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A ESCOLA

 

Diz-se ser a Escola parte integrante do aparelho ideológico do Estado.

Seja …

Em Angola, no Estado Novo e na envolvente colonialista, incluamos a participação tácita da Igreja Católica (o mesmo não se pode dizer da Igreja que, genericamente, chamo de Protestante).

 

Olhando as minhas recordações, esse manancial onde tantas vezes as coisas se confundem e me confundem, em Malanje, três Escolas me marcaram, inculcaram em mim parte do pergaminho da minha idiossincrasia, reescrito ao longo da minha vida, até apurar uma ínfima película daquilo que vou sendo hoje, onde já nada ou apenas um indelével passado está patente: o Colégio das Madres; o Colégio Veríssimo Sarmento; e o Colégio dos Padres, no Seminário.

 

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Sobretudo, foi no Colégio das Madres, talvez por eu ser uma criança que o frequentou entre os quatro e dez anitos, que a inculcação terá sido flagrante, mais evidente, impiedosa. Deus-Pátria-Família foram os alicerces; culpa-castigo os pilares; o despudor a forma como era assumida essa superstrutura.

 

A Pátria começava no Minho e acabava em Timor. A matéria pedagógica era esgotada no Portugal distante e desconhecido.

A Família, muito bem comportada, remetia a mulher para o fundo da hierarquia estruturante da sociedade, insignificante, atenta e prestável à chegada do homem a casa, quando na realidade sempre foi e é a indestrutível argamassa. Elas, as Madres, que nada percebiam da Família, deviam sentir um certo prazer quando nos ensinavam a ler a partir daqueles textos retrógrados e castradores que suportaram e moldaram a nossa (minha) primeira aprendizagem escolar.

Restava Deus de que nada percebiam, parte única dos alicerces de que as Madres se julgavam parte integrante e accionistas. Esqueciam a sua condição de uma contrafacção assumida pela Igreja Católica por um Papa qualquer para debelar o culto de Maria Madalena.

 

É basicamente da leitura de Deus que as Madres faziam, e que me foi veiculada, que me lembro dos meus primeiros tempos de Escola:

 

- Entrava na Igreja, como tantas outras pessoas, em bicos de pés, talvez para não acordar aquelas estátuas por mãos humanas esculpidas, não necessariamente pelas mãos de Miguel Ângelo, ou para não incomodar o sono prazenteiro de algum padre. E, se por acaso, a sola de um sapato mais cansado ou aborrecido chiava, ou se chocávamos com algo no cuidado de não acordar o som do silêncio decretado como divino, logo, beatamente, muitos beatas e beatos viravam as caras para nós, excomungando-nos de imediato, com olhos reprovadores ou fazendo lábios rabo-de-galinha... e, imediatamente, num gesto teatral, voltavam a cabeça para a frente para idolatrar deuses-que-não-são-Deus, enquanto outros, mais cuidadosos na identificação do pecador, mantinham a expressão e, como a achavam insuficiente para o cabal servir a Deus, reforçavam-na com o dedo indicador junto ao rabo-de-galinha. E eu ouvia sem ouvir: CHIU … Pronto; estava identificado e condenado: era culpado. Restava-me esperar pelo dia seguinte, geralmente uma segunda-feira, para ouvir o veredicto -- pois havia sempre uma Madre estrategicamente colocada, pelo menos assim me parecia pois nunca escapava nem ao virar da cabeça para trás nem ao sorrir para uma cumplicidade silenciosa com um amigo – que era invariavelmente o de culpado: de imediato, na sala de aulas, tinha que ajoelhar-me e rezar já não sei quantos o quê; para descansar, tinha que ir ao confessionário para esconjurar os demónios e lavar-salvar a minha alma, apaziguando-as. Enquanto elas, as Madres, caminhavam ou falavam de outras coisas mundanas, ou pelo menos mais terrenas, dedilhando maquinalmente aquele terço comprido que lhes pendia do lado direito e sempre a jeito do bolso onde o tilintar das chaves (se calhar as do Céu) se faziam ouvir: eu, envergonhado, acabrunhado, ressentido, ia falar ao ouvido de alguém escondido atrás de uma rede, mas que reconhecia pela voz, o que aumentava ainda mais os meus tormentos do momento, preparava-me para ter de rezar mais uma vez não sei quantos o quê, cujo significado profundo nunca vislumbrei. Depois, tinha que ir comungar. Lá aparecia mais uma missa na rotina da semana, com o pavor associado de tocar com a hóstia nos dentes. Oh quanto terror … Deus, tu não mereces isto …

 

