ANTÓNIO DE OLIVEIRA DE CADORNEGA, HISTÓRIA GERAL DAS GUERRAS ANGOLANAS 1680

António de Oliveira Cadornega,  ao escrever a sua História Geral das Guerras Angolanas 1680, deixou-nos um trabalho importante visto não haver muitos registos publicados dessa época.

 É um trabalho em três tomos, dos quais os dois primeiros nos dão conta da presença portuguesa e holandesa no Reino de Ngola. O que me proponho transcrever será sempre um arbítrio, pois trata-se de um resumo enfocado, obviamente, pela minha grelha político-ideológica. De imediato o meu pedido de desculpas.

 Para além de Cadornega, transcrito entre aspas e em bold, aparecerão entre parênteses rectos e em itálico anotações de José Mathias Delgado, Professor da então Escola Superior Colonial. Eventualmente farei comentários, em tipo de letra normal, mergulhados nos meus fantasmas político-ideológicos dificultados pela minha incapacidade em me posicionar no século XVII com as idiossincrasias da época. Como seria bom se existissem investigações em torno dos mitos e crenças angolanas de então.

 [ O autor diz no prólogo quem era. Foi para Angola com o governador Pedro César de Menezes, aonde chegou a 18 de Outubro de 1639 e ali seguiu a vida militar, chegando a capitão, de que teve patente em 29-1-1649, dada por Salvador Correia.

Viveu 28 anos em Massangano, sendo em 1660 seu juiz ordinário e ali creou em fins desse ano a Misericórdia, tendo sido su primeiro provedor.

Em 1671 vivia em Luanda e era vereador mais antigo da câmara desta cidade. Morreu em 1690 (?).

Em 1681 completou os seus três tomos sobre Angola, sendo dois: A história geral das guerras angolanas e o terceiro, que, a-pesar de ter o mesmo título, não é história de Angola, mas é uma notícia geográfica e uma narração etnográfica de tudo o que lhe contaram e ele viu: mas gesgrafia e etnografia a seu modo; pois não localisa os lugares onde muitos dos factos se realisaram; ele tinha muito poucas noções de geografia, porquanto nem emprega os nomes dos quatro pontos cardeais, excepto o nascente e poente uma ou outra vez; sobre etnografia conta como verdadeiros e com convicção os factos mais absurdos e inverosímeis, revelando a maior ignorância neste ponto.

Basta a ingenuidade com que ele conta, no cap. 9 da II parte do 1º tomo, o modo como os portugueses pensaram em 1641 em se verem livres dos holandeses, para provar bem a grande credulidade do autor.

Estavam os portugueses com o governador e o Bispo D. Francisco do Soveral acompanhados em um arraial próximo do Bengo, depois da fugida de Luanda.

Estando em conselho o Bispo, câmara e todos os moradores, algumas pessoas mais inteligentes das cousas da terra disseram que havia negros encantadores que essas pessoas mandariam buscar para que deitassem na cidade tigres, onças, e leões que matassem muitos dos holandeses; que o Bispo se opôs a isto dizendo que não era limpa, se não muito suja, pois havia de ser feita por arte diabólica, o que não convinha. ]

( … )

[ Cadornega tem desculpa em não ser exacto nas datas ou em não dar as dos factos passados antes da sua chegada a Angola.Na fuga de Luanda em 1641, pela tomada daquela cidade pelos holandeses, os portugueses levaram consigo os livros da câmara. Estes livros iam pelo rio Bengo em embarcações onde também iam os doentes, que não podiam caminhar.

Os holandeses indo em sua perseguição matáramos doentes e deitaram ao rio os livros todos e assim se perderam documentos que dariam muita luz à história de Angola. ]

 Sem pretender ser defensor de Cadornega, as fragilidades apontadas por Mathias Delgado em nada retiram à obra. Aliás como este tão bem reconhece …

 [Era dotado de um grande espírito de observação e conta os factos de tal modo que se torna agradável e de interesse a leitura da sua história, posto que à primeira vista nos amedronta pela enormidade dos seus compactos capítulos.

