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O Colégio Veríssimo Sarmento

Muitas pessoas explicar-me-iam o porquê do esquecimento do que fui aprendendo na escola. Mas não quero explicações: prefiro ficar nessa penumbra que tanto me delicia e que me liberta.

No entanto, há outras recordações que facilmente reponho. Talvez as da vida vivida entre o sonho e a realidade, no fácil e no difícil, na magia da alegria e da felicidade, nesse campo dos “ingénuos” onde se sorve o momento e se esboroa o evidente: a experiência fruída.

O Colégio Veríssimo Sarmento deve o seu nome ao primeiro governador da cidade, já que o efectivamente primeiro, embora nomeado, não tenha assumido o cargo: Henrique de Carvalho – o porquê não tem lugar neste espaço. 

Situava-se na descida que ligava o Banco de Angola ao Quartel Militar, do lado esquerdo, a cerca de sessenta-setenta metros do início da descida, e era uma construção sólida, concebida exclusivamente para o ensino, de iniciativa da Câmara Municipal.

O governo pedagógico e a gestão financeira eram do Dr. Terêncio Lopes da Silva.

Já nos finais dos anos sessenta alojou a Escola do Magistério. Hoje, também aloja uma Escola do Magistério, num espaço total substancialmente reduzido.

O edifício, com a forma de um E, de dois pisos, tinha então e ainda tem uma frente com cerca de cinquenta metros. No “traço do meio do E” desenvolvia-se uma escada de acesso ao primeiro andar que desembocava num dos dois acessos ao espaço de saída para o recreio, pela parte de trás do edifício; outra saída possível era pela parte da frente do colégio, destinada basicamente aos alunos da primária. Não sei em que estado se encontra o tubo do corrimão das escadas. No meu tempo, estava luzidio nos dois terços superiores, fruto da fricção a que era sujeito quando em louca correria descíamos os degraus dois-a-dois não fossem os dez minutos de recreio acabar, três-a-três para os mais um nadinha de nada afoitos; e a escorregar deslizando por ele, para os destemidos: geralmente, aqueles que tinham mais uns bons anos do que nós, os mais miúdos. Condição que nos era conferida por termos cumprido a evolução escolar sem sobressaltos, nem interregnos, pois tínhamos ao nosso dispor as valências necessárias para chegarmos ao quinto ano dos liceus, sem termos de sair da cidade. Valendo-se desta alternativa instalada, o Estado, entretanto, abria a Escola Industrial e Comercial. A nossa arqui-rival no que à competição desportiva dizia respeito.

                      

Os sons de então ainda me perseguem, agradavelmente.

Havia um contínuo, intrinsecamente músico, que tocava o “sino” (uma forma de expressão, pois o que efectivamente fazia era percutir um pedaço com cerca de cinquenta centímetros de uma linha de caminho de ferro já amolgada em determinados sítios, definidos e conhecidos harmonicamente por ele, tantas foram as pancadas a que já se tinha sujeitado por outro pedaço mais fino de ferro com uns vinte e cinco centímetros) com uma arte única: eram os acordes do início das aulas, logo pela manhã, diferentes dos últimos do meio-dia, que entoavam com outras sonoridades, como também eram diferentes os toques no fim e no início das aulas intermédias … a pontualidade era garantida pela relógio da secretaria.

Mas, um dia, o pânico instalou-se e os pretensos lideres, que aparecem sempre pela calada nas situações de confusão, surgiram como cogumelos a gritar “borla … borla …” a plenos pulmões e a correrem vazando os corredores com uma despudorada alegria. Alguém tinha, pela noite, subido à nespereira e roubado o “sino”. A perplexidade trespassava a expressão do cumpridor contínuo; a calma e ponderação acompanhavam-nos, à maioria dos alunos, ao entrarmos ordeiramente nas salas de aulas à hora aprazada, enquanto que os “agitadores” se esgueiravam para se fazerem passar despercebidos. Também muitos passaram despercebidos, menos o Ferro Bessa mais velho que foi “apertado” pela PIDE, quando, para maior sobressalto do contínuo com tendências para a música, nas eleições para a Presidência de Portugal, em 1958, a parede das traseiras dos Serviços Técnicos da Câmara Municipal, que confinava, estrangulando-o, com o espaço onde a nespereira se sentia feliz por ser alvo de tanta atenção, apareceu pinchada com cartazes de Arlindo Vicente (que entretanto desistira das eleições) e de Humberto Delgado. Espaço preenchido por gritos de esperança euforicamente libertados por aqueles, em número ínfimo, que entre nós já iam percebendo e fazendo leituras do processo político colonial português.

