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Tomás Lima Coelho

ROCHA DE SOUSA

Nasceu em 1938 este professor universitário, pintor e crítico de arte, natural de Silves. Em 1961 foi convocado para a guerra em Angola: “Assim é convocada a nossa juventude culturalmente precária, compelida a amar de súbito um território tantas vezes tratado de esguelha na própria escola, omitido sem grandeza, província, colónia, província outra vez, imensidade física de assombrações e de fascínios, terra de degredados e dos mais singulares enriquecimentos.”. Regressou em 1963. Dessa experiência foi fazendo registos do que via e sentia nas matas dos Dembos entre Zala e Nambuangongo. Só em 1999 conjuntamente com a Editora Contexto resolveu publicar os seus escritos a que deu o título de “ANGOLA 61 – UMA CRÓNICA DE GUERRA OU A VISIBILIDADE DA ÚLTIMA DERIVA”.

É uma escrita densa, por vezes pesada, mas paradoxalmente clara e luminosa. Eis como descreve a estranheza de se ver num mundo tão diferente e belo porém tão perigoso: “O medo latente leva-nos a considerar a massa sombria da floresta, quando o contraluz lhe disfarça os contrastes, como uma espécie de espuma lamacenta, absurda, com as suas bolhas de vários odores rebentando debaixo do céu.” Esta presença física e emocional da floresta dos Dembos é recorrente em todo o livro.

Já instalado naquela que iria ser a sua “casa” durante um tempo que lhe pareceria demasiado longo, deixa-nos o relato da estupefacção sentida perante a barbárie, causada sobretudo pelo medo, quando o homem se transforma e vira lobo do homem “numa loucura de falso triunfo, raiva, vingança, desforra inútil, os soldados andaram em círculos no meio da pista, fazendo piões com as viaturas, puxando depois o corpo do guerrilheiro, ao qual cortaram dedos e orelhas, “troféus de guerra”, a barbárie refluindo nestes pobres representantes da civilização ocidental, os mesmos que depois abriram uma cova fora do cerro de Zala e aí enterraram os despojos daquele homem meio coberto de sangue, mutilado, sem nome e ainda sem pátria.”

Retenho também a descrição quase poética do objectivo da jornada: “Nambuangongo surge do abismo. Recorta-se no céu e parece um monte de ruínas negras. Algumas palmeiras, como sentinelas eternas, convivem com o leve impulso da brisa. Imagino que se movem, um sopro de vida, folhas oscilando vagarosamente, as pontas desfocadas nas nuvens de terra e luz.”

E os mortos. “A seu lado, como se dormisse em grande paz, está o nosso companheiro, o João Mateus, (…) dorme, nem sequer vai acordar em Luanda, descerá à terra no cemitério local, esse nome pomposo com que baptizamos os patéticos alinhamentos das sepulturas nestes lugares, (…) “absolutamente provisórias”, como assegura o comandante Maçanita.”

Disto e do que aqui não coube resulta um livro extremamente lúcido, essencial para a memória daqueles que participaram na(s) guerra(s) em África. 

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ROLA DA SILVA

Deste autor gostaria de poder dizer algo mais para além disto: escreveu um livro intitulado “H. L. – NO FIM COLONIAL”, publicado pelas Edições Polígono em 1979.

Conta a história de amor entre Hernâni e Lúcia numa Luanda a viver o princípio do fim do império. É um retrato claro, por vezes brutal, de uma Luanda cheia de diferenças sociais e rácicas, de uma Angola onde a decadência colonial já começava a vislumbrar-se. E como pouco sei da pessoa do escritor, aqui fica um pouco da sua prosa, o que afinal acaba por dizer muito sobre ele:

“O sábado de Luanda era tão branco como preto, só que cada um tinha discriminatoriamente direito ao seu. O dos negros sem buate nem uísque, dançavam na terra batida entre cubatas e a bebida era o vinho, o tinto chegado a granel nos tanques de grandes navios ou feito de fruta local, tanto faz um como outro trabalhados à base da química em depósitos de empresários que muitos ninguém conhecia porque se iam a Angola era de férias ver a roça imensa que não passava daquela vastidão e o gado, a gente de lá. Vinho de sábado dos negros, o de todos os dias, desatava o sexo depressa, tinha de se aproveitar antes daquela bebedeira funda de doer por dentro. Mas o quimbombo dos mixordeiros matava mesmo, homem que caísse e não o levassem para a cubata acabava ali, na terra batida, até o sol da manhã lhe acordar a dor de cabeça de mesmo atrás dos olhos até à nuca.”.