-- Outra altura em que a culpa-castigo partilhava o “sadismo” das Madres era nas procissões. Por nós muito esperadas, pois eram o prolongar do dia. À noite, com o vento que geralmente se levantava nas terras planálticas, as procissões eram um local ideal para a garotice. Procissão das velas, percurso extenso, nós nas filas de guarda (não sei se é assim que se chamavam), amigos logo ali: a tentação borbulhava. Apagávamos a nossa vela, já que o vento a maior parte das vezes não se atrevia, não sei com medo de quê, íamos até um amigo e pedindo-fogo-soprando apagávamos a vela do companheiro, que ia repetir a mesma situação junto ao amigo mais próximo. Era uma festa que Deus pela certa compreendia, sé é que ele se preocupa com os terráqueos. Mas, nesta lógica em cadeia, quem perdia geralmente era eu. No dia seguinte, havia sempre uma Madre que tinha visto, era o ajuste de contas. Geralmente, aqueciam-me as orelhas; ou as mãos …

 

Nada mais me ficou das Madres …

 

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No Colégio Veríssimo Sarmento, estas “pressões” não se fizeram sentir nem de perto nem de longe. No entanto, foi nessa altura que contactei a Mocidade Portuguesa.

Todos os sábados. Eram sempre esperados com ansiedade. Foi-me dada a oportunidade de praticar e de me iniciar no desporto mais técnico e com mais regras do que o simples correr e saltar da minha rua. Os equipamentos necessários também eram cedidos pela Mocidade Portuguesa: hóquei, basquetebol, voleibol, handbol, atletismo, aeromodelismo, ping-pong e acampamentos. Como recordo todos esses momentos. O “serviço militar” era mais um momento lúdico, para mim: sentido, descansar, direita volver, esquerda volver, passo em frente, um passo atrás, dois passos atrás, em frente marche … Tudo inócuo. Mas com um delegado da Mocidade Portuguesa, cujo nome já não sou capaz de nomear com precisão, as coisas pioraram um dia. Num dos momentos, antes de destroçarmos para ir para o desporto, apareceu um intermédio que não era do meu agrado:”Cinco minutos de elevação espiritual”. O Padre que nos ocupava este momento, logo na primeira intervenção, disse-nos “Os cinco minutos de elevação espiritual, não chegavam a ser cinco minutos de elevação espiritual …”. Desses momentos o que me ficou foram os-cinco-minutos-de-elevação-espiritual-que-não-chegam-a-ser-cinco-minutos-de-elevação-espiritual.

 

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Curiosamente, do Seminário, Colégio dos Padres para “os civis”, não resta nada da acção ideológica, a não ser o que trespassava os programas, mesmo isso superado pela qualidade dos professores que me prepararam para fazer o 5º ano do liceu.

Se houve um momento de conflito latente, à nossa “criatividade-delinquência-rebeldia” de jovens se deve. Depois das aulas, que duravam até cerca das 16 horas, fazíamos sempre mais duas de sala de estudo: um suplício, para quem queria ir para a cidade usufruir da liberdade, que representava o Colégio dos Padres lá do outro lado da cidade de Malanje.

Eu, o Zé Gui e o Fernando Eugénio Ferro Bessa tivemos uma ideia brilhante para sabotar o período da sala de estudos. Como qualquer “criminoso” que deixa sempre um rasto, sobretudo sendo um “criminoso” amador, na nossa sala de aulas, que era sempre a mesma, abrimos uma tomada eléctrica e, com instrumentos previamente preparados e trazidos de casa, ligámos os bornos com um arame de cobre grosso e fechámos a tomada. E como se tal nada tivesse a ver connosco, na hora aprazada dirigimo-nos à sala de estudos. Por volta das 16H30, quando começava a escurecer dentro da sala, o Padre que vigiava a sala ligou o interruptor na esperança de que o problema da falta de luz tivesse sido ultrapassado. Mas “a luz não se fez” - a vida terrena era bem mais complicada … - e tiveram de nos mandar para casa. E a situação repetiu-se nos dias seguintes para dores de cabeça de quem geria o Seminário. Hoje, que me desculpem os seminarista que passaram a noite à luz da vela e que tiveram de fazer não sei o quê.

Passados dois ou três dias, fazíamos uma prova de avaliação de matemática na aula do Padre Nogueira, meu futuro colega na Escola Industrial e Comercial de Malanje como professor, quando entrou na sala o electricista da Sadel, que andava a despistar a causa da avaria ponto a ponto. Chegada à tomada-crime, assim que a descascou, (estou a ver a sua expressão de perplexidade a tirar os óculos escuros com que sempre andava), voltou-se para trás e viu a expressão de pânico dos três. Calmamente, voltou-se para a frente, terá tirado a causa do curto-circuito e, depois, saiu da sala. Não me lembro do seu nome, mas tantas vezes joguei bilhar livre com ele.

 

Obrigado amigo por saberes na experiência da vida como estas coisas são.