“ Antonieta!!! A palmatória … “, era a voz potente do Dr. Terêncio que saía do fundo da garganta a anunciar um ajuste de contas à sua chegada ao Colégio. Ainda que não fosse recorrente, às vezes acontecia este abrir do manto do medo. Eu estremecia. Todos estremeciam. Eu fazia rapidamente um exame à minha consciência e à minha prática de aluno. Os outros, penso que também. Ninguém ficava indiferente e não era um rol de pontos que tínhamos de avaliar. Bastavam dois pontos: se tínhamos faltado ao respeito à autoridade dos professores; ou se tínhamos dado mais faltas do que era permitido. Eu, miúdo, descontraía de imediato … O furacão passava ao largo … até que um dia, estava já no terceiro ano do liceu, assolou a porta da turma. O Dr. Terêncio entrou calmamente na sala, com a palmatória dentro de um caderno e debaixo do braço, anunciando que havia pessoas que tinham muitas faltas.

Seguro no seu passo, como se estivesse a comandar o meio-campo do Benfica de Malanje num jogo de futebol, o Jacques avançou, respondendo ao chamamento do Dr. Terêncio. Tinha mais seis ou sete anos do que eu. Impunha-se pelo porte físico. Ia fazer cumprir a “lei” do Colégio: uma palmatoada por cada falta a mais do que as três permitidas. E foi palmatoando amigos colegas, de um modo geral já entradotes na idade. Ao fim de algum tempo, perante o silêncio da sala, só interrompido pelo barulho da palmatória a comer a carne, as duas ou três palmatoadas iniciais tinham um som aberto de um estalo, enquanto que as seguintes, à medida que as palmas da mão inchavam, produziam um som metálico idêntico ao que ouvíamos no parque de jogos vindo da Administração Civil (vá lá saber-se o “crime” cometido pelos “filhos da terra” para serem tão impiamente fustigados pelos cipaios), o Jacques começou a rir-se, num sorriso nervoso que se não compadecia com a calma que normalmente aparentava. Chegado ao fim, cansado, anunciou o Dr. Terêncio que havia um aluno com um número incompreensível de faltas. Excitados, aguardámos o que já antevíamos mercê do sorriso descabelado do Jacques. Então, foi ver os anteriormente castigados a fustigarem as palmas das mão de um Jacques que, a partir de um certo momento, começou a deixar correr lágrimas pelo rosto. O que me impressionou e retenho até hoje foi ver um respeitado amigo a chorar por critérios de duvidosa legitimidade pedagógica.

Um dia, imediatamente a seguir à realização de uma caixa para a ginástica - saltos em trampolim e pelintro, e saltos em altura e comprimento -, eu e mais dois colegas, lembro-me só do Ernesto Andrade, tivemos a infeliz ideia de encher os bolsos dos calções com a casca de arroz que servia para amortecer os impactos da acção da gravidade. Mas, a situação alimenta o engenho, rompemos o fundo dos bolsos e resolvemos ir dar graças à imaginação passeando e deixando o rasto pelos corredores do Colégio. Azar nosso, chegou o Dr. Terêncio. Advogado experiente como era, não lhe custou encontrar os culpados, mandando virar os bolsos aos que por ali andavam: com a boca na botija, sem argumentação possível, uma palmatoada em cada mão resolveu a bem e a contento das partes o abuso de confiança dos três.

Outra vez, já estava no quinto ano do liceu quando me confrontei com o sentido de justiça do Dr. Terêncio – a causa: (aparente) falta às aulas.

Ainda que compreendendo o seu ponto de vista, para todos nós, a totalidade da turma, menos o Chico Franca, que não sei porquê, resolveu ficar às onze horas no Colégio, pareceu-nos exagerada a sentença. 