A sua maneira de escrever é tão natural, tão fluente e simples que nos encanta, nos deleita e sobre tudo nos comove, fazendo-nos passar deante dos olhos factos admiráveis de grande heroísmo e verdadeiras epopeias.

Teve gosto pela leitura de livros históricos e aproveitou isto com felicidade, pois nos seus dois tomos da História Angolana menciona vários autores, fazendo grandes citações deles e às vezes faz felizes comparações de história universal com factos de Angola.

Na ortografia não imita aqueles autores, pois os erros que escreve são inúmeros. ]

Umas no cravo, outras na ferradura … embora esta breve apresentação feita pelo anotador Mathias Delgado nos deixam em aberto a curiosidade pela obra de Cadornega.

Passemos pois à História Geral das Guerras Angolanas 1680, seguindo justamente a estrutura proposta pelo autor: a história da presença de cada governador é em si um tema.

 Angola foi uma conquista como o autor reconhece e não só uma mera procura do reino de Preste João e de um espalhar da fé cristã. A estratégia imperial de D. Manuel I é diferente da de D. João III e seguintes. Se o primeiro nos seus quadros de referência retinha o encontro com o lendário Preste João, tendo em vista A Grande Cruzada e a unificação da cristandade dividida por guerras internas à Europa, o segundo terá compreendido a fraqueza portuguesa assente unicamente no mercado com a Índia e terá iniciado uma estratégia de ocupação territorial.

 Mas, voltemos a Cadornega:

 “CAPÍTULO PRIMEIRO DA PRIMEIRA PARTE DA

HISTÒRIA GERAL DAS GUERRAS ANGOLANAS

ESCRITAS POR ANTÓNIO DE OLIVEIRA CDE CADORNEGA

CAPITÂO REFORMADO E CIDADÃO DA CIDADE DE

SÃO PAULO D’ASSUNÇÂO NATURAL DE VILLA VIÇOZA”

 Como que fazendo uma breve introdução à conquista do Reino de N’Gola, Angola na terminologia portuguesa, o autor começa por nos descrever um episódio ligado ao reino do Congo, com quem Portugal comerciava há já algum tempo, ligando-o a uma hipotética primeira presença de Paulo Dias de Novais nessas terras africanas …

 “ Alguns Portugueses que forão por via do porto de Pinda e Condado de Sonho do Reino de Congo ajudarão aquelles Reys em suas Conquistas e a defendelos de alguns exercitos de Jagas que descerão da Serra Leoa a infestar aquelle em cuja defensa se mostrarão e assinalarão aquelles Portuguezes valerozamente defendendo o dito Rey de tamanhas oppressoens alcançando muitas victorias dos ditos Jagas [ A invasão dos Jagas no Congo foi no tempo de D.Afonso I. Este Rei deve ter começado a reinar depois de 1566, e, segundo diz Cavazzi, nas pags. 221 e 222, morreu em 1587. Duarte Lopes, que deve ter andado pelo Congo desde 1578 a 15588, diz como foi esta invasão e que o  Rei do Congo, tendo fugido de S. Salvador, se refugiou em uma ilha do Zaire, que os portugueses chamavam ilha dos cavalos, por causa da grande abundância que ali havia de cavalos marinhos: esta ilha era já na embocadura do rio, segundo o mesmo Duarte Lopes diz; d’ali mandou o Rei pedir socorro a D. Sebastião; ele lhe enviou logo Francisco de Gouveia, que tinha sido capitão de S. Tomé, com 600 soldados. Gouveia foi ter com o Rei á ilha dos cavalos e juntamente com todos os portugueses que ali estavam e com os indígenas foram atacar o inimigo; depois de grandes marchas e de numerosos combates, em uma guerra que durou ano e meio, expulsou inteiramente do Congo os Jagas, que o estrondo da artilharia e dos arcabuzes, que eles não conheciam ainda, espantou mais do que o numero ou o valor dos seus adversários, e restabeleceu o Rei no seu trono em S. Salvador.] “

