seta

 

À guisa de metodologia

 

Os aparentes excessos das descrições, na minha perspectiva, radicam no efectivo desconhecimento daquilo que se descreve e menos num escorregar para a fantasia. Senão vejamos este pequeno texto, que é apresentado com intenções de vigilância metodológica:


" ... contar para entreter o tempo e larga viagem cada hum aquilo que sabe e mais lhe aggrada, huns cauzando admiração com seus ditos e outros movendo a riza com seu falar fresco, ainda que fosse fabulozo.
A esta imitação fazião o mesmo os soldados sertanejos, e assim disse o de que hiamos fallando que hum logar da provincia da Beira vira elle uma couve de tanta grandura que, de baixo della e à sua sombra, se allojarão huma companhia de soldados, e que ainda se podião accomodar mais; foi celebrado o dito e não contradito, havendo respeito à authoridade de quem o dizia; estava tambem naquelle ejuntamento huma pessoa de bom gosto e dos antigos conquistadores por nome Manoel da Nobrega, de alcunha o Quisaca, o qual depois disto foi capitão mor da guerra e o derrotou e matou o inimigo Hollandez, como o havemos relatado em o nosso primeiro tomo em o governo dos tres governadores eleitos, este tal lha guardou para seu tempo mettendose dias de permeyo; estando juntos os da conversação, presente o circunstante, sahio com a sua dizendo, que em Bildao, terra da Biscaya, vira elle uma cadeira tamanha que martelavão nella, e se não ouvião as pancadas de huns aos outros, a que acudio muito depressa o dito primeiro dizendo, - e para que era esta tamanha cadeira? Respodeu, - fez-se para cozer aquella couve que Vmce nos contou o outro dia, com que houve entre todos muita rizada e galhofa celebrando-se os contos de hum e outro."