Era uma fase má do Colégio. Os professores contratados em Portugal não resistiam à tentação da chamada dos Liceus de Luanda e, mal cumprindo o tempo do contrato, partiam deixando o Colégio afectado na sua competência técnico-pedagógica. E, numa fase de eventual cansaço, o Dr. Terêncio na luta contra este constante depauperamento, para tornear a falta de professores, assumiu as disciplinas de Português, de História, de Geografia e de Inglês do 5º ano.  

(As aulas nunca deveriam ser avaliadas, não obstante as teorias pedagógicas e ideológicas que o defendem: o que interessa é a capacidade de comunicação, a teatralidade pedagógica do docente que consegue cativar e interessar os alunos nos momentos do período lectivo e levá-los a ansiar pelas  aulas seguintes. Tudo o resto há que consolidar, em função dos interesses conjunturais.)

Naquele dia, as aulas eram para se ter iniciado às oito da manhã, mas às onze horas, por motivos profissionais que viemos a saber depois, o Dr. Terêncio não tinha ainda chegado, o que nos anunciava que a espera já era mais do que suficiente. Eu parti para o barbeiro. Os outros, menos o Chico, não sei para onde.

Tentava eu vencer o sofrimento do meu confronto com o equipamento e a sua manipulação nem sempre fiável do meu barbeiro, quando vejo o contínuo entrar: “Menino, o Sr. Doutor mandou chamar”. E saiu para cumprir o resto da missão deixando-me com o sabor amargo da culpa imerecida.

Mal acabei o corte anestesiado pelo chamamento, fui rapidamente para o Colégio.

Dos “faltosos” fui o primeiro a chegar e a ver o Chico numa das janelas do 5ºano a gesticular para a porta de entrada, como que anunciando o que me esperava.

Assim que me aproximei do portão principal, no alto das escadas da porta de entrada para o Colégio, vi o Dr. Terêncio com cara de caso. Resolutamente avancei como que seguro no argumentário que poderia utilizar. Subi os degraus e mal transpus a porta um valente “paio” (expressão e bofetada no cachaço com que se brindavam os que tinham um corte de cabelo recente) me recebeu acompanhado com aquele timbre de voz que saudosamente recordo: “ o teu pai a trabalhar para tu faltares às aulas !!!…”. De imediato se acabou a minha veleidade de defesa e abri em correria pelo corredor e as escadas acima, terreno que inconscientemente me dizia ter vantagens.

Depois, foi fazer companhia ao Chico na recepção com que íamos brindando os restantes colegas à chegada ao “chamamento” de um homem, que agora tão bem compreendo, cuja magia dos momentos de aulas não era ensombrada por estes momentos.

Por volta da uma da tarde, com o grupo de alunos “recuperado”, o Dr. Terêncio entrou na sala como se nada tivesse acontecido e brindou-nos com uma hora e meia prodigiosa, encantatória, onde as quatro disciplinas que ministrava foram magistralmente entretecidas e servidas na hora na mais refinada bandeja cultural, captando o nosso interesse embevecido: Dr. Terêncio Lopes da Silva, o melhor professor que jamais tive.

 

O aproveitamento milesimal do tempo de recreio motivava as minhas idas diárias ao CVS.

 

Talvez ultrapassássemos o limiar do bom senso. Ou talvez não. Mas foram momentos inolvidáveis, que me marcaram. E diversificadas foram as vivências.

 

… …

 

No período em que as mangueiras, no seu esplendor, nos brindavam com mangas maduras, obviamente que todas não amadurecidas ao mesmo tempo, dois tipos de “guerra” se desenvolviam: o do abate-da-manga-tentação; e o do aproveitamento-das-mangas-desperdício. Ambos vividos com a fragrância do odor da terebintina: momentos únicos de comunhão com a Mãe-Terra.

 

O fui-eu-fui-eu era o grito recorrente, pois a mesma manga era frequentemente alvo colectivo dos apetites dos arremessadores profissionais. Na hora do espólio muitas vezes no “dá-me uma trinca” o vencedor contentava-se em chupar o caroço, como que um sedativo para os cinquenta minutos de aula, de suplício que a todos esperava, interrompia e “agredia”. Sobretudo, quando nos ditavam para o sumário “Chamadas” e nos faziam sofrer abrindo à sorte a caderneta, voltando a fechá-la e fazendo nova tentativa, viciando a aleatoriedade do gesto, até que chegava ao meu nome, na minha perspectiva

violando o acaso salvador: então, avançava não vendo nada senão a carteira que estava à frente do Amadeu, sentava-me e esperava pelo veredicto final: zero; a matéria versava o que tinha sido dado na aula anterior. Perante esta tortura, restava-nos a esperança de que ao voltarmos, a manga ambicionada com aquele tom de mistura vermelho-amarelo-verde, não tivesse ainda sido “abatida” por um qualquer outro felizardo.

