Relatório de Agosto e de Setembro 2008
Caros amigos,
Em Setembro fomos à Cangandala e ao Luando. O Eddy Brock veio comigo, e desta vez o Bebeca não pôde vir porque foi receber uma formação a Moçambique. Três dos pastores da Cangandala foram também mandados para um programa de formação de fiscais de caça no PN da Kissama.
Parque Nacional da Cangandala
O parque tinha acabado de receber as primeiras chuvas da época quando chegámos. Isto não nos atrapalhou e foi até um prazer testemunhar o despertar do ecossistema para uma nova primavera. As árvores estavam já quase todas cobertas de folhagem fresca (Foto 01);
o solo estava macio e aromático; flores e insectos abundantes por todo o lado. Esta é talvez a altura do ano mais agradável para passar alguns dias no mato naquela região. Surpreendentemente, desta vez vimos cerca de 20 bambis, muito mais que o habitual, o que é prometedor. As populações de pequenos antílopes parecem estar a recuperar bem e não há dúvida que vemos mais destes hoje na Cangandala, comparado com alguns anos atrás. É uma pena que não possamos dizer o mesmo acerca da palanca negra gigante.
A visita à Cangandala foi sobretudo para monitorar as câmaras. Os pastores tinham visto a manada um par de vezes em patrulha de rotina, mas nada inesperado tinha sido registado. As câmaras funcionaram bastante bem, registando mais algumas largas centenas de fotos de vida selvagem. Na S2 como sempre, fotografámos dezenas de sequências de golungos (Foto 02),e algumas mais de bambis e facocheros (Foto 03).

Como também é usual, a manada principal de palanca visitou o local, muito embora o tenham feito entre as 01h30 e as 02h30 da manhã, definitivamente não a melhor hora para obter fotos de qualidade. Apesar da hora tardia e noite escura, como tínhamos colocado uma segunda câmara encostada ao morro, obtivemos alguns grandes planos interessantes e úteis. Nada de particularmente excitante ou inesperado saiu daqui, já que todos os indivíduos eram velhos conhecidos. Consigo distinguir 4 a 5 fêmeas adultas puras (Fotos, 04 e 05),

e cinco híbridos incluindo os quatro mais novos, dois machos nascidos em 2006 e duas fêmeas em 2007 (Foto 06).
Aparentemente confirmam-se as nossas suspeitas de que não nasceu qualquer cria este ano. Também não há sinal dos jovens machos puros de 2005 (também não os esperávamos aqui, dada a ausência de reprodução), e nenhum macho territorial - deve haver um algures, mantendo os jovens machos afastados, muito provavelmente um macho híbrido estéril. já o jovem macho híbrido nascido em Janeiro de 2006 ,
aproxima-se agora dos 3 anos de idade e começa a impor respeito (Foto 07), pelo que não deverá tardar muito até ser expulso da área. Afinal de contas, os machos puros foram expulsos em 2007, pouco depois de completarem os 2 anos de idade.
A S3C deu-nos um cartão de memória cheio, totalizando cerca de 2.000 fotos de animais. Os números habituais de fotos de bambis e golungos, algumas de dia mas a maioria de noite. Bastante interessante foi observar a presença constante durante algumas semanas de um noitibó-de-balanceiros, que teimosamente permanecia pousado no mesmo local no chão, enquanto observava os ungulados a comerem terra. Isto deu-nos algumas sequências engraçadas, como a de uma fêmea de bambi a fitar curiosa esta ave peculiar (Foto 08).

Dois dias depois de terem estado na S2, a nossa manada poluída visitou a S3C, e os animais foram mais uma vez fotografados, muito embora desta vez sobretudo os híbridos (Foto 09) e uma das fêmeas adultas.
As outras fêmeas puras adultas deverão ter permanecido próximo. Mas a grande surpresa seria um novo freguês para a nossa trapalhada: um jovem macho solitário de palanca vermelha (Foto 10)!
Mais uma palanca vermelha, não propriamente o que necessitamos nesta altura. mas não totalmente inesperado se considerarmos as dinâmicas no parque. Ele parece ter cerca de 2 anos de idade, aproximadamente a altura em que os jovens machos são expulsos das respectivas manadas, e ele realmente parece ser um jovem rapaz acabado de chegar à vizinhança. Ele apareceu na salina a 29 de Agosto, e ao longo de um período de duas semanas voltou ao mesmo lugar cinco vezes, de dia e de noite. Todos os nossos Hippotragus tipicamente espalham-se nos seus territórios, fazendo uma rotação regular por um certo número de salinas, tornando a sua presença numa dada salina bastante imprevisível. Pelos nossos registos as palancas nunca visitaram, mesmo as mais "atraentes" salinas, mais que duas vezes no período de um mês. Desta forma, este jovem é provavelmente um recém-chegado que encontrou a salina por acaso, mantendo-se próximo e não conhecendo lugares alternativos.
A S3C está bem dentro do território do macho territorial de palanca vermelha (o pai dos vários híbridos), pelo que será interessante notar até quando este jovem pretendente será tolerado.
As câmaras no rio Cuque, onde esperávamos obter fotos de quissema, não deram resultados, mas a câmara colocada na S4B deu mais para nos entretermos, e nos preocuparmos. Neste local, à muito que tínhamos abandonado a ilusão de encontrar palancas negras, pelo que esperávamos quissemas e palancas vermelhas. As quissemas não apareceram, mas as palancas vermelhas sim. A manada de palancas vermelhas visitou o local duas vezes, e desta forma duas sequências, uma nocturna e outra durante o dia (Fotos 11 e 12).

