"A História Geral das Guerras Angolanas - 1680" foi escrita por António de Oliveira de Cadornega e publicada em 1681. São três os tomos que a constituem, respectivamente, com 630, 595 e 509 páginas. O que ele se fartou de escrever. Digamos que cerca de 2000 páginas manuscritas ... É obra !!! E se a maior parte é informação onde historiadores têm mergulhado, no que a mim diz respeito também me encantam as suas estórias.
Aos nossos dias chegaram alguns exemplares desta obra, geralmente incompletos, no sentido de que faltava um ou outro tomo. Felizmente, pelo menos, na obra que está na Biblioteca Nacional de Paris os três tomos serviram para a Imprensa Nacional, a pedido da Agência Geral do Ultramar, Lisboa 1972, reeditá-los.
Transcreverei o que me despertar a curiosidade, no estilo e na forma do autor.
Desde já, uma passagem de uma reunião num acampamento das forças-vivas de então que, embrenhados algures entre o rio Bengo e o rio Cuanza, a caminho de Massangano, aquando da retirada de Luanda na sequência da sua ocupação pelos holandeses, diz assim:
"Neste novo Arrayal estando em Conselho o Prelado e Officiaes da Camara Cidadoens e Moradores propozerão algumas pessoas mais intelligentes das couzas desta terra, em como havia Negros encantadores que elles mandarião buscar, para que em a Cidade botassem Tigres, Onças e Leoens, que matassem a muitos dos Hollandezes, ao que respondeo o virtuozo Bispo que não se podia fazer, que não era guerra limpa, se não muito suja, pois havia de ser feita por arte diabolica que não convinha"
À guisa de metodologia
Os aparentes excessos das descrições, na minha perspectiva, radicam no efectivo desconhecimento daquilo que se descreve e menos num escorregar para a fantasia. Senão vejamos este pequeno texto, que é apresentado com intenções de vigilância metodológica:
" ... contar para entreter o tempo e larga viagem cada hum aquilo que sabe e mais lhe aggrada, huns cauzando admiração com seus ditos e outros movendo a riza com seu falar fresco, ainda que fosse fabulozo.
A esta imitação fazião o mesmo os soldados sertanejos, e assim disse o de que hiamos fallando que hum logar da provincia da Beira vira elle uma couve de tanta grandura que, de baixo della e à sua sombra, se allojarão huma companhia de soldados, e que ainda se podião accomodar mais; foi celebrado o dito e não contradito, havendo respeito à authoridade de quem o dizia; estava tambem naquelle ejuntamento huma pessoa de bom gosto e dos antigos conquistadores por nome Manoel da Nobrega, de alcunha o Quisaca, o qual depois disto foi capitão mor da guerra e o derrotou e matou o inimigo Hollandez, como o havemos relatado em o nosso primeiro tomo em o governo dos tres governadores eleitos, este tal lha guardou para seu tempo mettendose dias de permeyo; estando juntos os da conversação, presente o circunstante, sahio com a sua dizendo, que em Bildao, terra da Biscaya, vira elle uma cadeira tamanha que martelavão nella, e se não ouvião as pancadas de huns aos outros, a que acudio muito depressa o dito primeiro dizendo, - e para que era esta tamanha cadeira? Respodeu, - fez-se para cozer aquella couve que Vmce nos contou o outro dia, com que houve entre todos muita rizada e galhofa celebrando-se os contos de hum e outro."
Os muxilundas
Cadornega, com a descrição da (des)aprovação do envio de "leões, tigres e onças" na reunião entre os portugueses em fuga para a Massangano, penso que terá retratado uma aparente ingenuidade das pessoas de então. Se o desconhecimento de os Reinos de Angola e de Benguela são mais do que evidentes com a integração dos tigres na estratégia da resposta à invasão holandesa, já não penso do mesmo modo em relação à ingenuidade da hipótese dos africanos "pastorearem" essas feras. Na minha perspectiva, o que o texto de Cadornega demonstra implicitamente é o respeito pela cultura dominante de então: a cultura africana, que se trezentos anos depois era desconhecida, no século XVII, ainda mais motivos havia para o ser.