 

Diferente era a segunda “guerra”, não menos ansiada pelos momentos hilariantes que provocava nos dois grupos beligerantes. Era iniciada sempre com a escolha das equipas: enquanto uns traçavam um risco fronteira que teria de ser tido em conta, como que uma fronteira que se não pudesse violar, outros dois distanciavam-se, frente-a-frente, e começavam a colocar alternadamente um pé em frente ao outro até que o sortudo final sobrepusesse o seu sobre o do adversário o que lhe conferiria a escolha do primeiro membro da equipa: vantagem aparente, pois éramos todos lançadores “afamados”, o que na escolha alternada se traduzia em soma nula de vantagens de uma equipa sobre a outra.

Remuniciávamo-nos com as mangas então caídas, na escolha das que cobiçávamos, e presenteávamos os apetites quando as “abatíamos” com mangadas certeiras. Começava então a guerra. Havia estratégias e tácticas: escolhendo o elemento “melhor” da equipa adversária, bombardeando-o com certeiros arremessos, avançando e descarregando o que as mãos e os bolsos podiam comportar de mangas anteriormente apanhadas e que nos iam grudando os bolsos e estimulando com o aroma da terebintina. O ir e vir os ataques e contra-ataques eram demolidores, assustadores mesmo, quando nós, escondidos atrás de uma mangueira, ouvíamos o esmigalhar da manga verde no seu tronco. Isto na melhor das hipóteses de defesa. Caso contrário comíamos berridas, assolados por mangadas que deliciavam as equipas quando acertavam e obrigavam o visado, às vezes, a ter de inverter o sentido do ataque, “comendo-calando-e-rilhando-os-dentes”, e valorosamente enfrentar o “exército agressor”. Como aprendi o valor da coragem, esse limiar entre a morte e a vida.

 

… …

 

Outro momento de prazer era passado no jogo da bilha. Nome simpático que conferíamos às esferas dos rolamentos. Umas maiores, outras menores. A estratégia vencedora passava, para além da escolha da dimensão da bilha em relação à dos adversários (nem muito grande nem muito pequena e vamos lá saber o que é isso de ser muito grande ou muito pequena), pela escolha atempada do campo do confronto (havia-os com muito areia, desnivelados e em terrenos com buracos) e, necessariamente, pela habilidade de cada um. Na época da moda do jogo havia vários campos espalhados.

 

O jogo desenvolvia-se entre três buracos dispostos nos vértices de um triângulo isósceles e um quarto buraco um palmo à frente do buraco do triângulo mais distante e primeiro a ser cumprido: se conseguíssemos colocar os adversários nesse recôndito, eles perderiam as valências até então adquiridas: os números de palmos que em cada volta se acumulava, até ao máximo de três. Upni-dopni-tepni era a cantilena que acompanhava os beligerantes mais realizadores.

Como era um jogo cada um por si, basicamente, jogava-se para colocar adversários perto de cada buraco do triângulo, para que pudéssemos dar “cabecinhas” (bater ao de leve na bilha do adversário) e aproximarmo-nos do buraco seguinte o máximo possível (aqui prevalecia a habilidade de cada um) para o realizarmos e assim podermos aceder a um estatuto de dopni ou de tepni (dois ou três palmos). Mas não se distribuíam todas as bilhas-adversárias a cabecinhar para junto dos buracos. A perícia dos “feras” era tal, que bastava ter um junto a cada buraco. Os outros adversários eram colocados ou dentro do quarto buraco, a evitar, ou muito perto do primeiro para serem mais facilmente abatidos ao serem acertados pelo lançamento-perícia dos que cumpriam as três voltas e adquiriam o estatuto de poderem “matar”. Os que tivessem sido empurrados para o quarto-recôndito-buraco eram abatidos de imediato com a entrada da bilha do “caçador-nomeado” por ter cumprido as três voltas ao terreno do confronto.

