Relatório de Julho 2008
Caros amigos,
Em Julho saltámos a Cangandala mas finalmente começámos com o Luando. Chegar à reserva foi quase uma jornada épica, e o culminar de semanas de preparativos e trabalho árduo. Valeu totalmente a pena, e deverá ser considerado como mais um dos marcos conseguidos pelo projecto.
A reserva integral do Luando, muito embora constitua o cerne da área de distribuição da palanca, e seja historicamente o local mais famoso onde mais palancas negras gigantes foram fotografadas, estudadas e caçadas, tinha permanecido frustrantemente fora de alcance para nós. A terra entre dois rios, como foi frequentemente denominada, consiste numa depressão que se estende por mais de 250 km entre o majestoso Kwanza e o rio Luando. Por causa de pontes partidas, jangadas avariadas, estradas destruídas ou com suspeita de minas, ou pela combinação destes factores, a única forma de aceder à reserva tem sido a aérea, recorrendo a helicópteros e/ou microlights. Mas desta vez estávamos determinados a conseguir entrar por terra.
Tendo falhado há dois anos atrás na tentativa de atravessarmos o rio Kwanza a partir da província do Bié, decidimos desta feita contornar pelo leste de Malanje. O principal problema é que teríamos de atravessar dois rios, sem ponte ou jangada, o Jombo e o Luando. Para concretizarmos esta expedição obtivemos, patrocinado pela nosso parceiro o Ministério do Urbanismo e Ambiente, duas motos 4x4 Arctic Cat 700 Diesel e um par de atrelados. A empresa Oceaneering doou o transporte e desalfandegamento do equipamento, e o Harold Roberts director da empresa em Angola conduziu uma das motos. O Bebeca também participou, utilizando a nossa terceira moto 4x4, doada pela Tusk Trust, e vinda da Cangandala. Para atravessarmos os rios construímos e trouxemos uma jangada artesanal desmontada e seis tambores de plástico. Já em Malanje encontrámo-nos com o administrador de Quimbango e ele juntou-se ao grupo com a sua mota chinesa.
Levou-nos um longo dia de viagem desde Luanda (Foto 01),para finalmente
chegarmos já bem de noite ao Rio Jombo, 250 km a sudeste de Malanje, e carregando toda a nossa carga, Landcruisers, motos 4x4, jangada e logística. Na manhã seguinte fomos surpreendidos ao nos depararmos com uma empresa de construção que se preparava para finalizar a reabilitação da ponte do Jombo, e que se esperássemos algumas horas poderíamos mesmo atravessar a ponte antes da sua inauguração oficial, prevista para a semana seguinte. Nada mau timing! Na tarde seguinte fomos os primeiros veículos a atravessar o rio Jombo desde 1992 (Foto 02)!

A segunda noite foi passada 25 km a sudoeste, junto do rio Luando, tendo para tal passado por picadas e aldeias que não viam uma viatura há 16 anos. O nosso grupo foi sendo saudado entusiasticamente à medida que progredíamos (Foto 03).

O terceiro dia foi todo passado a montar a nossa jangada artesanal (Foto 04),

e atravessar todo o equipamento para a outra margem, já dentro da reserva. Isto acabou por constituir um bom desafio, já que a dada altura quase conseguimos perder uma das motos 4x4 quando a jangada começou a inclinar perigosamente até um ângulo impossível, até que pudéssemos abortar a passagem. No final apenas conseguimos atravessar as motas com sucesso, depois de removermos as rodas, e desta forma baixando o seu centro de gravidade (Foto 05).

Acampámos a terceira noite na margem esquerda do Luando, finalmente dentro da reserva e carregando todo o nosso equipamento. O rio Luando forma um ecossistema ribeirinho verdadeiramente espectacular, estendendo-se por mais de 200 km de comprimento e com vários quilómetros de largura, com virtualmente centenas de lagos de todos os tamanhos, ao passo que o caudal principal serpenteia lentamente através de um labirinto de canais. Na época chuvosa toda a região fica inundada, com milhares de micro-ilhas cobertas de árvores ou termiteiras. A abundância e diversidade da avifauna é notável (Foto 06), e esta deverá ser considerada por direito próprio como uma das mais relevantes zonas húmidas da África austral. (Foto 07, 08 e 09).



No dia seguinte acabámos por chegar ao anoitecer ao nosso objectivo final, a vila de Quimbango. Pelo caminho passámos algum tempo na vila de Capunda, fazendo algumas relações públicas, reunindo com os representantes administrativos e autoridades tradicionais. A nossa progressão foi também atrasada por alguns contratempos, tais como dois furos nos atrelados que acabaram por nos forçar a deixá-los para trás (Foto 10). Também passámos algumas horas desmontando e limpando filtros e tubos, depois de ter enchido o depósito da moto diesel com gasolina por engano (Foto 11).

Levámos quatro longos dias mas finalmente estávamos em Quimbango (Foto 12)!

À noite reunimos com alguns dos "pastores" informais voluntários que tinham vindo a reportar presença de palancas. Só então nos apercebemos que a zona onde eles têm visto rastos de manadas era ainda a 50 km de Quimbango. Assim, no dia seguinte saímos com as motos antes do nascer do sol e chegámos à região das palancas a meio do dia. Finalmente… Depois de conversar um pouco com os voluntários locais, eles mostraram-nos algumas anharas recentemente frequentadas pelas palancas. Eram visíveis muitos rastos, alguns frescos e outros mais antigos, e de uma forma geral o local pareceu prometedor. Os nossos assistentes não pareceram entender o que eu queria dizer com "salinas naturais" onde eu pretendia vir a instalar novas câmaras trazidas da Cangandala. Era como se os antílopes nesta zona não necessitassem de comer terra nessas salinas naturais. Talvez a vegetação e solo fossem mais ricos nesta região… ou talvez eles apenas não conheçam tais locais. De todas as formas isto significou um problema, já que para que as câmaras funcionassem bem, necessitaríamos de um local bem preciso e específico onde os animais fossem regularmente… eventualmente acabámos por visitar uma pequena charca onde segundo os nossos guias as palancas gostam de beber quase diariamente em Agosto e Setembro. Limpámos a zona e deixámos montada uma câmara digital, a primeira na reserva do Luando (Foto 13).