Continuando, Cadornega "Foi para Angola com o governador Pedro Cesar de Menezes, aonde chegou a 18 de Outubro de 1639 e ali seguiu a vida militar, chegando a capitão, de que teve patente em 29-1-1649, dada por Salvador Correia. Viveu 28 anos em Massangano, sendo em 1660 seu juiz ordinário e ali creou em fins desse ano a Misericórdia, tendo sido seu primeiro provedor. Em 1671 vivia em Luanda e era o vereador mais antigo da câmara desta cidade. Morreu em 1690 (?)" no Prólogo do Anotador José Mathias Delgado.
No Tomo III da obra que servirá de base a esta intervenção, no início da primeira parte onde é descrita a cidade de Luanda e a sua Ilha, retenho uma curiosidade e uma reconfirmação: a) na Ilha apanhavam a mabanga ( quem se não lembra e não tem na memória a imagem, na maré baixa, das pessoas a apanharem a mabanga no meio da baía, mais ou menos entre o Baleizão e a Ilha ) para a juntarem em pilhas, que queimadas em fogo uniforme, com uma técnica que então se dominava, era transformada em cal para ser utilizada na construção da cidade; b) ainda que referenciado recorrentemente que os africanos é quem detinham o poder, eram os senhores da terra, a irracionalidade do invasor está presente "Tem tambem hum fidalgo descendente dos que erão del rey de Congo, o qual tem nome de Governador da Ilha e gentio mixiloanda, por nome Dom Ambrozio, com outros que o acompanhão, do seu toque e fidalguia, pessoa de respeito, vestido á portuguesa, com insignia de bastão que governa aquella nação, e obedecem a seus mandatos, e elles ao Governador e Capitão Geral, como vassallos que são do Principe nosso Senhor: he gentio numerozo, bautizados, sugeitos ao jugo do santo matrimonio, e de acudirem á sua freguezia, a ouvir missa, confessar, e comungar; e quando são necessarios para o real serviço de sua Alteza, assim para embarcacoens, que são grandes marinheiros e pilotos, ou para outro qualquer serviço, passa hum sargento á Ilha a dar recado ao negro Governador para que ordene e mande seus subditos fação o que lhes for mandado pello Governador branco e officiaes reaes; e se não dá a expedição o que he necessaria, o mandão chamar á Cidade, dar razão ou descarga, a não dar execucão o que lhe foi mandado: humas vezes passa com reprezentação, e outras chegão com elle á prizão honrada, que todo este gentio se não governa, nem obedece por amor, se não por puro rigor ".
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As mabangas
" há nesta Ilha, e nos areaes que a vazante da maré descobre, huma casta de amegeos, a que chamão mabangas, de mayor grandura, com casca grossa, a qual se ajunta com xicaras, ou sestos que são muito bastas, e se fazem monte e enchem embarcaçoens; de que se fazem muitos xalos de cal, e em mayor parte da Ilha, e campo, os quaes se formão da feição de piramidas, redondas, fazendo-se-lhe o pé da largura que cada hum quer e pode, conforme sua possibilidade, com setenta e outenta pés de circunferência e fundamento, e se vai entrechaçando camada de lenha, camada de mabanga, levando em cada carreira sua diminuição; subindo nesta conformidade a grande altura, que são necessarias escadas para o hirem compondo em cima, e vem a acabar em dez ou quinze pés, conforme seu fundamento; e depois de estar em proporção lhe metem ao redor muita palha e chamiça, e lhe dão fogo em tempo que não haja viração, para que tome fogo, e arde por igual, porque havendo vento rijo, arde mais de huma parte que da outra, e he prejudicial para não ficar queimado, e ter bom cozimento; desta sorte está ardendo muitos dias, até que aquela piramida ou xalo se vá por si desfazendo, e abatendo, e consome a lenha em cinzas como se formou e misturou aquella materia; e primeiro que se esfrie, depois de bem queimado, passante muitos dias, e estando já em modo de se poder tirar a cal, se vai tirando aos poucos caldeandoa com agoa doce; e há xalos destes que bota quinhentos e seicentos moyos de cal, e outro menos, conforme o seu tamanho e se carrega em lanchas, e canoas para a cidade, e vai o moyo a dous mil reis, posto na sua praça; e se no xallo, a mil e quinhentos, de peça ou lettra. (...) tambel se coze e faz cal da casca desta mabanga em fornos como de telha, a qual sahe mais purificada, e com menos mistura de cinza, e por ser mais limpa e alva serve para rebocar e branquear; e há muitos fornos destes, assim nesta mesma ilha, como em a cidade ... "
No "nosso tempo" não me lembro de ter visto estas fabricas. Tecnologia mais moderna cumpriu a sua missão: substituiu as obsoletas. No entanto, resta-me constatar que as fábricas não eram propriedade dos mixiloandas.