Interessante foi que em ambas as ocasiões, apenas três crias se aproximaram para comer. Os adultos devem ter ficado ao largo a controlar, dando total prioridade às crias. É nossa convicção que é esta manada a origem dos machos de palanca vermelha que de vez em quando acabam por aparecer na zona das palancas negras, 20 km mais a norte.
Uma sequência fotográfica bem mais preocupante foi registada pouco depois da primeira visita da manada: um caçador furtivo! A manada tinha vindo noite dentro a 3 de Setembro (Foto 11), e na manhã seguinte, apareceu o furtivo. Ele entrou cautelosamente e passou algum tempo a inspeccionar os rastos (Foto 13).
É quase certo que ele chegou ao local após seguir o trilho fresco deixado pela manada durante a noite. Transportava um machado, uma lança e um molho de cordas. Estaria provavelmente a considerar colocar uma armadilha de laço, quando se apercebeu da câmara. Acabou então por reconsiderar, e após olhar fixamente para a lente, afastou-se com ar suspeito (Foto 14).
Olhando para o lado positivo do encontro, pelo menos ele não transportava uma AK-47, nem destruiu a câmara, mas isto apenas serva para nos relembrar do tanto que ainda falta para fazer antes de podermos assegurar alguma segurança a estas magníficas criaturas. E não é de admirar que os animais tão frequentemente se mostrem hesitantes para entrar e utilizar as salinas - o local pode muito bem estar armadilhado!
Reserva Integral do Luando
Estava ansioso por mais uma expedição ao Luando, e esta cumpriu inteiramente as nossas expectativas. Como planeado, deixámos o LandCruiser junto do Rio Luando onde acampámos a primeira noite (Fotos 15, 16, 17),


e na manhã seguinte atravessámos o rio na ainda operacional jangada (Foto 18), carregando todo o nosso equipamento e comida para uma semana. Contratámos três rapazes para nos ajudarem a transportar os sacos e caixas e arrancámos para Capunda, numa caminhada de 8km, atravessando a planície alagadiça do Rio Luando (Foto 19)e terminando numa longa subida. Em Capunda montámo-nos nas motos 4x4 edirigimo-nos para sul.

As chuvas ainda não tinham começado no Luando, mas a floresta estava esplendorosa (Foto 20) e a nossa progressão foirelativamente fácil naqueles bonitas picadas (Foto 21).

Fomos reconhecidos em todas as aldeias e as pessoas mostravam estar encorajadas pelo programa em curso. Fomos interpelados por numerosos candidatos a pastores e tivemos de gerir este entusiasmo cautelosamente, de forma a não deixar subir demasiado as expectativas. Num dos primeiros kimbos onde parámos, resgatámos um gálago bebé (Otolemur crassicaudatus), que estava quase a ser metido numa panela para o jantar (o seu irmão gémeo já tinha sido comido). Trouxemo-lo para companhia e conseguimos mantê-lo vivo alimentando-o com leite em pó (Fotos 22 e 23).

Uma vez em Quimbango reunimos com alguns dos pastores, e ficámos muito satisfeitos por saber que não apenas se tinham mantido ocupados nas últimas semanas, mas inclusivamente tinham encontrado muitos rastos e localizado 8 salinas naturais! Um grande progresso desde a nossa última visita em Julho, quando eles não conheciam ainda nenhuma salina na região, e apesar das minhas tentativas frustradas de explicar o que eram e a aparência dessas salinas. A tal ponto, que quando saímos do Luando em Julho, considerámos a possibilidade de que as palancas no Luando simplesmente não recorreriam a salinas naturais para comer solo. Os pastores (Foto 24) estavam