Infelizmente não foi possível encontrarmos novos locais prometedores para colocar as câmaras ocultas, e acabámos por trazer de volta as restantes duas câmaras. Entre Quimbango e a área onde localizámos as palancas, recrutámos os primeiros nove pastores, e todos eles eram já voluntários que faziam este trabalho desde há dois anos. Distribuímos seis uniformes, e deixámo-los motivados e orgulhosos por poderem assumir as suas novas responsabilidades como os primeiros pastores das palancas nomeados na reserva do Luando (Foto 14).
O apoio recebido pelas administrações locais foi notável, e toda a gente queria que fizéssemos mais e pudéssemos igualmente começar em Capunda, Cunga Palanca, Mulundo e por toda a reserva! Decidimos começar por agora em Quimbango, e posteriormente estender o programa passo a passo. Na viagem seguinte, pensamos implementar o programa em Capunda e no ano seguinte mais a norte em Cunga Palanca.
Já em relação à condição das populações animais, não encontrámos motivos para ficarmos optimistas, e parece que de facto a guerra teve um impacto severo nas palancas, e os anos subsequentes não inverteram esta tendência. Se a localização remota da reserva confere alguma protecção relativa ao comércio de carne seca de caça, por outro lado, a reserva foi exposta a diferentes tipos de fenómenos, tais como garimpo ilegal de diamantes ao longo do rio Kwanza e presença ocasional de tropas militares para expulsar os garimpeiros. Tudo isto parece ter afectado negativamente as populações animais em geral e a palanca negra gigante em particular. Este ano um esforço louvável tem sido levado a cabo pelo Governo no sentido de desarmar a população civil, e só durante as primeiras semanas de duração deste programa já 52 armas tinham sido entregues nas comunidades em redor de Quimbango. É razoável assumir que nos últimos seis anos estas armas foram exclusivamente utilizadas para caçar animais na reserva. Até mesmo no local de palancas que visitámos, onde tínhamos já alguns locais protectores-voluntários das palancas e onde sentimos uma vontade geral dos residentes em apoiar a conservação da palanca, apesar disso numa caminhada de cerca de 10 km que fizemos numa zona com muitos rastos de palanca, colhemos cerca de 10 armadilhas com laço, a maior parte delas feita com cabo de arame. Este tipo de armadilha não distingue entre os antílopes, e um laço com cabo pode facilmente matar uma palanca.
Em resultado de tudo isto, não será surpresa concluir que a palanca negra gigante está sob uma enorme pressão no Luando, e se nada for feito em breve poderá enfrentar uma situação de extinção iminente. A minha estimativa pessoal baseada nos poucos dados fiáveis de que dispomos, aponta para um máximo de 200 palancas sobreviventes. Parece claro que a palanca desapareceu de extensas áreas dentro da reserva, incluindo algumas onde foi particularmente comum, com a maior parte da zona entre Capunda e Quimbango, e onde já ninguém se lembra de ver uma palanca em anos recentes. Noutras áreas, são vistas como visitantes ocasionais, e parecem estar agora reduzidas a bolsas isoladas nalguns dos cantos mais remotos ou de melhor habitat dentro da reserva. É duvidoso que estas bolsas possam conter mais que 1-3 manadas de palancas. Baseado em dados indirectos e testemunhos vários, que requerem aprofundamento e confirmação, temos já identificadas três destas bolsas, bem espalhadas dentro de 150 km de floresta! É possível e até provável, a existência de mais um par de bolsas ao longo desta extensão, mas não dispomos de dados suficientes. Também sobram ainda cerca de 100 km mais (correspondendo a cerca de 300.000 ha) para os quais não dispomos de qualquer informação, mas nada sugere um melhor cenário.
O habitat na reserva parece estar em excelente condição, beneficiando do estado de abandono das actividades agrícolas ao longo das últimas décadas (Fotos 15 e 16).

Contudo, deparámo-nos com muitas aldeias espalhadas ao longo da picada principal, e em todas elas havia dezenas de crianças. Não é claro como vir a implementar um modelo sustentável a longo prazo para a reserva, integrando uma população humana que cresce explosivamente, os seus anseios legítimos em termos de utilização de terras para agricultura, e o futuro desta única e sensível criatura…
De todas as formas, esta foi uma viagem muito bem sucedida. Contratámos os primeiros pastores, colocámos a primeira câmara oculta, e começámos o envolvimento das administrações locais e comunidades residentes. A reserva é um pedaço de território maravilhoso, com belas matas, magníficas anharas, rios espectaculares e zonas húmidas, e até inesperados riachos de água limpa e corrente, com piscinas naturais, como aquele próximo de Quimbango onde Richard Estes viveu durante um ano para estudar a palanca. Aquele local é tão especial, que já o elegi como o nosso futuro sítio de acampamento (Foto 17)!

Estou definitivamente rendido à reserva e com a excepção do Parque Nacional do Iona, julgo não haver outra área de conservação tão espectacular em Angola. E é o lar da palanca negra gigante, ainda por cima!
A próxima viagem ao Luando será em Setembro, e mal posso esperar!
No próximo mês será altura para as capturas/marcações de palancas na Cangandala.
Cumprimentos,
Pedro