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" ... aonde se pesca regalado peixe, como são meros, garoupas, lingoados, salmonetes, peixes serras, enxovas, carapicus, que são como bezugos, peixes cabras, tainhas, muzis, peixes pratas, cassoens, cornudas, peixes azeites, que são como atuns, chernes, alvacoras e douradas: muita cantidade de savelhas que são da feição das sabogas do nosso Tejo, xicharros, estes ultimos com rede de arrasto, e muitas pescadas bicudas, grandes e pequenas, chancaronas, ferreiras e choupas, sibas e xocos, e lagostas e outra diversidade de pescado; ..."
Tanta vez, pela noite dentro pesquei na baía do Mussulo - pelas seis ou sete horas regrassávamos e matabichávamos, ainda recordo como eram reconfortantes esses pequeno-almoços - o que me permite acrescentar à lista de Cadornega, pargos, peixes galo e raias.
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Luanda
Mas, antes de subir com Cadornega o Cuanza, deixem-me acompanhá-lo numa das suas descrições de Luanda:
" Há muitos homens de negocio, huns que estão de assento e outros que fazem suas viagens, alguns delles de grosso cabedal, muita producção, e gente maritima que vem em navios ao trato do negocio das peças [escravos]; e se achão continuamente no porto desta cidade passante de vinte navios, huns possantes, artilhados, e outros de menor, todos mercantis; e se hum ano por outro, se despachão para as praças do Estado do Brazil, e outros portos, outo e dez mil cabeças de escravos, entre grandes e pequenos, que passam algumas por crias [crianças], de que se pagão os direitos aos officeaes reaes, para a fazenda de sua Alteza, de cada peca quatro mil reis ao subsidio para a satisfação do imposto do dote da Serenissima Senhora Rainha de Inglaterra [ D. Catarina de Bragança, filha de El-Rei D. João VI, que casou com Carlos II, Rei de Inglaterra, em 1662 ] e paz da Hollanda [ O tratado com a Holanda foi assinado em 6 de Agosto de 1661, entre El-Rey D. Afonso VI e os Estados Gerais. As despesas para pagamento do dote da Rainha e da contribuição a satisfazer à Holanda pela paz, foram rateados entre a metróple e as suas colónias, cabendo a Angola o encargo e que se refere o autor ], de que coube por repartição a estes reinos trezentos e sessenta mil cruzados, que com dito subsidio se vai satisfazendo; os direitos novos cobra o Senado da Camara por seu procurador do conselho, que neste tempo veyo ordem real para o cobrar o Feitor da Fazenda, e só lhe ficou a cobrança do subsidio por ser imposto do Senado da Camara ao povo para a a dita contribuição e satisfação; e com direito novo dos tres mil reis em cada peça se ajuda a pagar a infantaria, primeira plaina desta praça, fortaleza da conquista, e reino de Benguela, e ordinnarias ecclesiasticas, e o mais que se paga . "
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As uvas
" ... tambem os que nesta ilha morão, lavrão as terras em frente da banda da provincia de Quissama, com o consentimento do gentio della, que mora pella terra dentro, e vão se estendendo até o sitio do Cale, como havemos dito, onde os reverendos Padres da Companhia de Jesus têm terras e searas com gente cativa e forra e com os mantimentos que nellas recolhem e madeiras que por ali mandão cortar, ajudão a sustentar os religiosos do collegio da Cidade; ... "
" Há tambem neste prezíiio de Muchima muitas e ricas uvas, de que vem cantidade de capueiras dellas para esta Cidade, que como aquelle terreno he barro, se crião grandes latadas e muitas laranjas da China, romãas, e figos, e mais fructas da terra."
