Os Muxiluandas
Cadornega, com a descrição da (des)aprovação do envio de "leões, tigres e onças" na reunião entre os portugueses em fuga para a Massangano, penso que terá retratado uma aparente ingenuidade das pessoas de então. Se o desconhecimento de os Reinos de Angola e de Benguela são mais do que evidentes com a integração dos tigres na estratégia da resposta à invasão holandesa, já não penso do mesmo modo em relação à ingenuidade da hipótese dos africanos "pastorearem" essas feras. Na minha perspectiva, o que o texto de Cadornega demonstra implicitamente é o respeito pela cultura dominante de então: a cultura africana, que se trezentos anos depois era desconhecida, no século XVII, ainda mais motivos havia para o ser.
Continuando, Cadornega "Foi para Angola com o governador Pedro Cesar de Menezes, aonde chegou a 18 de Outubro de 1639 e ali seguiu a vida militar, chegando a capitão, de que teve patente em 29-1-1649, dada por Salvador Correia. Viveu 28 anos em Massangano, sendo em 1660 seu juiz ordinário e ali creou em fins desse ano a Misericórdia, tendo sido seu primeiro provedor. Em 1671 vivia em Luanda e era o vereador mais antigo da câmara desta cidade. Morreu em 1690 (?)" no Prólogo do Anotador José Mathias Delgado.
No Tomo III da obra que servirá de base a esta intervenção, no início da primeira parte onde é descrita a cidade de Luanda e a sua Ilha, retenho uma curiosidade e uma reconfirmação: a) na Ilha apanhavam a mabanga ( quem se não lembra e não tem na memória a imagem, na maré baixa, das pessoas a apanharem a mabanga no meio da baía, mais ou menos entre o Baleizão e a Ilha ) para a juntarem em pilhas, que queimadas em fogo uniforme, com uma técnica que então se dominava, era transformada em cal para ser utilizada na construção da cidade; b) ainda que referenciado recorrentemente que os africanos é quem detinham o poder, eram os senhores da terra, a irracionalidade do invasor está presente "Tem tambem hum fidalgo descendente dos que erão del rey de Congo, o qual tem nome de Governador da Ilha e gentio mixiloanda, por nome Dom Ambrozio, com outros que o acompanhão, do seu toque e fidalguia, pessoa de respeito, vestido á portuguesa, com insignia de bastão que governa aquella nação, e obedecem a seus mandatos, e elles ao Governador e Capitão Geral, como vassallos que são do Principe nosso Senhor: he gentio numerozo, bautizados, sugeitos ao jugo do santo matrimonio, e de acudirem á sua freguezia, a ouvir missa, confessar, e comungar; e quando são necessarios para o real serviço de sua Alteza, assim para embarcacoens, que são grandes marinheiros e pilotos, ou para outro qualquer serviço, passa hum sargento á Ilha a dar recado ao negro Governador para que ordene e mande seus subditos fação o que lhes for mandado pello Governador branco e officiaes reaes; e se não dá a expedição o que he necessaria, o mandão chamar á Cidade, dar razão ou descarga, a não dar execucão o que lhe foi mandado: humas vezes passa com reprezentação, e outras chegão com elle á prizão honrada, que todo este gentio se não governa, nem obedece por amor, se não por puro rigor ".
