Estávamos em meados dos anos 50, quando a aspiração independentista africana ganhava adeptos e na ONU começavam a pressionar Portugal. E de um dia para o outro eles apareceram com um certo estilo bajulador, com uma certa existência oportunista. Durante anos foram uma presença constante, mais o seu ritual do faz de conta. No limite, actores passivos numa peça encenada pela História: os esbracejadores que nos pareceram de supetão, por volta de 1954 ou 1955 e ainda se mantiveram até ao início dos anos 60. … ( Cinquenta e poucos anos depois, eles persistem: moldando-se às circunstâncias, ajustando slogans, reproduzindo compadrios, robotizando gestos fruto das campanhas de marketing político, mimetizando tiques. Envergonho-me quando recordo a amanadação despudorada que o PS conduziu nas últimas autárqicas de Lisboa, fazendo chegar à sede de campanha cidadãos desprevenidamente enganados para apoiar um seu correligionário: Malanje, cinquenta anos depois, diluviou sobre mim: em vez de carros do lixo, autocarros.)
Estudava eu no 1º ou no 2º ano do liceu, no Colégio Veríssimo Sarmento. Arregimentavam-nos para o jardim municipal, para o Palácio do Governo Civil. Como nós, alunos de outras escolas eram arrebanhados: os da Escola Comercial e Industrial, as alunas do Colégio das Madres e os das Escolas Primárias da cidade.
Evidentemente, os funcionários públicos também não podiam escapar ao “chamamento”.
As camionetas do lixo e de apoio às obras municipais chegavam abarrotadas, no sentido literal da palavra, e estacionavam do lado oposto do jardim, do lado da estação dos caminhos-de-ferro, onde despejavam a população das sanzalas. Sorte para estes “dedicados” portugueses porque as camionetas não dispunham de sistemas hidráulicos de basculção. O raio de acção da convocação dependia da importância do acto no sentir dos esbracejadores.
Os regedores ataviados ao mais puro estilo colonial iam colocar-se num local visível. Nunca percebi se era para serem mais facilmente contados e identificados, evidenciando a sua presença; se era uma forma de expressarem a angústia de anos de repressão, como que em afronta, em silêncio digno e dorido: “estamos aqui, não têm vergonha?”; ou se era para poderem também beneficiar pessoalmente de benesses coloniais … mais-barril-menos-barril-de-vinho; mais-lantejoulas-menos-lantejoulas para enfeitar as fardas …
Havia de tudo e para todos …
Entretanto, na varanda do Palácio, os esbracejadores num esforço de união iam incentivando os correligionários com soturnos “muito bem”, “apoiado”, enquanto que os chefes da claque no terreno percorriam da Fazenda às Obras Públicas a gritar “Viva Portugal”. Patético. Aqui se começou a ensaiar o movimento “onda” actual dos estádios de futebol. Com uma diferença: quando se chegava ao meio da assistência o bloco inicial dialogava em Kimbundo, num tom monocórdico, não ciente e não sentido, do momento que os esbracejadores entendiam como solene.
Acabado o ritual, sem perceber, porque não conseguia seguir a verborreia, e depois de muitas palmas e assobios de regozijo não sei de quê, a correr dirigia-me para a parte central do jardim, mesmo em frente do Palácio do Governador. Era a delícia, o mel, o perfume, o êxtase, o clímax da jornada. Os marimbeiros do Duque de Bragança.
Rompia a frente que se entrepunha entre mim e os músicos. Lutava por um lugar. Talvez por ser um kandengue deixavam-me ir avançando até conseguir ver os marimbeiros. Ali, à minha frente. Hoje ainda retenho a magia do momento. Africano. Puro.
Acocorados, como só os africanos o sabem fazer, conscientes de que o tempo não conta, os marimbeiros acocoravam a magia da música. Aos pares, ou isolados, frente às marimbas que os convocavam, iam numa aparente dissonância, entre o timbre metálico e da cana rachada das tábuas sobre as cabaças que percutiam, melodiando e ritmando África. A minha África … ( bem-haja os esbracejadores, que me deram a conhecer estes momentos encantatórios ).
Algum tempo depois, um ou dois anos, acastelaram-me. Comecei a integrar este momento com a farda da Mocidade Portuguesa. Estava institucionalizado. Servilmente, passei a pertencer aos "apoiantes tácitos" dos esbracejadores, com direito a situar-me mesmo defronte da varanda do Palácio do Governo Distrital.
Por onde andavam os meus marimbeiros ?...
Palavra a palavra sentemo-nos à volta de uma fogueira. Com a minha idade, egoisticamente, à volta de uma lareira, com um bom petisco, um bom vinho tinto e a nossa companhia.
O texto sobre o "meu" leão - como se vê não percebo nada de leões a não ser daquela canção dos meus tempos de miúdo "Hoje vi um leão, leão, leão/ que não era um leão, leão, leão/ ... o que era então?/ Ai era a mulher do leão .../ que bicho, que bicho era então?/ ... que bicho, que bicho era então?/ ... que bicho, que bicho era então? ..." - fez-me recordar outros momentos:
Primeiro, esclareço o porquê da galheta ao Manuel Kiluanji, não vão pensar que eu era um "galhetador" confesso e militante. Esta madrugada, no rescaldo de mais uma insónia, ou sonos trocados pois não tenho nada que me possa tirar o sono, relembrei o que se tinha passado, precisamente, há trinta e oito anos. E foi ontem.
No dia seguinte iria passar os meus cinco dias de férias fora do Bembe (um dia de viagem até Luanda, outro até Malanje, outro em Malanje para festejar três dias depois o meu aniversário, outro de regresso a Luanda e, por fim, outro de regresso ao Bembe). Estava de serviço. Cerca das dez da noite, hora do recolher obrigatório, veio um soldado avisar-me que queriam agredir um cabo especialista do meu pelotão, o Coito. Saí disparado da casa onde se alojavam os oficiais. Comecei a descer, em corrida, chamemos-lhe a rua principal do Bembe, ao fundo uma curva à esquerda, e confrontei-me com a cantina dos soldados, com dois oficiais, furriéis e sargentos a observarem a cena onde em primeiro plano um grupo de soldados rodeava o Coito e vociferava. Bem bebidos. O pequeno declive que se acrescentava ao da rua principal e a névoa que me toldou aumentaram a velocidade da minha corrida. Não sei porquê, instintivamente, ao chegar ao grupo, esbofeteei enraivecido pela cena e passividade de quem já deveria ter actuado. Apanhou o Manuel Kiluanji ... Nunca pensei possível. Levantou do chão e provocou efeito de dominó. Uma série de soldados caídos, que se levantaram de imediato, e a correr espavoridos foram para os respectivos dormitórios, cumprindo assim as normas. Chateadíssimo, fora a primeira vez que agredira fisicamente alguém, com a desculpa de ter de me levantar cedo, para na manhã seguinte seguir para o Tôto e apanhar o "barriga de ginguba", fui-me deitar. Na manhã seguinte, estavam, deixa-me exagerar, os soldados todos à minha espera para se despedirem de mim. Logo à saída da casa, aguardava-me o Manuel Kiluanji, que sem palavras, tirou-me da mão o saco de viagem e só mo entregou quando estava em cima do Unimog. E esqueci tudo. Mas quem é humilhado não esquece. Manuel Kiluanji só me desculpou, do fundo do coração, no confronto com África profunda, em Marimbanguengo, com a morte do leão ...
Que calor maravilhoso vem da lareira ...
O leão encontrei-o para Sul de Marimbamguengo. Nesse mês que lá passei a tempo inteiro, uns dias antes do leão, chegaram ao aquartelamento devidamente escoltados dois jeeps com canhões sem recuo montados. Sem aviso prévio. No maior dos sigilos. Perguntei ao que se destinavam, mas nem o alferes que comandava a coluna, nem o furriel responsável pela secção de artilharia presente me souberam responder concretamente. Enviei um "rádio" para a sede da companhia, em Marimba, para que me informassem. Duplamente codificado: não referindo os canhões sem recuo; e em mensagem cifrada. Responderam-me "utilize", com os mesmos cuidados de codificação. Jantámos nas calmas, conversou-se, deitaram-se abaixo bué de cervejas, fui-me deitar. Acordados que fomos antes de nascer o Sol, matabichámos e iniciámos a marcha para os "utilizarmos". Descemos o Kuango, caminhando para o Norte. Dei campo de acção ao furriel de artilharia, salvaguardando que não via qualquer outra interpretação para a "utilização" que não fosse bombardearmos Kinkuso. Não estava a ver a deslocação de tal equipamento para eu fazer tiro ao alvo ...
Armei-me em Patton com os binóculos do furriel colocados a tiracolo, numa banga. Pus-me a observar o outro lado de lá. O Zaire. Sabíamos que era naquela direcção do outro lado dos morros, que se siyuava Kinkuso. Ensurdeci ao primeiro disparo e olhando pelo binóculos procurei detectar resquícios da explosão. Mas muito menos tempo do que era esperado, a reacção do resto da malta. Ainda fui a tempo de me aperceber de que a explosão tinha sido na margem do Kuango e do nosso lado. Acreditei com os meus botões que fosse um tiro exploratório, olhei para o furriel de artilharia, que concentradamente se debruçava de testa enrugada e manuseava os aparelhos de pontaria. Aguardei. Segundo sopro e explosão. Pattonianamente, retirei os binóculos perante as exclamações a tempo de ver uma coluna de água a levantar-se no meio do Kuango. Estivemos nesta mais dois ou três disparos. Aconselhei o furriel a fazer o tiro destecnicamente. Assim, por feeling. De mal o menos. Então dispararam-se algumas ameixas, irresponsavelmente à toa.