“Sem cair no populismo barato que as farras do musseque são assim ou assado, têm encanto próprio algumas delas e outras de tão pobres nem isso, são centenas de milhar de pessoas com posses e usos distintos e há festas de fogueiras e instrumentos tradicionais e outras de gira-discos em casa europeizada, todas elas uma lição, isso sim, para quem quer aprender, e Lúcia queria, amava Angola, a sua terra e a novidade para quem foi educada à margem da raiz, ela ali metida no meio de dezenas de negros, tomou-lhe o gosto em casa de Francisco Mazêbo e Catarina Macavala, terra batida mas parede de tijolo, mobílias baratas mas já com sofá, também não podiam passar muito daí que o vencimento era pouco, ele contínuo ela ajudante de costureira passajava e fazia assim coisas simples e ele de motorizada para a frente motorizada para trás, filhos não tinha fora de casa e um copito só de vez em quando…”.

De facto, quisera eu ter mais informação sobre este notável escritor. Mas, se por acaso virem este livro à venda, não o deixem escapar. Vale a pena.

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RUY DUARTE DE CARVALHO

Escritor, regente agrícola, antropólogo, realizador de televisão, cineasta, artista plástico e poeta, tal é o currículo deste angolano nascido em Santarém em 1941. Vivendo a infância e juventude em Moçâmedes, cedo começou a acompanhar o pai, caçador, pelas areias quentes do Namibe. Aí se cruzou muitas vezes com os Kuvale, povo de pastores nómadas que ali vivem com o seu gado. Através desses contactos aprendeu a conhecê-los e fez amigos.

No seu livro “FUI LÁ VISITAR PASTORES”, publicado em 1999 pelo Círculo de Leitores, debruça-se sobre os usos e costumes dos Kuvale com um olhar que transcende a mera antropologia. Diria eu que é com um olhar de amizade e respeito. “(…) O que me lembro é de durante a noite em que fiquei sozinho, enquanto me interrogava sobre o que fazia ali e sobre o que já tinha escrito e haveria de escrever e dava conta que o “meu livro”, aquele que andava a procurar desde a minha adolescência e decidira por fim escrevê-lo para poder contar-me a mim mesmo o que sempre quisera saber sobre os Kuvale e ninguém mo dizia porque afinal ninguém o sabia, esse livro jamais eu o faria, e nem podia, porque andava a vivê-lo.”

É um olhar livre de preconceitos, humilde, onde o autor sabe muito bem que ali, no deserto, entre os Kuvale, tem tudo a aprender. “(…) Mas ele sabe muito melhor do que eu que é entre a terra, o espaço (território) e a água que tudo se joga na vida dele, comum, quotidiana, verdadeira. Ele fala-me com grande precisão nos capins e nas ramas que a terra dá, e onde as há e em que tempo, e quando é que convém que o gado as coma, do sal que ocorre aqui e só tem mais é muito para lá. (…) E das águas do chão, boas e salobras, tanto para os carneiros como para os bois, mais para os carneiros, a água doce não os cria bem, eles gostam é dessa, assim com sal, que lhes faz nascer as crias e aqui é que aumentam mais.”.

E depois há ainda que apreciar a bela prosa poética com que o livro é escrito. Mas, para isso, o melhor é lê-lo.

BIBLIOGRAFIA

“Chão de Oferta” (1972) - poesia

“A decisão da Idade” (1976) - poesia

“Como Se O Mundo Não Tivesse Leste” (1977) - contos

“Exercícios de Crueldade” (1978) - poesia

“Sinais Misteriosos… Já Se Vê” (1978) - poesia

“Ondula, Savana Branca” (1982) - poesia

“O Camarada e a Câmara” (1984) - ensaio

“Lavra Paralela” (1987) - poesia

“Hábito da Terra” (1988) – poesia / Prémio Nacional de Leitura

“Ana, Amanda, Os Filhos da Rede” (1989) – tese de doutoramento

“Memória de Tanta Guerra” (1992) - antologia poética

“Vou Lá Visitar Pastores” (1999) - crónica

“Observação Directa” (2000) – crónica

“Lavra Reiterada” (2000) - poesia

“Os Papéis do Inglês” (2003) – ficção

“Actas da Maianga – Dizer da(s) Guerra(s) em Angola” (2003) - contos

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RYSZARD KAPUSCINSKY (1932-2007)