Para mim, as uvas constituem uma surpresa: não idealizava que as uvas se davam no norte. Era só do meu conhecimento a existência clandestina delas, maravilhosas, em Mocâmedes.
Relembrar que a sua proibição teve a ver com a protecção que se fez à exportação do vinho para Angola ...
A Barra do Cuanza
Partindo do princípio que Cadornega foi para o Cuanza de barco e que, necessariamente, atravessou aquilo que chamamos Barra do Cuanza ...
" E começando por onde acaba seu caudalozo curso e tributa suas immensas agoas ao mar, que he em a barra de seu nome, por onde entrão a sahem pataxos de coberta e alto borde, e poderão navegar naos possantes em tempo de suas inundaçoens, fazendo entradas e sahidas, huma vez que tivessem os pilotos de Cascaes, que são huma casta de gentio a que chamam Nambios, assistentes no morro sobre a barra de seu appellido, os ques, em descubrindo embarcação que vem para entrar dita barra, se vão em humas taboas remando a metter dentro dellas, e corre o governo da embarcação por sua conta, mandando ali como previstos no canal e bancos de areia, e assim o governão até que o metem para dentro, a dous e a tres marés que lhe dão por poupa que os ajuda a entrar e metter para dentro,guardandose de que atravesse, porque se assim succede perde a armada; e se tem visto alguns que, fiados em seu saber, querem entrar esta barra sem os praticos pilotos e se perdem; o que não succede quando elles o tomão á sua conta e com pouca paga se contentão. A sahida para fora não he de tanto risco, mas sempre se hão mister os negros pilotos, que brancos se podem chamar nestas occasioens, pois obrão como se o forão ."
As Quedas de Calandula
Na descrição que ele faz do Kuanza do seu tempo, em determinada altura integra o Lucala. Não esquecer que no tempo de então, se o Kuanza era a via de penetração para o interior do Reino de Angola, a zona do Dondo/Cambambe era o seu limite. Arrisco-me a dizer que este limite foi imposto pela sua fúria, mesmo o alívio, por antever o doce remanso que se avizinhava com a planície de entre Dondo e a Foz. Não obstante ainda ter que enfrentar zonas de margem conformadas por rochas, locais estratégicos para a implantação de povoações e de locais de culto africano. Sempre que se libertava dessa tenaz, como que uma reprimenda a chamá-lo à razão, o Kuanza espraiava-se criando imensas lagoas. Aprendi com Cadornega e confirmei no Google Earth. Como desconhecíamos Angola !!!