Meses depois fui ouvido por um tenente-coronel. Apresentou-se-me com as razões e a gravidade do acto, com direito a reclamação na ONU, querendo saber da minha defesa. Só tinha os dois "rádios". Lê-os e fomos beber uma cervejinhas bem geladinhas, reconfortantes ...
Marimbanguengo, Bandeira e Paulo Mazuquina.
Dois ou três meses depois, uma grande acção militar teve lugar. Não a acompanhei devido à minha condição de alimentador do saco azul do capitão de então. Caçava ... Na contrapardida, viagens com alguma frequência a Malanje para ir ter com a Suzana.
Mas, foi uma acção bem sucedida. O Bandeira e os seus TES atacaria Kinkuso, o pelotão de Marinbanguengo ficaria a apoiar a retirada na margem esquerda, e os GEs comandados pelo Mazuquina apoiariam a retirada na lmargem direita do Kuango, já no Zaire. Desencadearam a acção pela madrugada. Quase ao raiar do dia ouviu-se o confronto no Zaire, seguido de uma enorme explosão. Viemos a saber que foi provocada por um roquet ao acertar naquilo que devia ser o paiol.
O pelotão de Marimbanguengo, tendo como uma das missões garantir a travessia do Kuango começou a movimentar-se à medida que foram aparecendo GEs. Estes ao chegarem a Angola eram logo recambiados para Marimbanguego para depois "desaparecerem". Quando Paulo Mazuquina chefe destes GEs chegou a Marimbanguengo, ofuscado pelo resplendor dos galões de tantos estrategas, declarou para comoção geral "dêem-me as bandeiras de Portugal que quiserem e digam-me em que parte do Mundo a querem colocar ...". E retirou-se na sua glória e aplausos palacianos ...
Entretanto, horas depois, chegou o Bandeira e o Dias, responsável por Marimbanguengo. A travessia dos TEs foi épica, pois a protecção foi feita debaixo de intenso tiroteio de contra-ataque da FNLA. O Bandeira, que perdeu um homem, ao chegar à comemoração dos "vitoriosos de bancada" só gritava de arma aperrada "Onde está esse ...".
Paulo Mazuquina. Esse mesmo. O posterior medalhado na Praça do Império ... estou mesmo a vê-lo, depois de ter recebido a medalha, num gesto único e inesperado, a destroçar e a correr com ar pateticamente esgazeado para a estátua de D.Pedro V, a trepar e a semear mais uma das suas bandeiras portuguesas. E Marcelo aplaudiu, ainda que sem perceber do que se passava ...
Hoje, uma estória especial. A de então, Cacimbo de 1968.
Apetece-me conversar convosco através de uma experiência que vivi e que me persegue diariamente. Sem exageros.
Não fui caçador profissional nem nada que se pareça. De miúdo, às vezes acompanhava os mais velhos nas suas caçadas, para ver abater um ou outro antílope.
Cumpri o serviço militar no Bembe e em Marimba, onde passei imensas horas a caçar. De caçador tenho apenas três anos, e "a meio tempo". Algumas memórias, outros tantos sustos, imensas canseiras e muita aprendizagem. Algumas vezes em frente-a-frentes leais, outras eticamente reprováveis com o uso do farolim, mas que em contexto de guerra eram aparentemente mais seguros.
Fui enviado para Marimbanguengo, mesmo naquele ponto em que o Kuango do lado de Malanje se junta àquela linha que delimita a fronteira da Lunda com o Zaire, para substituir temporariamente o alferes que comandava o destacamento militar. Uma missão para cerca de um mês. Levei comigo alguns soldados do meu pelotão: necessariamente, a equipa da caça estava lá toda.
Naquele dia preparei-me para sair ao pôr-do-sol, alertado que fora pela falta de carne para as pessoas do destacamento e espevitado pela conversa tida com um furriel que chegara nesse dia ao destacamento e que se apresentava como experiente caçador, de Benguela.
Marimbanguengo era uma zona que não conhecia cinegeticamente falando. Arrisquei pois ir pelo conhecido. A estrada que ligava a Marimba. Cedo reparei que o furriel, cujo nome já não me recordo, não dominava a arte de farolinar: da leveza da técnica, ao discernimento dos olhos reflectidos. Era um farolinar pesado, como que querendo carregar com o unimog. O foco grudava-se na noite escura como breu. O unimog pendulava nessa corda fantasmagórica aumentando os mistérios da noite africana. Ao atingir um extremo da amplitude, os soldados reagiam. Um resmungar, misto de kimbundo-umbundo-português, elevava-se e ecoava. Não há quem goste de ser iluminado cadenciadamente. Muito menos em zona de guerra. Depois com esforço, ficava com a sensação que utilizava as duas mãos, mudava o foco do farolim para o outro lado da estrada, onde se repetiam os resmungos. De vez em quando, sem a sinalética tradicional e contrariando a regra do silêncio, gritava excitado "pára, pára ... olha ali, olha ali". De início, pedagogicamente, dizia-lhe que era um noitibó e até saí do banco ao lado do condutor, uma ou duas vezes, para espantar e provocar o voo da ave. O frio, o unimog ia sem capota, as lágrimas que escorriam pela face, o banho de pó que nos invadia quando a viatura parava, o cheiro a queimadas não nos demoviam de continuar. Eram factor de adrenalina. Sempre de olhos fixos naquele ponto de luz. Expectantes.
Depois, a insistência no erro levou-me a passar-lhe para a mão a minha Mauser para ele abater o que idealizava ser uma peça de caça. Tiro a tiro lá se foi convencendo que noitibó não é soco, palanca, quissabel ou mesmo corça, muito menos pacaça. Noitibó é noitibó.
Já perto do desvio para Mangando, regressámos.
Ao chegar a Marimbanguengo não me agradou o sabor da noite de caça falhada. Seguimos ao longo do Kuango em direcção ao norte. Mas os deuses da caça estavam zangados connosco, ou com o furriel. Não vimos nada. Só deu para comunicar com alguém que também caçava do outro lado do rio. Talvez alguém do acampamento militar da FNLA. Farolinavámos o céu gesticulando e do outro lado respondiam do mesmo modo. Nunca soube o que queriam dizer. Eu pela minha parte respondia em pensamento "também estamos aqui & tiveram mais sorte?". Chegados de novo a Marimbanguengo tentámos descer o Kuango, penetrando Angola.
Chegados a Bumba, desligámos o farolim. Nunca atravessei uma sanzala de farolim ligado. Era uma regra intuitiva, e só muito mais tarde vim a saber que o contrário conectava tragédia. Mas, na ânsia de caçar, o furriel imediatamente a seguir a Bumba ligou o farolim. Não tínhamos percorrido cinquenta metros quando vi atravessar rapidamente a estrada, no limite da zona de luz difusa do unimog, da direita para a esquerda, uma mancha castanha. Imediatamente me coloquei de joelhos no banco, o condutor acelerou o carro uns metros até ao local de entrada do animal, " soco, soco .." sussurraram alguns elementos da minha equipa, parou o unimog, e entre o pó que nos invadiu, a reflexão da luz do farolim nesse pó, a mancha difusa castanha que via fugir no meio de capim mal queimado, e a excitação, disparei. Sobrepondo-se ao eco do disparo um urro enregelou-nos ainda mais na noite cada vez mais fria. Há momentos que não flúem. Catapultam-se caoticamente. Momentos de confusão perante o inesperado e potencialmente perigoso. Desde o furriel ter apagado o farolim para reacendê-lo por detrás de mim sobre o meu ombro, que não me permitia ver o alvo, unicamente o ponto de mira; aos meus gritos para que voltasse para onde estava anteriormente e para que a minha equipa metesse bala na câmara das FN e só disparasse caso o leão avançasse; até ao ter de recarregar de novo a Mauser pois só tinha uma bala para um encontro que não pressupunha o grau de perigo encontrado; tudo se escoou numa fracção mínima de tempo insuportavelmente infindável. De novo refeita a "normalidade", o foco mostrava-me os olhos imensos e brilhantes à minha frente. Vinte, trinta metros. Calmamente, apoiei a Mauser no pára-brisas, apontei o segundo tiro. Novo urro e um grande salto do leão para o lado direito. Só então ouvi o silêncio que se sobrepõe a um disparo na noite africana. Até o coração ecoa. Pedi que o condutor entrasse pelo capim queimado adentro, lentamente. Com a Mauser preparada e salvaguardado pelas FN.