 

Era um jogo calmante, só interrompido por uma ou outra discussão quando alguém “remava” (impulsionava a bilha com um movimento largo do braço e não com a força basculadora do polegar), ou acrescentava mais algum espaço ao marcar os palmos rapidamente, comendo uns centímetros em que não era o mindinho a delimitar, mas, no gesto alargado, o indicador. “Artistas” …

 

… …

 

Havia mais três jogos que, frequentemente, ocupavam o intervalo: o eixo rebaldeixo, o eixo e a estátua. No entanto, não me recordo de ocorrerem simultaneamente. Cada um por si, quer para os praticantes, quer para os “espectadores”, era suficientemente empolgante para que se dispersassem as atenções.

Entusiasticamente, alguns mais miúdos onde eu me incluía inicialmente e alguns mais velhos animavam o período de recreio, para gáudio dos que, miúdos e menos miúdos, não se arriscavam nessas andanças. Havia uma violência nesses jogos, não gratuita. Devidamente regulada e colegialmente escrutinada pelos elementos participantes, mas que frequentemente fazia vir as lágrimas aos olhos dos mais corajosos. Sobretudo o eixo e a estátua.

 

Dos três, o eixo rebaldeixo era o mais “suave”. Pelo menos, em que muitos, que evitavam as outra modalidades, arriscavam participar.

A regra de jogo era, como em todos os outros, simples. Havia um árbitro no qual enganchava o grupo “amochador” e que não só vigiava o seu desmoronar, como o falar ou o (so)rir dos que “cavalgavam os amochadores” e ainda se “os cavalgadores”, depois de terem saltado, colocavam um pé no chão por causa de um ineficiente equilíbrio provocado pelo salto defeituoso, ou por desequilíbrio; paralelamente “os amochados” podiam desbobinar provocações e piadas; aos outros, “cavalgadores” e “amochadores” restava o cumprimento das regras e a aceitação da decisão do árbitro. (Como éramos tão bem comportados, tão ingénuos, ao não duvidar da decisão do juiz. Talvez porque a Comunicação Social ainda se não tivesse assumido como um poder “neutro” ao invés de um poder político-ideologicamente alicerçado na preferência e subjectividade da análise do acontecimento).

Depois era o desenrolar do jogo.

Aos “amochadores”, o aguentarem com o embate e o peso dos outros de modo a não colapsarem; aos “cavalgadores”, o saberem definir o ponto mais frágil do entrelaçar dos “amochadores” e nele concentrarem o embate e o peso dos saltos que, animados da velocidade inicial e do peso de cada elemento, faziam mossa e obrigavam “os amochadores” a uma nova série de saltos e embates, ou se se preferir os sujeitava a suportar mais uma série de ataques dos “cavalgadores”, com o peso simbólico de mais uma derrota.

 

… …

 

O eixo, o jogo mais tecnicista, era diferente. Para mim, o “rei” dos jogos de recreio.

 

Ao “amochador” e aos “saltadores” (entre cinco e uma dezena de elementos), o poder de escrutínio e decisão sobre o cumprimento das regras, que eram também simples.

Era “amochador” quem falhava um salto ou inicialmente era escolhido para tal. Cumpria-lhe, primeiro, aumentar, no fim de cada série de saltos bem executados, a distância em relação ao risco-fronteira por ele traçado inicialmente no chão, medindo-a com um pé paralelo e junto ao risco mais um pé vertical e mais um pé paralelo, que não podia ser “queimado” pelos “saltadores”; segundo, não podendo mexer-se, garantindo suporte ao salto.