Mas voltando ao Lucala, Cadornega também esboça ecos das quedas de Kalandula: " E em tempo de verão vão alimentando suas filhas com agoas, pella mesma via des eteiros, a seu progenitor, em quanto lhe não torna o seu crescimento; e, para acabarmos com o que sabemos deste caudalozo rio Lucala e ultima grandeza, diremos em como em o sova Cuija Andala, da lotação da fortaleza e capitania de Ambaca, vassallo de Sua Alteza, por cujas terras e senhorio passa, se despenha de tão alto, tão arrebatado e furiozo a nebrina que como chuveiro, o esparze - mui distante, em que se cultiva até onde se abrange, e depois de fazer este despenho, se encobre por humas concavidades, como envergonhado de haver feito aquele excesso, tornando a shir dali mui distante "
O hipódromo
Obviamente, a descrição feita por Cadornega sobre o Kuanza não podia esquecer a fauna. Há várias estórias sobre o mesmo animal. No entanto, vou só transcrever uma sobre lagartos, manatins ( ou peixe porco como ele refere), embomas (giboias), leões e hipopótamos. Começando por estes:
" Nesta lagoa contavão os antigos que vindo de volta do reino do Congo pellas fortalezas deste sertão o Bispo Dom Frey Manoel Bautista, chegando á Villa da Victoria de Massangano, teve grandes dezejos de ver ao perto aquelles monstros marinhos, e hindo a esta famoza lagoa levado da curiosidade e acompanhado da gente principal daquella villa a uma pescaria, mais pella vontade de ver aquelles encavallados no nome e rinchos, do que outra couza; e por lhe darem gosto, chamarão hum negro que sabia suas habilidades de encantador, e lhe disserão fizesse com que viessem ao perto cavallos dos marinhos onde aquelle Prelado os visse á vontade, para que o convidarão, para para com mais vontade o fazer, que isto do interesse póde muito; e elle tocando humas inxias, que são apitos, fizera com sua arte, não boa, vir aonde forão bem vistos do Bispo e dos mais circunstantes, a andar elle mui confiado entre elles e ás vezes pondose em cima de alguns. "
E depois foram todos até ao hipódromo assistir a uma emocionante corrida de hipopótamos. Todos eles bem montados por corajosos marinhocavaleiros. Houve apostas e tudo. Eu apostei em como o Cadornega nunca viu um hipopótamo. Eu também não ...
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Embomas I
" Que vindo desta Cidade seis religiosos Capuchinhos e Missionarios Apostolicos, os quaes hião para a Villa da Victoria de Massangano, a passar nella a doença da terra, para assim ficarem mais habeis á entrada do sertão dentro á conversão do gentio, dos quais eram seus nomes Frey Antonio João de Monte Coculo (é Monte Cuccolo e não Coculo. O nome verdadeiro é João António Cavazzi de Monte Cuccolo, mais conhecido por Cavazzi) ...; nesta dita paragem descubrirão em hum areal que estava chegado á terra hum lagarto dormindo ao soalheiro, o qual não era daquelles difformes de grandura, mas de bom tamanho; indo os Capuchinhos com o sentido nelle para verem o movimento que fazia, viram neste comenos chegar huma cobra da terra a que chamão emboma e em direito do lagarto, e a primeira couza que fez foi dar huma laçada com o rabo a huma arvore pequena que estava naquella margem, e,tanto que a teve dado, lavantou o collo abrindo toda a bocaina, e investindo o lagarto, que ainda dormia, e o tragou quasi meyo até aos encontros das mãos, e, quando acordou, achouse meyo engolido; ainda assim fez todo o esforço com os pés para se hir para a agoa como seu natural, o que não pôde conseguir em razão da retenida e laçada que a cobra tinha dado com a colla (cauda), demaneira que hum puchava para o rio, e a emboma se sustentava em terra que assim lhe convinha, porque se o jacaré podendo mais a levasse para a agoa, levando a boca aberta como a tinha, se afogava infallivelmente; veja-se o distinto natural que deo Deos a estes bichos para se prevenirem; mas que muito he uzar esta serpente desta astucia, quando foi a que com ella enganou a nossos primeiros Paes, em o Paraiso terreal, ainda que falou por boca alhea."
Lembro-me que quando se contavam estóreas de caça, ou de animais que nunca viramos, havia sempre alguém a levantar as pernas das calças para não ficarem molhadas, tal a intensidade do molhado: eu vi no Bembe um cabrito abocanhado nas patas de trás a arrastar uma gibóia - foram os dois abatidos, e especulou-se que a giboia não tinha feito o laço em torno de um tronco, ou que não tinha espetado no chão o espigão que tem na ponta do rabo.