Parámos a cinco-sete metros. Aguardámos minutos infindáveis. À nossa frente, só iluminado pelos faróis, uma imagem única nas "fotos" da minha vida. Deitado, imenso e uma juba maravilhosa, com uma torneira aberta na cabeça jorrando sangue, estava o leão. A cabeça entre as patas dianteiras cruzadas. O motor do Unimog a trabalhar continuava a emanar calor que me ia aquecendo, não compreendendo inconscientemente porque insistia em tremer. Espectáculo dantesco. Compreendi então. Numa de teoricamente ocidentalizado, perante o rio de sangue que persistia em continuar a correr, passado muito tempo, atrevi-me a perguntar "Quem vai buscar?". Manuel Kiluanje, natural de Quitapa, terra de leões, respondeu-me "Leão não está morto meu alferes ... ". Entre o olhar para ele incrédulo, e o salto de cima do Unimog para o chão do João "Maluco", o Setúbal, soldado do pelotão que vim comandar e reforçar, não se passou tempo algum. Foi reflexo. Ao som do impacto dos pés do João no chão e a aproximação do perigo fatídico, o leão esticou as pernas dianteiras e com a cabeça inclinada para a direita arreganhou-me. Olhos-nos-olhos. Foi o João a trepar pelo capot do Unimog e o terceiro tiro, segundo na testa. Abateu-se. África e a noite silenciaram-se. Silêncio onde o murmúrio ecoava e a luz dos faróis tornava tudo mais claro. Nem os insectos inomináveis da noite se atreviam a conversar. Passaram-se minutos. "Manuel? ... Está morto?". "Está ...". " Quem vai buscar? ...". Gritou-se e atiraram-se botas e sapatos. O meu leão não nos respondia. Depois de muito, mesmo muito tempo, em que se ouviam sorrisos nervosos, se batia nas costas, mais uma vez o João Maluco aventurou-se. Então todos saltaram do Unimog para aclamar. Menos eu e o Manuel. Em determinada altura, o Manuel tocou-me no braço, virei-me para ele e ouvi "Se nos atacarem e o alferes ficar ferido, eu levo o meu alferes ... ". Sorri-me. Manuel Kiluanje, o único homem na vida a quem eu dera uma bofetada, acabava definitivamente de fazer as pazes comigo.
De regresso a Marimbanguengo, com o leão ocupando a caixa toda, três metros e trinta e seis na pele seca, desde a ponta do rabo á extrema da cabeça, parámos em três sanzalas. Ao grito de palanca todos acorriam. Quando viam o leão a exclamação seguida do silêncio e do respeito impunha-se. Vinham-me cumprimentar. Mão-na-mão.
Dormi pouco nessa madrugada. Eram nove da manhã e já estava acordado para ir ver o meu leão. Á luz do dia. O primeiro tiro tinha-lhe partido a coluna. Depois foi esfolado e a pele posta a secar. Antes do almoço os meus soldados, a equipa da caça, vinham-me perguntar se eu queria os ossos das mãos. Disseram-me ser muito importante para os seus filhos. Dos que tinham e viriam a ter. Não explorei o porquê.
Ao fim da tarde, no arrear da Bandeira, onde para além da secção militar estavam sempre presentes miúdos e alguns seculos da sanzala , desta vez, excepcionalmente, pelo menos na minha permanência, também a Rainha Isabel se apresentava. Fui informado. Compareci e acompanhei a cerimónia. Depois convidei a Rainha e seu séquito a acompanhar-me numas cervejas. Perplexei, quando me traduziram uma afirmação da Rainha "Alferes, quem mandou o leão, foi os turra ...". Concordei ... Bebemos mais umas cervejas. Saudámo-nos.
Hoje, passados quase quarenta anos, não sou nem me arvoro em caçador e o leão acompanha-me diariamente. Ao abrir o meu "latinhas" a imagem do meu screen é a cabeça de um leão. Frequentemente acompanho, às vezes com lágrima no olho, programas nos canais da TV onde se vêem leões. Esses magníficos africanos. Recordando-vendo a sua dignidade naquela noite.
Encontrar-nos-emos e conversaremos pela certa. Olho-no-olho. "Olá meu!!! ..."
África. Angola.
Ao princípio da noite, antes do jantar, pois não me era permitido estar fora de casa a partir das sete da noite, observando os mais velhos fazia a minha aprendizagem de miúdo da minha rua. Não se fazia exame. O atestado zungava-nos na prática, sofrida às vezes ao ultrapassarmos as nossas capacidades quando não resistíamos à atracção de uma goiaba mais tentadora. No mistério da noite.
Estavam ali todos os dias à frente da minha casa. Mesmo quando as goiabeiras não goiabavam. Eram uma vintena ou pouco mais em um quintal fortaleza. Alinhadas, conversando provocadoramente comigo todos os dias numa frente de cerca de quarenta metros, por cerca de trinta de largura de quintal. Imenso quanto bastava, quando palmilhado à noite. Umas vezes iluminada por um luar fantasmagórico, outras vezes macabramente tenebrosa no seu respirar negro e impenetrável como breu. Alguns anos depois era a fruição do prazer. Nos primeiros tempos o controlo do coração que teimava em assustar-se e assustar-me.
Tudo era um desafio. Mesmo a goiaba que algum dos mais velhos me cedia e não me era dada de boamente tinha de ser mendigada. Chateando. E nunca era a desejada. Eram sempre as imensamente verdes que testavam a firmeza dos meus dentes e eram pacientemente ratadas. Ou as mais amadurecidas que arremessava para o quintal enquanto antevia a minha mãe a comprar quindas cheias para fazer a goiabada e a geleia naquele ponto-entorta-colher.
Ficava-me sempre o sabor amargo da insatisfação e a impotência por não poder transpor um muro de cerca de dois metros e meio de altura. Como uma provocação que me incitava a crescer.
A inventiva e o inconformismo sobrepunham-se.
O quintal pertencia à casa do inspector dos caminhos de ferro, que se situava do lado esquerdo. Do lado direito do quintal a casa de trânsito, com um muro ainda mais alto e com fragilidades goiabísticas. Tinha só duas goiabeiras. Na arquitectura do muro da casa de trânsito, três níveis diferentes: um, a cerca de metro e pouco, relevava a parte de baixo; a zona central até cerca de três metros; por fim, um acabamento-embelezador mais estreito com um arabesco de tijolo caiado com cinquenta, sessenta centímetros. A meio do muro, que circundava a casa de trânsito, umas escadas e a porta de entrada.
A partir das escadas, o ataque começava por tentar atingir com os pés o exíguo relevo de pouco mais de um centímetro que separava as duas primeiras partes do muro. Agarrando-me à parte superior do muro imediatamente antes do acabamento-embelezador. Não foram precisos muitos treinos para transpor este primeiro obstáculo. Comecei quase que instantaneamente a realizar com sucesso este primeiro movimento. Depois, à força de dedos-pulso-e-braço alapava-me à parede com as biqueiras das botas cardadas apoiadas no reduzido relevo e caranguejava para o quintal fortaleza das minhas goiabas, criteriosamente e tacticamente escolhidas durante o dia. Aquela vintena de metros era longa, cheia de armadilhas e apelos à desistência: forças esgotadas pelo próprio movimento e pelas sucessivas tentativas para atingir o goiabal; desequilíbrios provocados por imperfeições daquela passadeira spielberguiana que faziam as botas cardadas escorregar obrigando-me a retomar o início da caminhada indiferente aos dedos e aos joelhos às vezes arranhados; abandonos precipitados ao ouvir o restolhar na fuga, nos saltos e nos murmúrios dos mais velhos que apanhavam berrida dos cães.
Chegado ao fim do quintal da casa de trânsito, já todo eu agoiabado, num esforço último içava o corpo à força de braços, esticava a perna esquerda até a enganchar na parte superior do quintal fortaleza e assim acedia à tentação.
A primeira vez foi um deslumbramento. Eu próprio recolector, autodependente. Com as pernas a tremer, pelo esforço certamente, dei os primeiros passos num muro com cerca de cinquenta centímetros de largura. Mais tarde até corria, à medida que fui ajustando o corpo e o movimento àquele espaço. Mas naquele meu primeiro dia observar era aconselhável. Uma goiabeira anunciava-se ali mesmo, com ramos à distância de uma braçada e com o tronco enraizado a pouco mais de um metro e vinte. Acabara de perceber porque é que se conseguia fugir tão facilmente ao arreganho dos cães. Sentei-me e como quem não quer a coisa deixei-me ficar para decidir se avançava. Exibindo a minha coragem, à noite levantei-me e arranquei uma goiaba. Não me lembro se verde ou se madura. Mas as goiabas assim eram únicas. Diferentes das que podíamos comer se pedíssemos autorização para aquintalar.
E fui melhorando. Passei a subir directamente saltando e grudando-me no quintal de trânsito imediatamente antes de trepar para o muro do goiabal. Depois comecei a aceder directamente ao quintal num ou dois movimentos: corrida-chamada-a-dois-pés-força-de-braços-e-passagem-sentando-me-no-muro e, num refinamento, salto-com-fixação-dos-pés-e-das-mãos-ao-muro-para-depois-num-movimento-ginasticado-e-na-continuidade-transposição-imediata-e-directa-para-o-quintal. Tinha realizado o prazer e o arbítrio na escolha da goiaba suficientemente namorada e enamorada. Aquela. Na retirada, no tempo, atingira também a segurança. Num salto, transpunha o muro, endireitava o corpo e deixava-me ir até intuir o chão do outro lado e começar a dobrar as pernas para amortecer a queda. Sempre na insegurança cega da noite.
Até que um dia me trocaram a rotina feita imediatamente em desafio. Sempre. A Câmara Municipal, antecipando-se ao tempo, numa de gestão do futuro, rasgou o meio da minha rua num buraco de dois metros e muito de profundidade onde começou a instalar manilhas para um futuro esgoto não cumprido. Mas antecipado. Só temo que daqui a algumas centenas de anos venha um arqueólogo alicerçar teorias e adn-isticamente conseguir identificar os trabalhadores que suaram a abrir e tapar o buraco mais os berros dos capatazes. Para que não tenham dúvidas ao descodificar outros registos, aqui me acuso como um dos que ultrapassando o muro do goiabal e caindo um metro e meio depois na areia que se acumulava junto ao muro partia em corrida e saltava o buraco com cerca de dois metros. À noite e no escuro era obra.