( … )

E tornando ao esforço com que houverão os Portuguezes na desfensa e amparo del Rey de Congo foi sua fama correndo de calidade vendose el Rey de Angola [ Este último nome foi em 1626 limitado ao novo reino do Dongo, pela eleição do soba Ngola Aiidi, em 12 de Outubro do dito ano, que ficou com o titulo de rei Dongo e foi viver para as Pedras de Mapungo ] opprimido e moçestado daquelles cruéis e carniceiros Jagas que descerão tanto de suas terras que a tudo abrangião, ( … ) sabendo o dito Rey de Angola o esforço e valor com que se tinhão mostrado havido os Portuguezes mandou os seus Embaixadores ao de Congo pedindo-lhe mandasse os mundeles [ mundeles chamão aos Brancos ] ou parte deles para o ajudarem a defender de seus inimigos ( … ) alcançandocom dita ajuda dos Portuguezes grandes e assinaladas Victorias de todos os seus inimigos, depois de o haverem livrado de tão grande moléstias, em pago de beneficio tão grande, ou por enveja de seu grande valor de ver os feitos que empreenderão em seu serviço, tratou de os querer mandar matar, e para conseguir esta amlvada trayção com astúcia os fez dividir pellos Sobas seus Vassallos ( … ); feita esta prevenção e divisão, a huns mandou matar, e a outros garrotar que não podessem dar passo, nem serem Senhores de suas acçoens; ( … ) a piedade ou affeição de huma Infanta filha deste Rey livrou a cinco Portuguezes de tamanha tirania, mandando esconder de tamanha tirania, mandando os esconder de sua fiereza em terras de um fidalgo Sova Vassallo de seu Pay que tinha suas terras e Senhorio no Rio Mucozo que desagoa suas agoas em o famoso Caudaloso Rio Cuanza, o sova era de apelido quilonga quiabungo que hoje conserva o mesmo nome e terras em o mesmo sítio, dando a obediência, como Vassalo que he do Príncipe nosso Senhor, á fortaleza de Cambambe ( … )

A quem ordenou aquella piedosa e affeiçoada Infanta com todo o segredo mandasse fazer huma Canoa que se faz de um só pau chamado mufuma ( … ) Entre estes Portuguezes entrava Paulo Dias de Novaes, por cuja causa fazia a filha daquele Rey [ (…) sobre a historia de Paulo D. de Novaes ser salvo pelo amor da filha do Rei, parece ser uma lenda. As cartas dos Jesuítas no citado Bolçetim da Sociedade de Geografia não fazem alusão alguma a isto. ] “

 Depois Paulo Dias de Novais e seus companheiros terão remado pelo Cuanza até Pinda, onde apanharam uma nau que os levou até Portugal.

 “ Partidos que forão do nosso Reino [ Paulo Dias de Novaes partiu de Lisboa em fins de Novembro ou princípios de Dezembro de 1574; foram por Cabo Verde, parando em uma das ilhas; d’ali sahiram em 17 de Dezembro. Chegaram á ilha de Loanda em 20 de Fevereiro em 1575. ] vierão fazendo sua derrota em busca desta Costa da Ethiopia que tiveram os Antigos por não habitada chamandolhe a tórrida Zona, até que depois de tão larga navegação e contrastes do Mar veyo Paulo Dias de Novaes com suas Nãos e mais companhia, a tomar porto em São Paulo de Loanda, como quem o tinha preditado quando foi em Canoa Coata a Costa até o porto de Pinde ( … )”

 [ Paulo Dias de «Novaes» teve patente de conquistador de Angola em 19 de Setembro de 1571; por esta patente foram-lhe dadas muitas atribuições e era-lhe feita doação de 35 leguas de costa a começar no rio Cuanza para o Norte e de fundo o que ele descobrisse. ]

 Assim se iniciou a conquista de Angola.

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A CONTINUAR

manuel secca ruivo   msruivo@clix.pt