Mas nesta Cadornega, ou Caravvagi, o lagarto devia ser um lagartinho ... Agora ainda compreendia que fosse um desses lagartinhos que andam por aí ... Nunca soube porque é que se chamavam lagartos aos sportinguistas.
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Embomas II
" ... vindo da Villa da Victoria de Masangano huns moradores por terra para esta Cidade de São Paulo da Assumpção, em o sitio do Bengo onde faz aquelle rio huma lagoa grande, a que chamão a Quilunda, se adiantou um deles da companhia dos mais, a que chamavão por sobrenome, o Cordeiro, o qual vinha como soldado conquistador, vestido com sua coira, que lhe chegava aos joelhos, e desta sorte o investio huma disformidavel emboma sem elle se poder valer de si e das armas que trazia assustado de tão repentino acomettimento, cingindoo logo pela cintura, e com o rabo buscando áquele homem as partes baixas com huma como unha que tem antes da ponta, o hia juntamente apertando para lhe esmiuçar os ossos; vendose aquelle desdichado em tamanha aflição, desamparado dos negros que com sigo levava, impetrou o favor divino, chamando pella Virgem da Conceição que lhe valesse em tamanha necessidade, e com tal prerogativa permittio lembrarlhe huma faca pequena que trazia, pois de outra arma se não podia valer; e puchando por ella a metteo por entre si, e a emboma, com o que ella por si com a força do aperto que fazia, se foi cortando, e lhe tinha a coira servido de reparo para o não poder offender com sua unhaaonde intentava; gritou tambem neste apertado sucesso pellos companheiros que vinham atraz, aos quais havião dado avizo os negros fugidos do sucedido a seu senhor;acudindo o acharão naquelle trabalho e aperto; e como a dita emboma estava já muito ferida da faca, se tinha esforsado aquelle trabalhado homem a lhe sogigar (subjugar) com ambas as mãos a cabeça, em a qual pegando os camaradas com toda a força, a pregarão em o chão com huma forte estaca de pau, e forão com aquelle desgraçado dando voltas ao redor, dezemvolvendoo das apertadas laçadas e ligaduras que aquela terrivel serpente lha havia dado; (...) estas cobras tão disformes, chamadas embomas, a toda a couza que cação, he seu costuma enroscaremse primeiro em o corpo, e hirem-no delindo e buscando com a unha as partes baixas, em que que devem ter todo o seu veneno: em galinhas e couzas pequenas pegão com a boca."
Estas duas fabulações ecoaram no nosso tempo com maior ou menor estilo discursivo.
A acrescentar só mais duas fabulações que acompanharam o meu imaginário das emboma-gibóias: a de algumas serem tão grandes, que os caminhantes cansados não resistiam a tentação de se sentar em "tronco" tão apetecível; e a de atravessarem as estradas em salto, que as projectava para o lado oposto depois de se terem contraído e descontraído em movimento rápido e violento, deixando para trás só um silvo. A culpa foi do Cadornega.