Depois calcetaram a minha rua, encandeeiraram-na e asfaltaram-na.
Não mais veria as manadas de gado vindas do sul e conduzidas por pastores a atravessarem a minha rua.
... cento e quarenta e nove, ... cento e cinquenta, UFFF !!!...
Depois de ter apanhado umas galhetas, daquelas que punham o meu ouvido a zumbir e a minha alma a revoltar-se envergonhada, a segunda fase do castigo chegara ao fim: corrigira, pela tarde e noite adentro, à luz do candeeiro ou da vela quando a chaminé se quebrava com uma corrente de ar mais fria, cinco erros ortográficos cento e cinquenta vezes cada um. Sem erros, que eram triados pela minha mãe, não fosse o castigo redobrar no dia seguinte.
Exausto, ia-me deitar. Como me sabia bem a cama a seguir. Era mais relaxante do que se tivesse passado o dia inteiro a correr-saltar-pular.
Saí de casa e olhei para o quintal em frente onde cerca de uma vintena de goiabeiras se perfilavam e se preparavam para na altura própria me presentearem e deliciarem. Com aventura e com goiabas.
Ia todo aperaltado para mais um dia de aulas: cabelo grudado à cabeça por sabão, isso de brilhantina era para os caixeiros-viajantes e os calcinhas, que se cimentava rapidamente na consolidação de um risco feito e refeito pela minha mãe até estar rigorosamente direito; calções curtos que faziam moda no aproveitamento da roupa que já fora usada por outros; sapatos-botas cardadas daquelas feitas à medida com o lápis a fazer comichão quando torneava o pé; pasta de pano a tiracolo com os livros, cadernos, lápis e a minha caneta-não-de-tinta-permanente para dar uma de bangão intelectualizável; camisola vestida, porque o cacimbo é mesmo frio em Malanje; e uma bata exigida como que numa tentativa de camuflagem da minha condição de macho em colégio de madres.
Trinta metros andados, mal virava a esquina da casa de trânsito dos Caminhos de Ferro e desaparecia das vistas, feliz e felizmente tirava a bata e colocava-a pendurada na pasta de pano. Olhava logo e sempre, tipo reflexo condicionado, para o jambeiro que crescia na esquina do quintal, antes da mangueira, à procura dos beija-flores no seu esvoaçar parado e disparado quando mudavam de flor, sinal de que o cacimbo tinha acabado. Esperança vã, dissipada pelo nevoeiro matinal. O frio cortava, as lágrimas apareciam e corriam pela cara abaixo, conflituando com a glicerina que me protegia da secura do tempo. Convivência sábia e aparentemente contraditória: a humidade do nevoeiro e a secura do tempo. Agudizada pelos remoinhos que se levantavam misteriosamente e que, às vezes, me apanhavam e me fustigavam com areia. Nesse campo aberto que eu atravessava, entre as casas da minha rua e as casas da avenida da Cotonang em frente à Igreja, ficava a admirar as formigas-elefante, hoje sei o nome, cada uma em tocaia nas suas covas-cónicas armadilhadas. Se um insecto à sua escala escorregava, apareciam e vorazmente puxavam-no para debaixo da areia. Então, porque não me podia distrair muito com o tempo-relógio que se denunciava numa das torres da Igreja, com o dedo procurava a formiga-elefante e, encontrada, espalhava areia na palma da mão, aumentando a inoperância da glicerina, e nela colocava a formiga que logo procurava esconder-se, fazendo-me cócegas na mão e companhia enquanto caminhava maravilhado com as teias de aranha peroladas em humidade no capim, às vezes em gotinhas de gelo. Frio, lágrimas a escorrer pela cara abaixo, ardor do cieiro, formiga-elefante a cocegar, teias de aranha encantatórias eram lenitivo suficiente para me ir esquecendo da bata, que tinha de a assumir quando me aproximava do colégio. Mas só depois de atravessar a linha do caminho de ferro.
Mesmo pior só quando me elegeram actor para uma peça de teatro, de cujo nome não me recordo. Ensaiei com enorme esforço, pois era só depois das aulas terminarem. No dia da festa, paniquei quando me apercebi que me iam enfiar umas saias para (des)compor a personagem ... sem darem por isso, ladinamente, despi o traje ofensivo, esgueirei-me por uma porta, corri como um possesso até ao muro que separava as madres dos padres, transpus o muro, corri através daquelas áleas de mangueiras, fantasmagóricas, atravessei o pátio da Igreja, a linha do caminho de ferro, a avenida da cotonang e cheguei a casa. Consciente da missão cumprida. A minha mãe estranhou.
No dia seguinte, a medalha. Não sei quantas madres vieram "corrigir" o erro ... não ortográfico.
Anunciava-se à distância, sem palavras. Era a tradição feita ansiedade pela chegada do dia. A festa fundia-se nas vivências urbana portuguesa e sanzaleira africana. Qual delas a mais aguardada?!!
De um lado, era a música e o ritmo que ecoavam na espera, idealizando o que pela tarde explodiria no improviso criativo, na hora, genuíno, como uma revelação. Sabia, com a certeza dos que olham para o tempo com indiferença pelos ponteiros dos relógios, que sempre pela tarde apareciam, mais minuto menos minuto, os grupos que irradiavam das sanzalas que circundavam Malanje.
Do outro lado, logo pela manhã cedo, cedinho, começávamos a movimentar-nos na angariação de uns tostões para irmos comprar fuba; arranjar alguns jornais velhos ou qualquer folha de papel, que não abundavam, uma folha de papel era uma folha de papel; pedir umas latas emprestadas e verificar se estavam furadas; encher as latas com água, em verdadeiras acções de saque, estrategicamente preparadas para as nossas mães não toparem -- a água ainda não corria pelas torneiras; preparar bombas-de-papel-com-fuba e acondicioná-las em locais previamente escolhidos e estudados; e conversar com um ou outro cujo pai tinha uma carrinha, que não proliferavam, para garantir meios de ataque para a tarde.
Era sempre o som que me fazia saltar da cama onde obrigatoriamente fazia a sesta. Corria a sentar-me no degrau da minha casa que dava directamente para o passeio.
Os grupos de Carnaval tinham começado a movimentar-se.
O da Katepa via-o e ouvia-o duas vezes. Uma primeira na entrada para a cidade. Mais de uma centena de pessoas. Em dois grupos, perfeitamente organizados: à frente o dos dançarinos e músicos; logo imediatamente a seguir o dos acompanhantes, que nunca se adiantava e circundava o primeiro quando este parava para trocar-exibindo a sua arte por uns tostões. Uma segunda vez, no rescaldo, quando regressavam a casa, cansados pelo esforço de toda uma tarde, mais desorganizados, descompostos pelo suor e fragilidade dos trajes, como que oferecendo as sobras, ainda paravam e despediam-se, ritmados pelo apito do maestro que acompanhava os seus movimentos tipo galo-na-corte-à-galinha e pelos coros das mulheres e dolências dos batuques que se preparavam para esfriar, até ao ano seguinte.
Havia rivalidade entre os grupos. Esmeravam-se nos limites das suas possibilidades. Tinham um sentido de espectáculo único. Não se misturavam. Evitavam-se mesmo. Deparando-se numa rua, ou retrocediam, ou faziam uma paragem para acumular energias avinhando-se.
A meio da tarde apareciam as carrinhas. Nunca percebi de quem era a iniciativa. Sabem, não havia telemóveis e o telefone era da exclusiva propriedade dos Correios e da Estação dos Caminhos de Ferro. Dou de barato o do Governo Civil. Mas, de um momento para o outro víamos "os monstros" no início da rua. Íamos logo para "os postos de combate". À medida que as carrinhas entravam na zona de tiro os ocupantes da carroçaria eram fustigados pelas bombas-papel-fuba e pela água. E respondiam com água e fuba. Riamo-nos, gritávamos, divertíamo-nos. Se reduziam a marcha para enfrentarem num corpo a corpo os defensores da minha rua - se repararem ainda não disse o nome da minha rua, porque não sei, nunca soube - confluíamos para esse ponto e saíamos sempre vencedores. Éramos em maior número. Na minha rua nunca ninguém venceu. Penso que nas outras ruas também não houve derrotas. Nunca fui na caixa da nossa carrinha. Era lugar para os mais velhos.
Já ao pôr-do-sol fazíamos o balanço da tarde das festas urbana e das sanzalas. Era um repor de aventuras ainda quentes e de danças encantatórias.
Depois, assim, de repente, nunca mais houve o meu Carnaval. Tinha sido proibido o da sanzala. O da cidade foi desaparecendo também. Não por solidariedade ... talvez por sentir que se tinha perdido a essência do nosso Carnaval.
Levantar-me às seis, seis e meia, não era madrugar. Naquele dia madruguei, dormindo quase nada toda a noite. A ansiedade era imensa, o desconhecido uma atracção.
Era no tempo em que o período das aulas ainda não tinha sido violentado por interesses, lógicas, do poder central. Estudava-se, frequentava-se as aulas pelo fresco. Na época de mais calor, Janeiro a Abril, realizavam-se as férias.
Estávamos em Março. Naquela manhã, teria cerca de nove anos, iria rumar a Luanda. Pela primeira vez. Já tinha saído de Malanje, várias vezes, mas em direcção ao sul: Silva Porto e Camacupa.