Nas últimas semanas que antecederam o 11 de Novembro de 1975 este polaco era o único jornalista estrangeiro presente em Angola. Acompanhou e registou a partida dos portugueses, o quotidiano de Luanda com a batalha de Quifangondo ali tão perto, a progressão do exército sul-africano até Benguela, a resistência das mal armadas FAPLA, a chegada dos militares cubanos  e, finalmente, a proclamação de independência pelo presidente Agostinho Neto.

A este registo, que é o melhor que li até hoje sobre os últimos dias da descolonização, chamou “MAIS UM DIA DE VIDA – ANGOLA 1975” e foi publicado pela Editora Campo das Letras em 1997. Salman Rushdie disse sobre esta obra: “através da sua mistura extraordinária de reportagem e arte, chegamos tão perto quanto é possível, através da leitura, do que ele chama a imagem incomunicável da guerra.”

Quando pegamos neste livro só o largamos depois de lido. A sua escrita é quase cinematográfica e é isso que nos prende. A descrição da “cidade de madeira”, como ele chama a Luanda por altura do frenesim do encaixotamento, é notável.Alguns caixotes eram tão grandes como casas de férias, porque se tinha estabelecido, de um momento para o outro, uma escala social de caixotes. (…) As pessoas deixaram de pensar em termos de casas e apartamentos e falavam somente de caixotes. Em vez de dizerem: - Tenho que ir ver o que tenho em casa – diziam: - Tenho que ir passar revista ao meu caixote.”.Essa cidade, um dia, fez-se ao largo e só descansou na Europa…

E Luanda ficou vazia. “Os cães estavam vivos. Viam-se cães de todas as raças, (…) abandonados, perdidos, percorriam a cidade em grandes matilhas, à procura de comida.”. Essas matilhas persistiram enquanto a tropa portuguesa os alimentou com rações da NATO. “Um dia desapareceram. Acho que seguiram o exemplo humano e deixaram Luanda, já que nunca deparei com um cão morto. (…) Depois do êxodo dos cães, a cidade caiu em rigor mortis. Por isso, decidi ir para a linha da frente.”.

Esta é uma obra de urgente leitura.

BIBLIOGRAFIA (sem datas por falta dessa informação)

“O Imperador” – a Etiópia de Hailé Selassié
“O Sha” – o Irão do Xá Reza Pahlevi
“O Império” – a queda da União Soviética
“Ébano – Minha Vida em África”
“Lapidarium IV” – reportagens e pensamentos
“A Guerra do Futebol” – Honduras e El Salvador
“Os Cínicos Não Servem Para Esta Profissão” – entrevistas e conversas
“Mais Um Dia de Vida – Angola 1975” – a descolonização de Angola
“O Mundo de Hoje” – o 11 de Setembro
“Viagens com Heródoto” – a Índia
“A Sombra do Sol” - África

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SERPA PINTO (Alexandre Alberto da Rocha Serpa Pinto)   (1846-1900)

“(…) As narrações de Livingstone, Cameron, Stanley, Burton, Grant, Savorgnan de Brazza, D’Abbadie, Ed Mohr e muitos outros estão longe de pintar os sofrimentos do viajante africano. Difícil é compreendê-lo a quem o não experimentou; àquele que o experimentou difícil é descrevê-lo.”.

É deste modo que Serpa Pinto, então major do exército, nos prepara para a leitura dos seus cadernos de uma viagem que teve início em Benguela no mês de Setembro de 1877 e que terminou em Durban no mês de Dezembro de 1878. Estes cadernos foram compilados numa obra em dois volumes que intitulou “COMO EU ATRAVESSEI ÁFRICA”. O primeiro volume tem como subtítulo “A ESPINGARDA D’EL REI” e o segundo “A FAMÍLIA COILLARD”. Foram publicados por uma editora britânica em 1881. A última edição portuguesa, completíssima, com fac-similes de mapas, gráficos, desenhos e ilustrações, pertence à Europa-América que, lamentavelmente, não indica a data de reedição. A estética das capas também poderia ser bastante melhor.