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Embomas III
" A huma negra perto desta paragem em que succedeo a este homem o que se há referido, estava esta tal negra em sua caza, a que chamão dumbi, onde morava, e como já era muito velha, não tinhe varão que lhe fizesse companhia, em cuja caza tinha um sobradete a que chamão quilala ou quitala em que dormia por se livrar de algum sucesso; estando às escuras por ser noite, que este gentio se cura pouco de ter candea e gastar azeite nella, quando muito tem algum tição em que tem fogo; e, se querem luz para ver alguma couza, com huma pequena de palha aceza o fazem; estando na sua quitala, sentio remanchar na porta, que como são tambem da mesma maneira de que são os dumbis, são faceis de entrar por ellas: a boa da velha, com aquele sentido, estava alerta para de cima ouvir o que aquilo fosse, porque se fora pessoa ao perguntar como o ella fez havia de responder; quando nesse comenos ouvio resmalhar por baixo do sobradete, e em cima já fazer rumor, como couza que queria subir, foi buscando com as mãos com tanto tino que, dando com a cabeça de huma emboma que forcejava por levar o corpo acima, a buscar a pobre preta, para fazer della o seu manjar, sem lhe dar de que fosse velha; ella pegandolhe com as mãos na cabeça pello pescoço com grande animo para remir a vida, que nestes termos se tira forças de fraqueza, e começou a gritar o mais alto que pôde, que lhe acudissem, e, como por ali morava gente de seu partido, foi acudindo muita; como são medrozos por natureza, não ouzavão a entrar, e ella já não podia gritar, pello haver feito muitas vezes com tamanha afflição, e já como desmayada da muita força com que as suas poucas se tinhão empregadas em ter as mãos com quem queria ser homicida de sua vida, com tudo lhe pôde dizer que entrassem, que a tinha agarrado pela cabeça, dandolhe a entender o bicho que era; com esta segurança entrarão com fachos acezos nas mãos, e seus paos, e forão dando grandes pancadas no corpo que estava dependurado sacudindo grandes rabanadas, e a negra velha fixa em ter mão na cabeça, tantas pancadas lhe derão até que a matarão, cahindo a emboma para huma parte e a esforsada preta desmayada e quasi morta para outra; era sua medida tambem de conta como as mais; se se houvesse de contar sucessos semelhantes, seria nunca acabar, e infastiar ao leitor com circunstancias e couzas que erão necessarias para sua declaração; vamos à nossa navegação do famozo rio Coamza, que fez ao Autor interromper sua narração, em declarar o que eram estas cobras chamadas embomas; vamos à Coamza. "
Pópilas!!!... escritor mesmo embriaga-se com suas próprias palavras e deixa-se levar, levando-me ...
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O manatim
" ... este soberbo rio quehimos descrevendo, com que he abundoza de suas immensas agoas, e de seu numeravel peixe; são peixes pratas, peixes espadas, roballos famozos, caçoens, choupas, esquiloens, palados, cantidades de cacusos, e quasi todo o peixe do mar que por este rio acima sobe entrando por sua barra e se reparte por estes esteiros e lagoas, em que andam cavallos marinhos; e os casam ou pescam negros Nambios, hindo em suas canoas ligeiras com muitos arpoens, huns por uma parte e outros por outra, e tantas arpoadas lhe dão com aquelles ferros agudos, que os desangrão, os quaes vão amarrados com cordas e suas boyas, porque se não percão, e por ellas os vão buscar aonde depois de desangrados vão a morrer, o que he vistosa caçada; tambem arpoão a peixes mulheres, o qual dando com elle he mais facil de matar, que basta ter o nome feminino para que não tenha muita fortaleza: he um monstro, sem o ser de formusura, visto os que são femeas em os peitos se veêm a modo hubres, e nas mãos, estando esfolados feição como os dedos de gente; por estas duas semelhanças, se lhe dá aquele apelido; seu peixe he como se fôra carne de porco, por isso lhe chama o gentio peixe angulo (angulo na lingua da terra he porco; outros lhe chamam cungi); e se he o magro accompanhado com gorgura não differença nada de hum lombo de porco, e a muitos se têm enganado com elle; e até assandose dá de si o mesmo cheiro, e está dando vontade a comerse, e se coze com couves, como tambem a carne ou peixe de cavallo marinho, e quem o não souber, o julgara ser peixe, assim hum como outro, ... "
O peixe porco é o manatim. Em meados dos anos sessenta - meados para estar mais próximo da data certa - em Malanje li a notícia da captura de um. Foi embalsamado e estava no Museu de Angola. Foi notícia, porque há muito se não caçava um. Pensava-se mesmo que tinha sido extinto. Há quem defenda serem os manatins os animais cuja imagem fez florescer as sereias. Cadornega acaba de desconstruir o sonho de tanto marinheiro ... mas com a descrição talvez preferissem o churrasco de lombo.
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