Como comboio não espera, cerca de uma hora antes da partida, transportando as biquatas caminhámos para a estação. Ao aproximarmo-nos do jardim municipal, as gentes já eram mais do que muitas. Apressadas, apressávamo-nos. Na estação, o meu espanto redobrou. Com os primeiros raios de sol vislumbrava a locomotiva com toda a sua potência, fumegava para cima e para baixo, como monstro enraivecido pela espera. As pessoas a falar ao mesmo tempo, conversas cruzadas, acenos e lágrimas, saudações para os familiares e os amigos, gritos para se fazerem ouvir, encontrões para mais rapidamente subir os degraus, aflição porque os que não iam partir ainda estavam dentro da carruagem. Depois, o comboio apitou três vezes. Sem se puxar de armas, que só as conhecia da caça, ou quando com os dedos ou com um pau que indiciava uma arma apontava aos amigos das brincadeiras gritando "mãos-ao-ar-ol-raite-camone-iesse", apanhei um "coice" que me desequilibrou. Era aquele arranque "suave", solavancadamente repetido para o qual, mais tarde, estive sempre preparado. Agradadamente. O caminho do encontro acalma. Longo e do desencontro foi o para São Tomé, ou para as terras-prisões distantes e sem futuro.
A carruagem tinha uma passagem central, aconchegada por bancos laterais de madeira. Só muito mais tarde me recordo das carruagens compartimentadas. Selectivas e longe da festa que era ver algumas quitandeiras mais apossadas na promoção e venda da sua mercadoria. Entravam numa estação ou apeadeiro e saiam no seguinte. A cor, os cheiro e as vozes anunciadoras eram uma profusão de partes da minha Angola. Autêntica. Maior festa ainda era nas paragens do trem. Aí o espectáculo era potenciado pela quantidade da oferta, pela palete infinda das cores e a quantidade das delícias apregoadas. Fruta, doces, peixe seco e bugigangas. Medo de doenças era espectro que se não anunciava. Já tinha bebido da água da Katepa. Nadado no Kapopa.
A paragem na Canhoca dava para descansar cerca de meia-hora dos solavancos do para-arranca, do balancear nas curvas e da chiadeira das rodas nos carris. Nem a paisagem dava para esquecer. As extensões verdes do planalto, as florestas entre o Lucala e a Canhoca e os precipícios com pano de fundo de matas de árvores enormes feitas pequenas lá no fundo e de múltiplas matizes encantavam. Concentravam a atenção e timbravam para sempre as recordações.
Só comi no restaurante da Canhoca uma vez. A fama do serviço demorado e da comida a escaldar e da corrida para reapanhar o comboio que partia não confirmei quando gastei um dia de viagem dos cincos dias de licença militar que tive. Até gostei do eterno bife com batatas fritas. Sempre um luxo naqueles tempos. Ou foi da cerveja gelada?!!. De resto, era sempre um farnel daqueles que só as mães e avós sabem fazer.
A seguir vinha o Luinha. Bem a propósito. Ainda dava para se comprar a sobremesa. Aí reencontrei a minha segunda fruta preferida. Tinha-a conhecido em Camacupa. Mas, ali durante a viagem tinha outro sabor, outro gosto. A fruta pinha, anona no sul.
Atravessávamos a bonita ponte de ferro e a viagem começava a ser cansativa: o calor e humidade do litoral; a paisagem arenosa e seca a aumentar os solavancos, os ruídos e os chiar dos para-arranca; e o pó. Só mesmo a máquina me cativava. Tirava a cabeça por uma janela e olhava-a, admirando-a nas curvas. Altaneira, persistente no vai-e-vem dos veios embolando o movimento das rodas, e cansada na fumaça suada era a pujança em pessoa. Então à noite com a mancha de luz de Luanda ao longe a atrair-nos qual insecto a quem o pó que se ia comendo e que impregnava tudo não contava. Contrabalançava-se com o fresco aparente que se sentia, ou recolhíamos a cabeça quando chocada com um insecto indisível daqueles da noite africada. E o fogo de artifício que saía da chaminé !!!...
Luanda. Um assombro. Tanto carro. Tantas pessoas juntas. Tantas casas. Tanta luz. Tanto calor húmido.
Pela manhã cedo cedinho levantei-me. Já as cigarras cigarreavam por tudo quanto era lado. Não sabia de onde vinha aquele clamor. Mas estava lá. O retinir era assustador. Com o sol a entrar pela cabeça e a explodir lá dentro.
A casa da minha tia era no Bairro do Cruzeiro. Mesmo em frente o Bairro Operário. Andei um pouco e o deslumbramento aconchegava ... o mar espelhando o sol … e o cheiro a maresia que de longe chegava ... só há pouco tempo vi escrito e descrito essa sensação de luz-cor-cheiros: zulmarinho.
Depois vieram as garrás ( não sei escrever ), as automotoras e as compartimentações que dividiram classes e raças. O encantamento acabou.
A cidade de Malanje, ainda que a marca da construção tenha lá estado sempre bem visível, foi essencialmente colonial. Parecerá uma evidência para uns, uma blasfémia para outros.
Relevo o paradoxo do fotógrafo: a mesma realidade possibilitando imagens totalmente diferentes, dependendo das perspectiva, planos, luz, numa palavra, a leitura que se queira fazer.
Tenho imagens, condicionadas às tecnologias de então, que a retratam no tempo de Henrique de Carvalho e mais tarde em 1904. Se a primeira imagem não me permite precisar o local, ainda que se refira como sendo da rua principal, que na minha evidência coincide com a zona da Flórida e do prédio do Vitorino, a segunda imagem não me deixa qualquer dúvida: a mesma zona, bem no centro da cidade. Nesta está presente um edifício que sempre me acompanhou: o que estava em frente ao cinema, até pouco antes de 1974, e que durante algum tempo foi plataforma de circulação de contratados. Até muito tempo depois de 1961. Estou a vê-los, saía eu do cinema em noites de cacimbo, acocorados à volta de uma fogueira. Depois desapareceram das vistas. Eventualmente, por parecer mal essa exposição pública. O que até certo ponto, no dia a dia do meu (nosso) imobilismo colonial, me fazia acreditar que tinham acabado, para conforto da minha inconsciência. Em Setembro de 1974, vinha eu de Luanda, entre NDalatando e Lucala, confrontei-me com uma fila de milhares de contratados, na direcção norte-sul. Regressavam a pé às suas terras de origem, ao intuírem o que viria a acontecer, transportando crianças ao colo, biquatas, cães, cabras. Toda a uma esperança de um futuro violentado agora pelas gentes da sua própria terra ...
A traça colonial da minha cidade foi sendo transformada muito lentamente. Hoje, 2004, ainda lá estará bem presente. Desde miúdo me recordo dessa dominante. Havia uma excepção: o Bairro da Cotonang. As casas isoladas, feita de materiais mais modernos e arquitectura outra, indiciavam a diferença. Eram o outro mundo.
Se não me lembro da passagem dos telhados de capim para zinco, a de zinco para telha acompanhei-a. Mesmo o destino funcional desses espaços. Teria quatro a cinco anos, numa aventura no meu quintal, trepei a uma escada, aterrei com ela. Em Malanje, foi a primeira e única vez que entrei no hospital para ser tratado: uma deslocação do braço esquerdo. Já desde então a esquerda me acompanhava, assim como a direita: livre pensador. Fui levado ao colo, pelo mestre, o velho cozinheiro negro que tanto me tutorou. Ainda foram umas centenas de metros, até um velho edifício perpendicular à rua do antigo edifício onde se veio a situar a Flórida. Cine Teatro Turismo, ainda nem idealizá-lo era possível. Para a saída, em direcção a Luanda, o edifício mais próximo era no quarteirão onde já existiam o Aires Santos Pinto, o Leonel e o Armindo Gomes Pinto. Depois no quarteirão seguinte, os Neves Lima, depois o Dr. Moreira de Silva ... Era toda uma avenida com esse tipo de edifícios de que sempre gostei. A modernidade posterior com prédios, não me foi tão querida. Hoje, não a compreendo.
Na minha rua, os edifícios tinham a mesma característica e eram espaço de lazer dos mais velhos (à noite, enrolando os seus cigarros, os homens juntavam-se à porta deste ou daquele conversando o que nunca soube, ) e espaço de brincadeira dos mais miúdos. Do futebol às escondidas, do lobo às coboiadas e também, só bastantes anos depois me apercebi, local de agressão, quando as camionetas esporádicas do Aires Santos Pinto passavam para a fazenda na Katepa e nós invectivávamos assobiando e gritando aos carregadores: fiufiufiufiiiiiiuuuuuuuuuu … Monangambêêêêêêêê ... Havia o nosso gozo de crianças inconsciente crueldade. E havia a resposta quando, refilando e respondendo em kimbundo ou umbundo, sei eu lá o quê, nos atiravam bocados de bombó, que eram apanhados e alegremente comidos.
Do meu quintal, grande, de cima do meu jambeiro, o maior que conheci (não por ser meu, mas por ser o maior das cercanias) onde tantas vezes, emitando o Tarzan saltando e mergulhando de ramo para ramo brincávamos ao lobo (acompanhados inevitavelmente por espectaculares quedas, secundadas por gargalhada geral ... então quando eram berridas dos marimbondos ...), via-se uma extensão imensa de capim, ginguenga e uma jaqueira, árvores das nossas delícias, também. O Bairro Azul, só alguns anos depois, fruto do esforço da Cooperativa O Nosso Abrigo - visto assim à distância, Malanje foi um espaço cooperativo: numa fase posterior apareceu a Cooperativa dos Agricultores de Algodão (outras estórias).
