O meu "Cine Paraíso"
Em Angola, a Igreja teve um lugar de inculcação político-ideológica e não há quem seja capaz de me fazer ler esses tempos só pelo componente ideológico, ou fé se preferirem. No que me diz respeito as marcas que recordo, pelo ridículo e pela saudade, resumem-se à aterrorização veiculada pela existência de um inferno e pela prática de um pecado mortal perante o contacto da hóstia com os dentes; ao espaço que havia por detrás da Igreja destinado a profissões artesanais, na perspectiva actual; ao espaço onde dei os primeiros passos como desportista-com-assistência; e à fruição dos meus primeiros filmes.
Tantas vezes o meu pai me levou ao alfaiate e ao sapateiro para me tirarem as medidas. Leia-se neste tantas vezes, uma vez de dois em dois ou de três ou em de três anos. É que, os livros, as roupas, passavam dos amigos e familiares mais velhos para nós. Novo, só para a Comunhão Solene, ou para um casamento em que eventualmente transportássemos as alianças. Eram as excepções.
No espaço da Missão ficava o primeiro campo de basquete construído, onde miúdo e pela mão do padre Danner aprendi a jogar. Lembro-me, como se agora fosse, do primeiro jogo feito à noite. Época do cacimbo, nevoeiro, um lâmpada em cada canto do campo, entre a névoa os jogadores-fantasma, o meu primeiro cesto. Uma alegria imensa ... a sensação de ser o maior, ainda que não se ouvisse um único aplauso. Não me lembro se havia assistência. Éramos nós, os jogadores, a responder à persistência do padre Danner, alguns anos mais tarde, meu professor de Francês no Seminário, quando o frequentei como aluno externo. Aqui, na Educação, é de toda a justiça relevar o papel da Igreja.
Iniciei-me no cinema com filmes do Charlot, do Bucha e Estica, do “velho” Rato Mickey, etc. Que filmes. E que vivência. Embora sempre repetidos todos os domingos à tarde, no meio de odores que só África tem, nas instalações das salas de aulas da Missão, eram sempre uma festa: "Olha atrás de ti..."; "Cuidado rapaz (nome utilizado para o personagem principal da fita)..."; palmas; assobios; gritos que não nunca deixavam ouvir o sonoro roufenho... Como era bom apropriarmo-nos dessa maneira dos filmes. Agora, com os intelectuais a falar sobre personagens, ângulos de filmagens, duplos, etc ... até assusta. Como foi bom ver filmes nos padres, em Malanje, como dizíamos então.