  

Estes diários de viagem são de leitura obrigatória para se perceber como era África nos fins do século XIX, ou melhor, como é que o homem europeu olhava para aquele continente e para os seus habitantes. Aos olhos da sociedade actual muitos dos conceitos explanados na obra são totalmente inaceitáveis. Saliento dois ou três exemplos: “…entre os quimbandes (…) vi algumas mulheres que se poderiam chamar bonitas se não fossem pretas.”, ou então, “… é preciso que em África haja por cada preto um branco (…) porque só então o elemento civilizador equilibrará com o selvagem e poderá vencê-lo.”, ou ainda, em relação ao ambaquista, figura importante na expansão e cultura da língua e dos hábitos portugueses em África, “… em Benguela levam a condescendência a chamarem-no mulato, um pouco escuro; mas a verdade é que nas suas veias não há uma gota de sangue europeu e que ele é preto, não só na cor, como na ascendência, e quiçá na alma.”. Esclarecedor. Mas era assim o políticamente correcto na época.

Contudo o mais importante que fica da leitura desta obra é o reconhecimento da extraordinária aventura que deve ter sido (que foi!) a travessia de territórios inóspitos, quase desconhecidos e, na maior parte dos casos, hostis. Revela uma tremenda coragem e um amor abnegado à Pátria, atributos que já se não usam nos dias de hoje. Por isso a odisseia de Serpa Pinto merece pertencer à galeria onde figuram os feitos de outros grandes exploradores, portugueses e não só.

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SÓCRATES DÁSKALOS (Sócrates Mendonça de Oliveira Dáskalos)  (1921-2002)

Filho de pai grego e mãe portuguesa este angolano nascido no Huambo é senhor de um riquíssimo e agitado percurso político: fundou a Associação Académica do Huambo e a OSA/Organização Socialista de Angola, desmantelada pela polícia colonial em 1941; ainda nesse ano fundou em Lisboa a Casa dos Estudantes de Angola, embrião da Casa dos Estudantes do Império. Foi membro do MUD-Juvenil da Faculdade de Ciências de Lisboa.

Em 1952 regressou ao Huambo onde trabalhou como agrimensor particular por lhe ter sido vedado o acesso a lugares no Estado. Só em 1957 conseguiu o ingresso no corpo docente do Liceu de Benguela.

Em 1961, juntamente com Fernando Falcão, Aires de Almeida Santos, Luís Portocarrero, Carlos Costa, Manuel Brazão Farinha  entre outros, fundou a FUA/Frente de Unidade Angolana. Foram todos presos e deportados para Lisboa. Em 1962 exilou-se em França e organizou a FUA no exílio transferindo-se para Argel. Aí manteve contactos com outros exilados políticos nomeadamente o general Humberto Delgado.

Em 1965 esteve na China com Gentil Viana, Viriato da Cruz, Carlos Morais e Onésimo da Silveira, durante a Revolução Cultural, até 1968.

De 1969 a 1972 esteve na Guiné-Conakri colaborando com o PAIGC.

Quando se deu o 25 de Abril encontrava-se como professor em Daloa, Costa do Marfim.

Regressado a Angola foi seu representante na Comissão de Descolonização da 29ª Assembleia Geral da ONU. Foi Governador de Benguela, director da Sorefame (hoje Lobinave) e membro do Conselho da República até 1992.

Uma vida destas tinha que dar um livro o que acabou por acontecer: intitula-se “DO HUAMBO AOHUAMBO – UM TESTEMUNHO PARA A HISTÓRIA DE ANGOLA” e foi editado pela Vega em 2000.

Desta autobiografia, aconselhável a todos os títulos  para quem queira conhecer um pouco mais da História de Angola, deixo-vos um excerto do Prefácio escrito por Manuel Rui:

“(…) A história tem de ser escrita. Mesmo por cima de todos os acordos de paz ou de guerra. O que se passou foi que todos os urbanos foram mortos ou tiveram que abandonar a cidade, várias vezes, e a ela regressando outras várias até ao cansaço que faz desistir. E os camponeses, pela força da metralha, tiveram que fugir do campo – salvo poucos que mesmo assim inquinaram a demografia de Luanda – e eles nunca tiveram a hipótese de apanhar o avião para o estrangeiro. E não tiveram outro remédio que não fosse ocupar a cidade. O resto, na desgraça que estivemos com ela e ainda estamos, tudo isso está neste livro.”