A cidade foi crescendo e cresceu bem, ainda que limitada, estrangulada a norte pelo Caminho de Ferro de Angola. Mais dois foram os sítios onde morei. Com uma constante: a minha casa, à frente na segunda localização e por detrás na terceira, conviveu sempre com o capim e com uma realidade gritante e preocupantemente silenciosa: o afastamento sistemático dos sanzalas e das batucadas que me adormeciam à noite.
Hoje, gostaria de conversar com esses expropriados para compreender como viveram esses momentos.
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QUEDAS DOS BEM-CASADOS 1
Conta a lenda que no reino dos Songos havia um soba, que antes da sua morte, reuniu seu povo para anunciar a transferência do poder ao seu sucessor, filho da sua irmã mais velha. Acontece que a sua irmã mais velha tinha filhos gémeos. Um deles ao ser preterido abandonou a sanzala, indo fundar o seu próprio sobado, noutro lado.
Passados anos, o filho de um apaixonou-se pela filha do outro. Essa paixão jamais foi consentida por nenhum dos seus progenitores. O casal vendo que não conseguia levar por diante o seu amor resolveu cometer o suicídio. Cada um foi sepultado no cemitério da sua sanzala.
Anos mais tarde, no local onde cada um fora sepultado, brotaram duas nascentes de rios, que depois de percorrerem vales e veredas, se vão encontrar numa falésia, despenhando-se cada um do seu lado para se unirem no fundo mais além.
João Pitta
QUEDAS DOS BEM-CASADOS 2
Ora conta a lenda que vivia numa sanzala bonda, Miege, uma jovem de grande beleza, que aliava a esse dom da natureza uma bondade inefável. A sua presença irradiava bem estar e dava alegria a toda a sanzala.
Tinha por costume banhar-se nas águas prateadas de uma lagoa próxima, cantando ao som do vento e do marulhar das pequenas ondas. E aconteceu passar por ali um jovem guerreiro e caçador, Cubango, rei do povo Songo, inimigo terrível dos Bondos.
E Cubango viu Miege nua.
- Pelos deuses que criaram todas as coisas, nunca vi coisa mais maravilhosa do que esta em toda a minha vida...nunca vi nada mais belo.
- Mas... quem sois?... - perguntou Miege embaraçada - Que quereis?
- Não tenhas medo. Sou caçador e guerreiro mas o meu braço só poderia servir-te de escudo contra que quisesse fazer-te mal.
- Mas u és Songo!...
- Sim, sou Cubango, rei dos Songos e amado por toda a tribo.
- Os Songos são inimigos do meu povo... inimigos de muitas luas e de muitos sóis... e eu sou mulher banda..
- Por todas as forças da floresta não haverá espíritos nem feitiço que vençam esta vontade que agora tenho de paz. Ao ver-te aqui, jamais passará a Lua sobre Lua nem o Sol sobre o Sol sem que acabe a inimizade entre os nossos dois povos.
- Isso é impossível...embora eu me sinta também presa a ti desde o primeiro momento em que te vi... nem sequer fugi... e estou assim...
- Talvez os nossos antepassados nos tivessem reunido agora, para que uníssemos os corpos e dai nascesse a união dos povos inimigos.
- Pois seja, Cubango, meu senhor.
- Miege
E o amor ali nasceu e foi fecundo.
Mas quando os velhos da sanzala souberam daquele amor impossível, chamaram Miege:
- Miege, que fizeste? Esqueceste as leis antigas dos nossos antepassados e queres revoltar os seus espíritos contra nós? Eis que o leão de feitiço ronda as nossas casas e os nossos filhos tremem de medo.
- Mas eu não fiz mal algum... apenas amo Cubango...
- Cubango, o rei dos Songos, dos Songos !?... o nosso pior inimigo?
- Mas ele quer a paz.
- Nunca... toda a maldição dos que morreram cairia sobre o nosso povo. Melhor será que morras a seres contaminada pelo calor inimigo.
- E tendes coragem para me matar? Ainda que o façam ficarei na terra até ao fim dos tempos.
- Seja... pois morrerás hoje mesmo... agora mesmo... para salvação de todos nós.
E naquela hora mataram Miege, a meiga criatura que foi chamada de pecadora. Mas no lugar onde caiu, uma fonte se abriu e jorrou água da terra, se fez fio, depois regato correndo no solo e engrossando sempre mais.
Entretanto o vento levou, em som de batuque, a triste mensagem a Cubango, enquanto nos Bondos o luto fez morada.
E Cuango falou ao seu povo:
- Reuni-vos aqui, valentes guerreiros, para vos comunicar que, mais uma vez, os Bondos nos ofenderam... e esta ofensa ao vosso rei só poderá ser cobrada com a morte.
- Mas, dizei-me - interrompeu um velho - qual foi a ofensa que nos fizeram?
- Pois não sabeis? Vi Miege, a mais bela das mulheres, que já vi e gostei dela. Queríamos a paz... mas eles mataram-na só porque me amava, a mim, o vosso rei, um Songo...
- E achas que por uma ofensa ao teu coração se deve levar todo o povo à guerra?
Morreríamos muitos por uma só mulher... e tu tens entre as mulheres da nossa raça, uma que certamente te agradará.
- Não mais nenhuma antes que Miege seja vingada.
- Pois que assim seja. Vinga-a tu, mas não peças ao teu povo que morra por tua causa.
- E assim abandonais o vosso rei? - Assim o deixais ao sabor da morte?
Poderão todos os Bondos esfacelar tuas carnes. Se isso te acontecer nós te vingaremos... mas por um mal do teu coração não é justo que teu povo morra.
- Pois bem...se me negais o vosso apoio não mais serei o vosso rei, nem minha zagaia será mais ferro que vos dê carne. Morrerá comigo.
E assim foi. Abandonado pelos seus, Cubango, o moço enamorado, espetou em si a sua zagaia, caindo morto no chão. E ali mesmo outra fonte se abriu e jorrou água que se fez fio e depois regato, e correu na terra engrossando cada vez mais.
Conta ainda a lenda que os dois regatos serpentearam na terra em busca um do outro até se encontrarem. E encontraram-se no alto, mais perto das nuvens, lançando-se depois no espaço, na ânsia dum longo abraço. E as suas águas se misturaram num amor eterno para jamais se separarem.
João Martin
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Malanje, como Angola, é um império paisagístico. Ofensivo mesmo, pela quantidade. As pérolas são tantas que, às vezes, nos esquecemos do que existe. A pressão da fama de algumas fazem esquecer outras. Por isso as não procuramos. Interessa precisar o tempo: não as procurámos.
Entre Cacolama e Nova Gaia, ou mais precisamente, e Mussolo, existe um lugar único.
No tempo em que ainda não existiam os bosquímanos, alguém lembrou-se de brincar. Talvez estivesse chateado com o projecto que começara a idealizar. Então, com o dedo, alterou o curso de um rio , bifurcando-o de modo a que cada um dos ramos contornasse um monte. As árvores em floresta, embelezaram ainda mais a brincadeira. Entretanto foram aparecendo uns arbustos, uns capins, flores e cheiros por tudo quanto era lado. Sentou-se e, como puto traquinas que era, mesmo antes dos dois braços do rio se juntarem para levarem se calhar a água para o Lui, agarrou num copo e, simetricamente em relação ao monte, enterrou-o e tirou a terra. Criou assim dois poços
de cerca de cinquenta metros de fundo e, para que a água corresse livremente, num dos lados , simetricamente mais uma vez, rompeu parte das paredes. Deu-se mesmo ao trabalho de pintar as paredes internas que restaram. Camadas de tons de vermelho, laranja e uns brancos para suavizar. Depois, foi o chegar de pássaros por tudo quanto é lado. Uma sinfonia de gorjeios, de batucar das águas, de odores, de calor feito suor peganhento e de silêncio, só cortado pela voz humana quando se aproxima por um caminho inexistente, um carreiro indiciado porque não pisado com frequência. Até o Homem se inspirou: quedas de Bem-Casados.
Mas há coisas que se não consegue explicar. O ambiente encantatório das Bem-Casados está lá. Tem lenda. O mistério das águas despojadas a cair simetricamente, separadas mais de duas centenas de metros, e depois a unirem-se, não podiam ter a montante a prosaica separação de um rio em dois. Tinha que ser sonhado pelo Homem. Tinha mesmo que haver encantamento. A união de algo separado contra-vontade. O amor que as gentes negaram entre Cubango( as quedas mais próximas de Nova Gaia) e Miege ( as que ficam para o lado de Cacolama). Cada vez gosto mais das quedas dos Bem-Casados.
9 - Sempre foram os melhores abacates do mundo
Quando Malanje era do tamanho da minha rua, a minha rua não era do tamanho de Malanje. As casas acabavam no então Tribunal, futura Escola Industrial e Comercial, ainda mais futura Escola Preparatória. Foi lá na minha rua, na minha casa, que eu nasci. E cresci. E fui aprendendo a vida.
Cedo, com precisão quase ao minuto, sabia ler o tempo: se ia chover; se era chuva para ficar a tarde toda e a noite ( como era calmante adormecer com o tamborilar nas telhas ); se haveria trovoada; ... era um expert. Quando não se lê o tempo assim, estamos desenraizados. Aqui gosto da precisão meteorológica: vai chover no Norte; no Centro; ou no Sul. Talvez saia molhado ...