Aos “saltadores”, ordenada pelo primeiro, a definição da técnica de salto a seguir: “calapa das altas montanhas” (salto em que se projectava ao máximo de altura o corpo e se o deixava cair violentamente, com as pernas bem esticadas para a frente para que o embate se produzisse com violência sobre a coluna do “amochador”); “cobras” (para que se recorde bem o efeito deste salto, desmistifico as recordações de alguns malanjinos, que evocam Malanje como um paraíso climático, muito diferente do de Luanda, que o era, esquecendo a humidade e o calor de “fritar miolos“ que se fazia sentir, durante o período lectivo das aulas, que para “uniformização” com o de Portugal, cujos estudantes tinham de ser protegidos do verão e bem, desajustaram a lógica do princípio e fizeram com que tivéssemos aulas justamente no tempo mais quente, o que anteriormente se não verificava … até onde nos levava o do-Minho-a-Timor — mas voltando às cobras, passado algum tempo de jogo, todos suavam e bem e, no salto, em vez de poisarem as mão nas costas do “amochador”, os “saltadores” elevavam ao máximo as mãos e descarregavam-nas com toda a violência nas costas do “amochador”, em busca de apoio ao salto … perante o estalar da pancada, era ver o “amochador” a contorcer-se com a dor …); “verrumas” (outra ferramenta de tortura, digna de outros tempos, em que em vez de se apoiar as mãos espalmadas nas costas do “amochador”, se fechavam os punhos e fazendo assentar os nós dos dedos com um movimento simultâneo de torção, se fustigava a zona das costas, apanhando tantas vezes a zona da coluna); “altas montanhas” (uma das mais suaves para o “amochador” que se limitava a desdobrar-se, endireitando-se e colocando-se de costas com a cabeça encolhida, oferecendo deste modo uma muralha acrescida aos “saltadores”, pois sempre era um metro e setenta, e às vezes mais, que se tinha de ultrapassar … e o que dizer deste salto quando aparecia depois do “amochador” já se ter deslocado bastante do risco inicial de controlo … lembro-me perfeitamente de se executarem saltos a dois metros de distância, obviamente, noutras técnicas que não esta …); “pickles” (uma das piores, que também solicitava capacidades psico-motoras elevadas: no momento em que as mãos poisavam nas costas do “amochador”, havia como que uma paragem do movimento quando se pontapeava com força, com o peito do pé a nádega esquerda do “amochador” — frequentemente, na fúria de fazer um pontapé “histórico” que soasse e provocasse alarido de aprovação-admiração nos assistentes e em alguns “saltadores”, falhava-se e levava-se a correspondente penalização: virar “amochador”); “esporas” (a única diferença em relação ao salto anterior, estava na forma como se agredia o “amochador”: em vez do pontapé o gesto simulava o esporear um cavalo, obviamente, sem esporas): “tesouras” (era o salto mais difícil e que só muito poucos conseguiam realizar — nisto, o Carlos Franco era um executante de excelência — pois, se o salto era formulado de frente para o “amochador”, o “saltador antes de ultrapassar o obstáculo tinha que, num golpe de rins, rodar e ultrapassar de costas o “amochador”); “cavalinhos” (aparentemente simples pois era só, a partir do risco fronteira, saltar para a frente, cair de pés juntos e formular assim o número de cavalinhos encomendados, até antes de executar o pedido-complementar; no entanto, executar uma série deles nem sempre era conseguido fruto da velocidade inicial do salto, da fraqueza das pernas, pois estamos a falar de distâncias significativas em relação ao risco-marco de partida: três, quatro, cinco ou mais metros de distância — às vezes o mesmo “amochador” ficava de recreio para recreio, de dia para dia seguinte, tal era a competência motora dos “saltadores); “simples” (não fora, geralmente, ser ordenado quando o “amochador” se encontrava a uma distância significativa do risco da chamada, o que implicava um acrobático voo e crença em como o “amochador” não se assustaria, ou não cederia ligeiramente o flanco direito aquando do contacto das mãos do “saltador”, até se poderia dizer que era um salto simples; porém, frequentemente, o “saltador” abalroava o “amochador”, ou saía disparado num segundo mergulho não requerido mas que fazia vibrar a assistência ao varrer o chão).

 

Era de facto um jogo único, na violência, no desafio às competências físicas, no questionar da lucidez do julgamento das falhas, no companheirismo, escolhendo-se tipos de saltos no sentido de armadilhar os “saltadores” menos capazes, no testar as capacidades de sofrimento dos “amochadores” e do seu sentir não vingativo quando liberto por falha de um saltador qualquer. O eixo.

 

… …

 

As regras da “estátua” eram também simples: leia-se, não ausentes de violência gratuita.