BIBLIOGRAFIA
“Memórias. Eu Foi S. Tomé. Aiué (Piratas do Séc. XX)” (1992)
“Memórias. A Casa dos Estudantes do Império” (1993)
“Do Huambo ao Huambo – Um Testemunho para a História de Angola” (2000)

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SUZANA BENJE (Graça de Sousa)

Médica de profissão, filha de médico (o muito conhecido por terras da Huíla e um pouco por toda a Angola, Dr. Farrica) actualmente a residir e a trabalhar no Algarve, nasceu em Sá da Bandeira (Lubango) em 1946. A sua primeira obra, de cariz autobiográfico, retrata uma faceta pouco divulgada da descolonização: a dos que acreditaram, a dos que ficaram lá arriscando a vida, bens e conforto com o desejo e a legítima ambição de contribuir para o nascimento de uma nação. Foram forçados a descrer quando o descalabro se abateu sobre todos os angolanos; quando uma guerra mais cruel e mortífera que todas as outras se instalou e empapou aquele chão com o sangue de irmãos desavindos. Obrigados a deixar tudo para trás tornaram-se filhos bastardos de uma Mãe que não lhes sai do coração: Angola.

O livro retrata o percurso de uma família através das guerras de libertação, a chegada da independência, o fraccionismo, os consequentes e tenebrosos acontecimentos de 27 de Maio e as eleições de 1992 que trariam aos angolanos a tão desejada paz. Mas que afinal não trouxe, como sabemos…

O livro intitula-se “BANDEIRA A MEIA HASTE!” e foi publicado pela Hugin em 2003. Dele transcrevo partes de uma carta endereçada aos filhos quando o casal regressou a Angola em 1991, depois de alguns meses passados em Portugal.

“(…) Luanda, Setembro de 1991

(…) Enquanto nos bastidores se prepara ou “desprepara” o futuro, a população vive como habitualmente. A cordialidade, o calor humano, a naturalidade no convívio, a alegria de viver, são a palavra de ordem.
Povo sofredor, aguenta as maiores agruras sem um queixume e, numa primeira oportunidade, festeja o pouco de bom que vai surgindo. Mergulhada durante uma semana nas trevas, por avarias que simultaneamente surgiram na barragem de Cambambe e nas turbinas de energia alternativa, Luanda acordou ontem com a novidade que “a electricidade voltou!”. Nem de propósito a uma sexta-feira… altura para combinar a “desbunda”.

(…) Entretanto no hospital infantil da cidade morrem diariamente cerca de vinte crianças por desidratação provocada pelo paludismo e pela cólera. Os mutilados de guerra passeiam a sua desdita pelas ruas, pedindo esmola. Os loucos alimentam-se do lixo dos contentores…

E é assim… Luanda é morna na felicidade e na desgraça. Os mortos repousarão num solo quente, onde a degradação vai ser rápida e, num instante, nascerão outros seres, frutos do calor da desbunda ou da monotonia da falta de corrente.”.

BIBLIOGRAFIA

“Bandeira a Meia Haste!” (2003)

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TAZUARY NKEITA (José da Costa Soares Caetano)

Jornalista e escritor, nasceu em Luanda no ano de 1956. Foi chefe de redacção da ANGOP (1975-1984), chefe da secção de informação internacional do DIP do MPLA (1984-1990), director do gabinete do ministro da comunicação social (1990-1991), director de informação da ANGOP (1991-1994) e jornalista da OMS em Angola (1995-2001). Currículo vasto que lhe permitiu, aliado a um agudo sentido de observação, recriar situações do quotidiano luandense com aquele humor tão típico do povo angolano que sofre, imensa e injustamente, mas que nunca esqueceu o valor do riso.

“Quem não dizer como eu, mãe dele é mbica!”, falavam os miúdos para convencer os outros a imitar. Assim nasciam as modas, atitudes extravagantes que todos seguem, uns bem, outros mal, mas que ninguém explica. Durante o ano de 1986 apareceram em Luanda uns ténis “à joão-domingos” que o povo alcunhou de dibengos (ratos, ratazanas). Ténis práticos mas que não davam banga. A miudagem via nos dibengos um motivo de troça, e todos os que saíssem à rua com eles eram insultados: “Meteu dibengo, meteu dibengo com atacadorê!”. E reportaram-se casos de violência por causa dos dibengos…

Seis anos depois os dibengos voltam em livro, ou melhor, num filme descrito em livro. Agora é o cineasta que diz: “Quem não ver a voz dos dibengos mãe dele é mbica” e alerta que “os doentes cardíacos devem medir a pulsação antes da exibição deste filme! Cuidem-se! Os dibengos vão falar!”.