Na minha rua era diferente. Ao sair de casa, olhava o céu, mesmo à minha frente, na direcção da Missão e sabia logo tudo. Estava informado. A velocidade com que as nuvens se acastelavam, as cores e mudança rápida do cinzento-quase-branco ao cinzento-azul-quase-negro eram sinais, com margem de erro nula.
Neste momento estou a sair de casa e na minha recordação não há nuvens. Junto-me à malta, passamos pelo Chico-olho-do-cú, compramos açúcar enrolado em papel manteiga-funil, atravessamos a linha do caminho de ferro e seguimos pela rua entre a Missão e o Expurgo. Outro acesso ao Ritondo, que pouco se utilizava. Era um caminho que tinha segredos guardados para nós. Havia uma gajajeira, que quando matizada de amarelo pelos seus frutos era um esplendor de aromas e sabores. Mas hoje não há gajajas. Mais uns metros à frente, em meia dúzia de arbustos, penso que é melhor classificado assim do que referir árvores, a minha fruta número um. De longe. Então, o grupo espalhou-se pelos arbustos. Escolhemos sempre aqueles que já nos conhecem. Sentei-me no meu galho amigo, estiquei o braço, fui apalpando até que encontrei o meu maná. Apetecível. Sem estar muito duro, nem amassado como, às vezes, aparece quando comprado. Arranco-o, à mão, sem faca, no limite com o auxílio de um pau feito instrumento no momento, abro-o ao meio, deito o caroço fora, recorro ao pacote com açúcar, já a lambuzar-me por tudo quanto é lado, despejo um pouco numa das metades, mexo com o dedo, chupo-o pois nada se pode perder, banqueteio-me .
Sempre foram os melhores abacates do mundo.
Nunca mais ...
Recordo dois malanjinos:
Um, foi um dos últimos a manter o uso do capacete - como ele só me recordo de um Sr de Cacuso, cujo nome não me lembro, tenho que calibrar o meu memorómetro, que também usava um capacete a prender um pano todo branco à volta da cabeça: estranha ironia de quem não podia apanhar sol, mas que adorava viver em Angola. O primeiro, era a calma em pessoa. Cumprimentava-nos sempre com uma pequena vénia e um gesto como se fosse tirar o capacete. Vi-o poucas vezes sem ele. Diz-se que, estando ele numa povoação perto de Malanje, recebeu um dia uma chamada via rádio. "Está.. Quem fala?"; " Daqui Tobias Valente Chato, chefe de posto do Xiça. “ " O quê?!! Está a gozar comigo ..." vociferou do outro lado da linha uma voz. Realizo o Chefe Chato, como nós o tratávamos, a levantar-se calmamente, colocar o capacete na cabeça, aproximar-se de uma janela e olhar para o horizonte infinito ... “ ESTÁ ... EStá ... está … está … ?!!!!!!... .... " ouvia-se com ruído a voz de um burocrata qualquer ofendido e desconcertado …
Outro malanjino era o oposto. Os nervos em pessoa. Andava rápido, com passo miúdo, sempre a sorrir. Quando alguém o chamava voltava-se naquele seu jeito ... rodava todo o corpo, como se de um bloco se tratasse. Nunca lhe detectei um defeito físico qualquer. Tinha também a particularidade de ser ruivo e muito sardento. No seu andar, a cabeça posicionava-se voltada para cima. Era de sua alcunha, por direito próprio, o Foca Aviões. Dr Alcântara Mendes no trato pessoal. Se o quisessem ver vermelho-raiva, quase a rebentar, basta pronunciar-se a palavra Salazar. As pessoas da sua intimidade quando o queriam provocar perguntavam-lhe se queria ir até Luanda. Uma viagem longa e penosa no calor africano e nas estradas por asfaltar, que para ser menos sofrida dava direito a uma paragem em Salazar para alguns, para mim sempre Dalatando, e beber um fino geladinho e com muitas bolhinhas. Daqueles que no primeiro esvaziador golo ao se pousar o copo se pedia instantaneamente "outro fino" para saborear. Quis a vida que o Dr Alcântara Mendes fosse viver para Salazar. Mas morreu em Dalatando. Isso sabemos todos nós.
Em Angola, a Igreja teve um lugar de inculcação político-ideológica e não há quem seja capaz de me fazer ler esses tempos só pelo componente ideológico, ou fé se preferirem. No que me diz respeito as marcas que recordo, pelo ridículo e pela saudade, resumem-se à aterrorização veiculada pela existência de um inferno e pela prática de um pecado mortal perante o contacto da hóstia com os dentes; ao espaço que havia por detrás da Igreja destinado a profissões artesanais, na perspectiva actual; ao espaço onde dei os primeiros passos como desportista-com-assistência; e à fruição dos meus primeiros filmes.
Tantas vezes o meu pai me levou ao alfaiate e ao sapateiro para me tirarem as medidas. Leia-se neste tantas vezes, uma vez de dois em dois ou de três ou em de três anos. É que, os livros, as roupas, passavam dos amigos e familiares mais velhos para nós. Novo, só para a Comunhão Solene, ou para um casamento em que eventualmente transportássemos as alianças. Eram as excepções.
No espaço da Missão ficava o primeiro campo de banquete construído, onde miúdo e pela mão do padre Danner aprendi a jogar. Lembro-me, como se agora fosse, do primeiro jogo feito à noite. Época do cacimbo, nevoeiro, um lâmpada em cada canto do campo, entre a névoa os jogadores-fantasma, o meu primeiro cesto. Uma alegria imensa ... a sensação de ser o maior, ainda que não se ouvisse um único aplauso. Não me lembro se havia assistência. Éramos nós, os jogadores, a responder à persistência do padre Danner, alguns anos mais tarde, meu professor de Francês no Seminário, quando o frequentei como aluno externo. Aqui, na Educação, é de toda a justiça relevar o papel da Igreja.
Iniciei-me no cinema com filmes do Charlot, do Bucha e Estica, do “velho” Rato Mickey, etc. Que filmes. E que vivência. Embora sempre repetidos todos os domingos à tarde, no meio de odores que só África tem, nas instalações das salas de aulas da Missão, eram sempre uma festa: "Olha atrás de ti ..."; "Cuidado rapaz ( nome utilizado para o personagem principal da fita)..."; palmas; assobios; gritos que não nunca deixavam ouvir o sonoro roufenho ... Como era bom apropriarmo-nos dessa maneira dos filmes. Agora, com os intelectuais a falar sobre personagens, ângulos de filmagens, duplos, etc ... até assusta. Como foi bom ver filmes nos padres, em Malanje, como dizíamos então.
6 - O Sinaleiro
Vou sair de Malanje e vou até Luanda, anos 1963 e 1964.
Na Mutamba, do lado direito de quem está de costas para a Câmara, havia um sinaleiro espectacular. Às quatro ou cinco horas, juntava-me ao Chico Franca e seus colegas da Fazenda e admirávamos o festival e os condutores para se deliciarem ouviam as buzinadelas. Nunca percebi se era porque também queriam assistir ou se estavam realmente apressados. Tenho para mim que se o Michael Jackson o não imitou, mas pelo menos não desdenharia tê-lo conhecido. Se um, o MJ não anda mas sai do lugar, o sinaleiro-meu-ídolo andava não saindo do lugar. As palmas, que em certos momentos o acompanhavam e reconheciam, penso terem-no alimentado criativamente. Era um desvario de cumplicidades: ele o maestro, os carros e as suas buzinas os músicos-e-a-música-e-seus-bailarinos, nós os espectadores indefectíveis.
Era uma figura muito querida por todos os Luandenses.
Só por si, cerca de uma vez e meia maior do que Portugal, a Baixa é um mundo. Fica só o enamoramento eterno daqueles que a conheceram: eram os fósseis que por lá existem e comprovam a existência no tempo de um mar; eram os enterranços que explodiam em alegria quando deles saíamos; eram os "candeeiros" que certas sanzalas utilizavam amassando um pouco de barro e nele introduzindo um barbante, evidenciando a existência de petróleo; eram os diamantes feitos aventura e cobiça por alguns; eram a riqueza do solo para a agricultura e a pecuária; era a caça; … era África no seu melhor.
Uma pequena história:
Uma vez, em Malanje, fui jantar com o meu irmão que era engenheiro técnico agrícola, responsável pelos Serviços de Agricultura e Florestas para a Baixa, e com morada em Cacolama, mais uns seus colegas e dois brasileiros enviados pelos governos Portugal-Brasil com uma missão qualquer, cujo conteúdo especificamente nunca se sabia. O João, meu irmão, no dia seguinte acompanhá-los-ia a uma estadia na Baixa, durante uma semana.
Falava-se tecnicamente sobre vários aspectos. Os brasileiros ouviam e pensavam em sei lá o quê.
Uma semana depois, o João regressou e, antes de os levar ao Hotel Planalto, em Malanje, foi deixar a mulher e o filho em casa dos meus pais. Estávamos no cacimbo de 1972, certamente no mês de Julho ou Agosto. Quando o carro parou, saiu o Cavalcanti, um dos técnicos brasileiros, que em êxtase exclamou voltado para mim:" Oh cara, tem mesmo que ver ... nem no Egipto!!!...". Referia-se à qualidade e porte das plantas do algodão.
4 - O quintal Barros e as mangas
Necessariamente, se só mangávamos de um lado, o outro estava carregado de mangas. Só nos restava esperar pelos acessos da natureza.