 

Duas filas separadas por oitenta a cem centímetros de “carrascos-traiçoeiros” que se posicionavam ao grito de “estátua” e que implicava a imobilidade, qualquer movimento condenatório visível pelo “percorredor-da-fila”. A completar o cenário, uma mangueira um pouco distante que tinha de ser tocada por um “carrasco-traiçoeiro” apanhado a movimentar-se, enquanto era perseguido por todos os restantes elementos em jogo, tipo alcateia na peugada da vítima, que iam aproveitando a libertação momentânea da situação de estátua e desferiam bofetadas nas costas e pontapés no apanhado, fazendo antever o que o esperava quando voltasse na condição de “percorredor-da-fila”.

Nestas condicões, os “carrascos-traiçoeiros” tentavam agredir o “percorredor-da-fila” sempre que este estava de costas. Não se julgue que o “percorredor-da-fila” estava sempre numa situação de desvantagem. À medida que ia atravessando a fila, para sua defesa ia empurrando os agressores alargando assim o corredor da tortura, o que lhe proporcionava um espaço de defesa, menos agressões. Havia sempre quem arriscasse e o agredisse, ficando nas posições mais caricatas de estátua.

 

Recordo-me recordando-me do Alberto Lopes, meu colega um pouco mais velho. Tinha um rir nervoso que o caracterizava sempre que fazia alguma. Naquele dia, quando o grupo de “carrascos-traiçoeiros”, a que ele pertencia, estava disperso, encontrando-se frente-a-frente com o “percorredor-da-fila“, assumiu a forma mais requintada de traição: subversão dos códigos, da ética do jogo, frontal e descaradamente. Fazendo preceder o acto da sua gargalhada denunciadora, arrancou a bofetada mais espectacular que então eu vira. De tal forma, que gerou uma gargalhada geral de estupefacção, dando-lhe tempo necessário de hesitação geral que lhe permitiu alcançar a mangueira salvadora sem perseguidores no seu encalço.

 

… …

 

Foi neste universo de práticas “desportivas”, paralelamente à utilização do espaço destinado à ginástica, entre mangueiras e na caixa de saltos, que me fui construindo.

Recordo ainda — fruto do rescaldo de “vinganças” apetecidas pelo desenrolar de alguns excessos, ou de alguma aversão mútua, ou ainda fruto de qualquer situação exterior ao CVS que eu não conhecia — a maior luta de Titãs de que fui testemunha e que me violentou também, dado o Julião e o Cádá serem meus amigos.

 

(O Cádá, de cujo nome não me recordo, era conhecido assim pela sua origem geográfica — seu pai trabalhava na grande empresa produtora de café do Amboim: a CADA.

Se é que os caminhos se cruzam sem lhe entendermos o porquê, cerca de quinze anos depois — trabalhava eu na Angol, empresa gasolineira angolana, e tinha como campo de acção todo o Quanza-Sul, que percorria sistematicamente pelo menos uma vez por mês — regressava de Novo Redondo para a Gabela, quando após ter deixado a estrada que se desenvolve ao nível do mar, me encontrei na plataforma que antecede o maravilhoso contraforte do Amboim, onde, logo no início, optei por um trajecto que não conhecia: o desvio por Cuacra. Bem solitário foi. Quando dei por mim, já com o pôr-do-sol em curso, estava perto de uma fazenda onde decidi tentar que me dessem guarida para pernoitar. Eram assim esses tempos: sempre uma porta aberta. Fui principescamente recebido. Durante o jantar no apalpar dos caminhos da conversa, para meu espanto e alegria constatei que estava em casa dos pais do Cádá. Cordial permanência.)

 

Então, naquele dia e naquele intervalo o Julião e o Cádá iniciaram a luta mais descomunal, mais eivada de raiva e ódio, misto de urros, pontapés, murros e baçulas. Ambos eram da minha turma. No intervalo seguinte, não houve jogos, o Julião e o Cádá não estavas esvaídos. Dois ou três dias depois, ainda não havia jogos, Julião e Cádá “conversavam” e esperavam pela trégua. Tempos depois, ciclicamente, o Julião e o Cádá ainda descarregavam o que os amargurava.

 

O Julião e o Cádá também foram o meu Colégio Veríssimo Sarmento.