E assim surgiu um livro-filme (ou um filme-livro) que o autor, numa edição sua de 1991, intitulou “42.4 – A VOZ DOS DIBENGOS”. Dele transcrevo um pedaço da sua prosa deliciosa:

“(…) Dibengo significa rato, o animal que rói e sopra, bastante conhecido pela invulgar esperteza. Mas o termo “dibengo” foi vulgarizado na cidade de Luanda para troçar a miudagem e graudagem que usava ténis de marca; azuis, pretos ou vermelhos, ridicularizados pelos seguidores da moda, mas muito práticos e acessíveis ao cidadão de baixa renda. Em terra de descalços foi crime “meter dibengo”.

“Méteu dibengo! Méteu dibengóóó! Atacadore!”, gritam em máxima potência os miúdos de rua, numa caça feroz e numa troça mortífera a quem usasse tal calçado. Fossem homens ou mulheres; pretos, brancos ou mestiços, kimbundus, bakongos ou umbundus. Desde o bairro mais luxuoso de Luanda, ao musseque mais pobre. Os dibengos foram avisados para não sair à rua. Ninguém investigou as origens desta guerra.”.

 

BIBLIOGRAFIA

“42.4 – a Voz dos Dibengos” (1991)
“A Minha Pulseira de Ouro” (2005)

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TCHIKAKATA BALUNDU (Aníbal João Ribeiro Simões)

“O FEITIÇO DA RAMA DE ABÓBORA”. Delicioso título este que, só por si, dá vontade de ler. Trata-se de uma publicação de 1996 da Editora Campo das Letras. O autor, nascido em 1955 na aldeia de Chilume na província do Huambo, transporta-nos para uma Angola rural, tema pouco abordado na literatura angolense mas que, ainda assim ou talvez por isso, ganhou o Prémio Sonangol de Literatura em 1991. Ainda sobre o autor deve dizer-se que, até 1990, foi docente de Psicologia na Universidade Agostinho Neto e que, neste momento, prepara a tese de doutoramento em Psicologia da Educação na Universidade do Minho.

A história pode resumir-se assim: anos antes da chegada dos europeus ao continente africano, dá-se numa aldeia um acontecimento imprevisto. Um aldeão obtém do exterior gado bovino da raça barrosã. O facto desencadeia vários conflitos que culminam com a desgraça de um dos filhos – Cisoka. Este, enfeitiçado com a rama de abóbora, fica privado de memória.

O jovem descreve deste modo a sua desventura: “Chamo-me Cisoka, filho de Ciwale e Esendje, a quem os homens lançaram ao corpo o feitiço da rama de abóbora; a abóbora que cresce no arimo; o arimo que amaldiçoou a maldade dos homens; os homens manchados com o mal por terem visto o gado; o gado obtido na terra dos homens que andam no mar.”

E quem melhor que Luandino Vieira, o prefaciador deste livro, para nos explicar/resumir o que de facto se passa? Eis parte das suas palavras: “(…) E não um feitiço qualquer, desses curiais para facto ou situação avulso na vida quotidiana do angolano, o sabido e consabido. Mas o poderoso, o raro, o quase absoluto: o feitiço da rama de abóbora.
A um feitiço desses não se exige palavras. Dele nos damos conta não por nos dizerem, denúncia. Só no descomportamento da comunidade se revela o que é, para todos, loucura do enfeitiçado. Simultaneamente é clareza, lucidez, luz que desvela e revela actos, acções e peripécias, próprias ou alheias, a seus próprios olhos. Um homem em busca da sua identidade profunda pode por vezes esquecer o que parece óbvio: o feitiço da rama de abóbora lhe foi posto pela posse pura e simples, em sua família, de riqueza proveniente de bois estrangeiros, bovinos de raça barrosã, animais originários dessa terra dos homens que andam no mar…”.