Uns, para passar o tempo, subiam à araçazeira e, se houvesse fruta, araçavam; outros iam para o lado oposto, paralelamente à entrada do quintal, para cima da borracheira.
Eu estava mais vezes na borracheira. Feria-a e, quando não estava a colar um carro made in Manecas, espalhava o látex na mão, deixava secar, recolhia-o fazendo uma bolinha. Depois era só repetir a técnica e ver as bolas de borracha a crescer até atingir, mais ou menos, a dimensão de uma bola de ping-pong.
Quando fazia os carros, com todo o meu investimento criativo e os acabava, frequentemente, cruzava-me com um carro puxado por um miúdo que se dirigia para a sanzala da Katepa ou da Vila Matilde. Então, era ir a correr para casa a ver se a minha mãe se comovia e me dava uns tostões para o comprar. Era cada carro ... E quando comecei a aperfeiçoar a minha técnica e a melhorar no pormenor ( eram os guarda-lamas, as molas, as portas que se abriam e fechavam) apareceram carros com tecnologia outra: feitos de arame e lata. Até tinham as mudanças ao volante. Não valia a pena competir. Restava-me choramingar mais uns tostões.
De repente, e de vez em quando, ouvíamos mangas a cair e a arrastar outras. Era ver quem as agarrava primeiro... …
3 - Dr. Barros
Em Malanje praticava-se algum desporto, sendo que a maioria não estava enquadrado por nenhuma Associação. Por isso os jogos eram de iniciativa das Escolas, ou de grupos de amigos. Os árbitros eram “agarrados” na altura entre os assistentes que estavam sentados na bancada. A esmagadora maioria praticava uma série de modalidades e conhecia as regras. Mas como qualquer pessoa erravam e ouvia-se frequentemente troca de frases entre os jogadores e o árbitro.
Uma vez, num jogo de handball, foi-me marcada uma falta. Virei-me para o árbitro e, no calor da disputa, excla¬mei em voz alta qualquer coisa do género "Não fiz nada! ". Ouviu-se uma apitadela forte, autoritária, e perempto¬riamente o árbitro disse em voz alta " Volta a dizer qualquer coisa e vai para a rua". Foi a maior punhada na cabeça de que me lembro. Eu que tivera um percurso de desportista limpo, como era possível aquela situação. Ainda por cima era professor na Escola Industrial, conhecia aquele campo até à ínfima rugosidade, conhecia-o desde miúdo. Meio baralhado, caladinho, porque não sabia o que poderia acontecer, continuei a jogar. Mal passei de novo pelo árbitro só lhe disse "Atreve-te". Respondeu-me o mais rasgado dos sorrisos, o ar mais gozado dos que se possa imaginar. Ele era o árbitro: o João Pitta.
João
Deixa-me falar-te do teu avô. O que dele recordo.
Para os que se não lembram, a casa do avô do João Pitta ficava na rua da Escola Preparatória a caminho do Rádio Clube de Malanje. Antes do largo havia o bar do Francisco Henriques, mais uma casa, um quintal e outra casa onde morava, ultimamente, o Amândio. Depois desta, estou a manipular a memória no sentido do Rádio Clube para a Escola Preparatória, havia aí uns 30m sem nada e continuavam as outras casas. Era neste espaço, o meu campo de futebol do bairro, no fim do qual era a casa do avô do João. Para que tenham uma ideia, atrás da casa do Dr Barros, ao tempo, não havia mais construções..
No quintal da frente, sem qualquer portão, mas com uma previdente inclinação que dava acesso a um muito grande espaço, havia entre a casa e o a entrada do quintal uma enorme mangueira, que só tinha as melhores mangas. E se havia mais mangueiras naquela zona. Em qualidade e tamanho, tão boas só as de outra mangueira que ficava no espaço entre a nova sede do Sporting e a casa do José Comes.
Na época das mangas escusado será dizer que a tentação era mais do que muita. Só que não podíamos mangar (é a minha palavra para significar atirar com mangas) mangas à toa. Primeiro para as mangar tínhamos que nos colocar entre a casa e a mangueira para que não atingíssemos o telhado. Depois, porque havia horas do dia que não podíamos incomodar o Dr Barros, enquanto preparava os processos. Então, ou era a avó do João que nos vinha dar a luz verde, ou era a mãe, ou era o Alfredo. João Pitta, foi aí nas mangadas que treinei o meu remate em handball. Acredita. Só uma coisa a tua avó não nos ensinou. E devia tê-lo feito: depois da surtida às mangas, devia obrigar-nos a limpar o pátio que estava sempre tão limpo. Ainda estou a vê-la a apanhar as mangas que nós deixávamos. O teu avô, sentado na varanda, junto à sala de trabalho do lado direito, assistia. A nossa paga era quando o teu avô tinha que sair para o tribunal e nós íamos empurrar o Ford T. Então, sempre calmo e atencioso, no seu fato escuro e chapéu, preocupava-se com os mais miúdos como eu e com um sorriso a todos agradecia quando o motor pegava.
" Deixem passar o Dr Barros ... "
2 - O regresso a Marimba, 1972
Entre o contar ao Tiasca a conversa que tive, num fim de tarde, na esplanada do Hotel de Novo Redondo que se situava na avenida da praia, com um ex-inspector da Diamang, então ao serviço da Condiama, sobre a importância, segundo ele, em termos de quantidade e qualidade, dos diamantes de um riacho onde se ia recolher água para beber, e o combinarmos uma ida a Marimbanguengo, foi um instante. Justificação arranjada: eu ir "matar" saudades de um sítio que muito me diz, cumpri lá parte do meu serviço militar na Guerra Colonial; simultaneamente, aproveitaríamos para caçar.
No dia marcado, naquele jeep que o Tiasca tinha, metemo-nos a caminho de Marimba. Chegados à Xiquita, resolvemos ir visitar os sogros do Renato Duarte. Fomos recebidos, como sempre se recebeu e vi receber em Angola, como uns reizinhos. Lembro-me perfeitamente da vista deslumbrante da Baixa de Cassange que se tinha do local onde estavam implantadas as casas.
Na manhã seguinte, por dentro da fazenda, fomos encontrar a estrada que nos conduziu a Marimba. Depois de termos subido aquela encosta, por estrada de areia feita, que punha dificuldades ao próprio jeep, lá chegámos a Marimba. "Diplomaticamente", fomos parar à frente da porta de armas da companhia que lá estava sedeada. Depois de nos apresentarmos ao soldado que fazia a guarda, alguém foi chamar ( e quebrando intencionalmente o fio condutor desta pequena estórea, antecipo...) o filho-da-mãe de um capitão, que se aproximou, ouviu-nos, obviamente sem a mais ínfima insinuação aos diamantes, e no fim voltando-nos as costas disse " Se no cruzamento Caxito-Cameia Mangando, forem em direcção a Mangando, mando-vos prender ". Aquele sacripanda, nem o mais elementar gesto da convivência africana assumiu. " Entrem e venham beber umas cervejas ". E se estava calor! … Eventualmente, lá terá intuído a concorrência latente.
Restou-nos o Administrador, que nos ofereceu onde ficarmos uns dias, e numa das tardes em que bebíamos uísque nos presenteou, como aperitivo, a carne seca mais deliciosa que se pode conceber.
1 - Os "loucos" da minha terra
Lembro-me do Tiba desde o início dos anos 50. Não como um velho alquebrado, mas como um jovem pujante. Alto, direito, com uma "juba de leão" que o dignificava e nos atemorizava (nessa altura a cultura da Jamaica ainda não se tinha mostrado ao Ocidente...). Éramos miúdos. Dez, doze anos. Quando o víamos, sempre nas redondezas da taberna do Chico, e nós sempre em grupo ( então a união não faz a força?), muito, mas mesmo muito longe dele gritávamos-lhe: TIBA …. E insistíamos, insistíamos, insistíamos até ele começar a abanar a cabeça pendularmente. Era o alerta … quando menos esperávamos, como que um eco às nossas provocações troava: TIIIIIBAAAAAAA ... Era ver quem corria mais a esconder-se em casa. Morava eu então na rua da Escola Preparatória e a Escola ainda não era Escola mas o Tribunal de Malanje. A partir daí começava o mato e a estrada ia em direcção à Katepa. Do Tiba, que era o TIIIBAAA, nunca lhe soube o nome. Mas que seja o Tiba da memótia da minha infância.
Todas as cidades têm os seus “loucos”. Pelo menos parecem-nos.
Outro personagem de referência era um dos irmãos Neves Lima. Os mais novos conhecia-os bem, ainda que fossem mais velhos do que eu. Deste, dizia-se que tinha endoidecido por muito estudar, em Coimbra. E os mitos constroem-se acrescentando-se mais uns pozinhos e para a imagem ser enriquecida acrescentava-se que tinha conhecido Salazar e que este o admirava …
Encontrava-o frequentemente. Ainda que parecesse pacífico e o nosso contacto se limitasse a troca fortuita de olhares pelas ruas da cidade, nos intervalos do cinema ou na esplanada da Florida, às vezes a nossa comunicação era interrompida pelo seu sorriso: era o olhar-sorriso mais gélido, mais penetrante, mais assustador de que tenho memória.
E havia o Catita. O pacífico. Embalado pelos ritmos brasileiros de então o Catita era a personificação da alegria de viver. E nós acompanhávamo-lo na felicidade da vida de criança, em Malanje, nesses tempos.
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1 - Os "loucos" da minha terra
2 - O regresso a Marimba, 1972
4 - O quintal Barros e as mangas