motivados, e isto produziu maravilhas. Também recrutámos seis novos pastores, perfazendo agora um total de 15 no Luando. O que vimos desta vez na reserva deixou-me bem mais optimista que na viagem anterior. Extensas áreas onde os locais tinham afirmado que desconheciam a presença de palancas, agora e após terem sido patrulhadas pelos pastores (e nalguns casos por candidatos a pastores!), revelavam sinais frequentes de palanca. Claro que ainda não podemos provar tratar-se mesmo de palanca negra, e podemos estar a confundir rastos de palanca vermelha, mas é prometedor para já. As palancas vermelhas sempre foram consideradas menos comuns no Luando, ao contrário da Cangandala, onde ocorriam em números similares. Os pastores igualmente defendem que as palancas vermelhas e quissemas são relativamente raras na reserva e confinadas a outras áreas que não aquelas onde localizaram as salinas. Naturalmente queremos acreditar nesta possibilidade mas devemos permanecer cautelosos, não esquecendo a experiência da Cangandala.
A câmara que tinha ficado junto de uma pequena nascente não produziu resultados, em grande medida porque a vegetação do local ondulando ao sabor do vento provocou falsos eventos em série, e acabou por encher o cartão de memória sem nada de registo. De todas as formas não houve rasto de antílopes chegando próximo da charca. No segundo mês a câmara foi mudada pelos pastores para uma salina (Foto 25) entretanto encontrada, mas também não chegou a produzir resultados.

Esta salina, tal como as restantes encontradas no Luando, revelou-se bastante semelhante às da Cangandala, basicamente um grande morro de salalé (de térmitas Macrotermes) onde os animais se reúnem para comer o solo. Estes morros parecem ser escolhidos em função dos seus elevados teores de certos minerais, particularmente Sódio. Pelas nossas avaliações preliminares, estes locais não parecem ser visitados com uma frequência superior às salinas da Cangandala, pelo que será uma questão de paciência (e número de câmaras) até obtermos os desejados sucessos fotográficos: novas manadas de palanca negra gigante, e um super macho! Esta câmara foi deixada no local, próximo do rio Luce, e uma segunda câmara foi colocada 20km a norte numa área onde os pastores encontraram nada mais nada menos que 5 novas salinas e um ponto de abeberamento. Visitámos dois destes locais e montámos a segunda câmara. Esta salina parece ser ainda mais prometedora que a primeira, bastante desgastada pelos animais (Foto 26) e onde encontrámos bastantes rastos frescos, do último dia.
De volta ao Quimbango, visitámos mais uma salina, colocando a terceira câmara. Mais uma vez, viam-se muitos rastos, e sinais de utilização frequente. Tínhamos já acabado as câmaras disponíveis, e ainda nos faltava explorar a região do Camitungo, 25km a norte de Quimbango. Em Camitungo chegámos uma nova salina, talvez mesmo a mais interessante de todas. Estava localizada numa zona de vegetação bastante mais densa, com alguns rastos de palanca como nos locais anteriores, mas também rastos de pacassa (búfalo de floresta) (Foto 27),
javali e chicuma (um antílope florestal aparentado com a seixa, mas de grande dimensão). Seria excelente obter fotos destas tímidas espécies! Infelizmente terá de esperar, até que possa mandar uma nova câmara digital.
Esta viagem foi bastante exigente em termos físicos (com 250km de moto 4x4 e algumas dezenas de caminhadas) mas também muito recompensadora. Um dia típico (mais um dia no escritório) começava às 5h30m, despertando com os chamamentos das aves mais madrugadoras à nossa volta, e seguido de um café e mata-bicho preparado nos restos da fogueira da véspera; depois arrumávamos as tendas e equipamento nas motos e conduziríamos grande parte do dia, através das velhas picadas, trilhos e a corta-mato para chegar próximo das salinas; fazíamos um breve intervalo para comer umas bolachas e uma lata de sardinhas a meio do dia e de volta às motos 4x4; e ainda haveriam pelo meio alguns quilómetros de caminhada todos os dias; de tarde teríamos um mergulho no rio antes de desfrutarmos calmamente do final de tarde e pôr-do-sol enquanto preparávamos o acampamento; era então hora de fazer uma fogueira e preparar uma refeição quente, e retirávamo-nos para as tendas por volta das 20h30m sob uma cacofonia ensurdecedora de chamamentos de rãs e sapos; Eu estaria invariavelmente a dormir por volta das 20h31m, e o Eddy de alguma forma também conseguia dormir partilhando a sua tenda com o gálago, que não parava de saltar toda a noite! O melhor local de acampamento onde passámos duas noites, foi sem dúvida junto do Rio Quimbango, um local verdadeiramente especial (Foto 28). A única coisa que faltava (a sério) era uma cervejinha gelada, terei de solucionar isto no futuro de alguma forma. Em relação a água, resolvemos o problema fervendo água do Rio Luando e pequenos ribeiros, mas bebemos directamente do Rio Quimbango.

Cumprimentos,
Pedro
