o coração ecoa. Pedi que o condutor entrasse pelo capim queimado adentro, lentamente. Com a Mauser preparada e salvaguardado pelas FN.

Parámos a cinco-sete metros. Aguardámos minutos infindáveis. À nossa frente, só iluminado pelos faróis, uma imagem única nas "fotos" da minha vida. Deitado, imenso e uma juba maravilhosa, com uma torneira aberta na cabeça jorrando sangue, estava o leão. A cabeça entre as patas dianteiras cruzadas. O motor do Unimog a trabalhar continuava a emanar calor que me ia aquecendo, não compreendendo inconscientemente porque insistia em tremer. Espectáculo dantesco. Compreendi então. Numa de teoricamente ocidentalizado, perante o rio de sangue que persistia em continuar a correr, passado muito tempo, atrevi-me a perguntar "Quem vai buscar?". Manuel Kiluanje, natural de Quitapa, terra de leões, respondeu-me "Leão não está morto meu alferes ... ". Entre o olhar para ele incrédulo, e o salto de cima do Unimog para o chão do João "Maluco", o Setúbal, soldado do pelotão que vim comandar e reforçar, não se passou tempo algum. Foi reflexo. Ao som do impacto dos pés do João no chão e a aproximação do perigo fatídico, o leão esticou as pernas dianteiras e com a cabeça inclinada para a direita arreganhou-me. Olhos-nos-olhos. Foi o João a trepar pelo capot do Unimog e o terceiro tiro, segundo na testa. Abateu-se. África e a noite silenciaram-se. Silêncio onde o murmúrio ecoava e a luz dos faróis tornava tudo mais claro. Nem os insectos inomináveis da noite se atreviam a conversar. Passaram-se minutos. "Manuel? ... Está morto?". "Está ...". " Quem vai buscar? ...". Gritou-se e atiraram-se botas e sapatos. O meu leão não nos respondia. Depois de muito, mesmo muito tempo, em que se ouviam sorrisos nervosos, se batia nas costas, mais uma vez o João Maluco aventurou-se. Então todos saltaram do Unimog para aclamar. Menos eu e o Manuel. Em determinada altura, o Manuel tocou-me no braço, virei-me para ele e ouvi "Se nos atacarem e o alferes ficar ferido, eu levo o meu alferes ... ". Sorri-me. Manuel Kiluanje, o único homem na vida a quem eu dera uma bofetada, acabava definitivamente de fazer as pazes comigo.

De regresso a Marimbanguengo, com o leão ocupando a caixa toda, três metros e trinta e seis na pele seca, desde a ponta do rabo á extrema da cabeça, parámos em três sanzalas. Ao grito de palanca todos acorriam. Quando viam o leão a exclamação seguida do silêncio e do respeito impunha-se. Vinham-me cumprimentar. Mão-na-mão.

Dormi pouco nessa madrugada. Eram nove da manhã e já estava acordado para ir ver o meu leão. Á luz do dia. O primeiro tiro tinha-lhe partido a coluna. Depois foi esfolado e a pele posta a secar. Antes do almoço os meus soldados, a equipa da caça, vinham-me perguntar se eu queria os ossos das mãos. Disseram-me ser muito importante para os seus filhos. Dos que tinham e viriam a ter. Não explorei o porquê.
Ao fim da tarde, no arrear da Bandeira, onde para além da secção militar estavam sempre presentes miúdos e alguns seculos da sanzala , desta vez, excepcionalmente, pelo menos na minha permanência, também a Rainha Isabel se apresentava. Fui informado. Compareci e acompanhei a cerimónia. Depois convidei a Rainha e seu séquito a acompanhar-me numas cervejas. Perplexei, quando me traduziram uma afirmação da Rainha "Alferes, quem mandou o leão, foi os turra ...". Concordei ... Bebemos mais umas cervejas. Saudámo-nos.

Hoje, passados quase quarenta anos, não sou nem me arvoro em caçador e o leão acompanha-me diariamente. Ao abrir o meu "latinhas" a imagem do meu screen é a cabeça de um leão. Frequentemente acompanho, às vezes com lágrima no olho, programas nos canais da TV onde se vêem leões. Esses magníficos africanos. Recordando-vendo a sua dignidade naquela noite.

Encontrar-nos-emos e conversaremos pela certa. Olho-no-olho. "Olá meu!!! ..."
África. Angola.