 

BIBLIOGRAFIA

“Cipembúwa” (1986) – Menção Honrosa no Concurso Sonangol de Literatura
“O Feitiço da Rama de Abóbora” (1996) – Prémio Sonangol de Literatura

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TOMÁS JORGE (Tomás Jorge Vieira da Cruz)

Filho de peixe sabe nadar…”. Provérbio apropriado não só porque o seu pai foi Tomaz Vieira da Cruz, mas também. Dedicado ao pai poeta, o filho escreveu assim: “Na posteridade basta que digam / Autor de… / Sem mais qualquer fantasia. / Depois quem quiser / que procure a Obra e leia e releia. / Esta maneira simples / é a homenagem maior / por não haver maior.”.

Luandense, nascido em 1928, Tomás Jorge divide o seu tempo entre Angola e Portugal desde 1970. Integrou em 1950 o movimento literário lançado por Viriato da Cruz “Vamos Descobrir Angola!” motivo pelo qual foi detido várias vezes pela PIDE. É membro fundador da UEA/União de Escritores Angolanos. Tendo publicado apenas um livro de poesia foi juntando o que escrevia ao longo dos anos. É assim que aparece uma segunda obra: “TALAMUNGONGO!... “OLHA O MUNDO!...” – 50 ANOS DE POESIA (ANTOLOGIA)”, publicado pela editora angolana Kilombelombe numa edição comemorativa do 30º aniversário da RPA, com belíssimas ilustrações de Carlos Ferreira.

Das dezenas de poemas que constituem este livro retive um que me parece muito belo e evocativo para todos os que amam Angola e, muito particularmente, Luanda. Foi publicado em 1953 no jornal “Diário de Luanda”.

GAJAJA

Fruto pálido, empaludado…
Cereja dos trópicos
de cor desmaiada.
Luanda:
- onde estão as tuas gajajeiras
que a troco dos seus frutos
pedradas eu lançava,
pedradas que magoavam
- pedradas de criança!
Por certo que foram destroçadas,
sepultadas
em teus alicerces
da Brito Godins
e de todas as Ingombotas,
tal como os frondosos cajueiros.
Vi hoje uma gajajeira já quase morta.
Havia pedras a seu lado,
areia e cimento
e um buraco longo, rodopiando,
fazendo quadrados,
rectângulos, quadrados…
Se a minha fortuna não fosse feita de sonhos,
compraria aquele terreno.
A copa da gajajeira
seria o meu chapéu,
a umbela dos dias quentes
e das noites de luar e de cacimbo.
Luanda:
- onde é que estão as nossas gajajeiras?
Essas gajajeiras que me davam
as gajajas da minha infância
os frutos da minha vadiagem!
Eu atirei pedradas!
Mas tu, Luanda,
o que fizeste delas?

 

BIBLIOGRAFIA
“Areal. Poemas” (1961)
“Talamungongo!... “Olha o mundo!...” – 50 Anos de Poesia” (2005)

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TOMAZ VIEIRA DA CRUZ

“… a homenagem a um poeta que morreu é decorar-lhe os versos!”. Frase sábia de António Manuel Couto Viana e que bem poderia constar no epitáfio de Tomaz Vieira da Cruz. Os seus versos pertencerão para sempre à memória de Angola e da lusofonia. Nasceu em 1900 em Constância que, por coincidência (ou não), foi a terra onde nasceu também Luiz Vaz de Camões, mas foi em Angola que viveu a maior parte da sua vida. Faleceu em Lisboa em 1960. Como último desejo pediu para ser sepultado em chão angolano, a terra por quem se apaixonou e onde nasceram os seus filhos. Assim aconteceu e hoje repousa em Luanda no cemitério do Alto das Cruzes.

De um pequeno livro (relíquia minha salva de uma inundação em Luanda!) intitulado “POESIA ANGOLANA DE TOMAZ VIEIRA DA CRUZ (ANTOLOGIA POÉTICA)”, publicado em 1961 pela CEI/Casa dos Estudantes do Império, com capa de Neves e Souza, selecção e prefácio de Mário António que aglutinou três dos seus livros de poemas, “Quissanje – Saudade Negra” (1932), “Tatuagem” (1941) e “Cazumbi” (1950), transcrevo aquele que será talvez o seu mais belo e expressivo poema deixando no ar uma pergunta: para quando uma reedição da obra deste poeta tão importante?

COLONO

A terra que lhe cobriu o rosto
e lhe beijou o último sorriso,
foi ele o primeiro homem que a pisou!
Ele venceu a terra que o venceu.
Ele construiu a casa onde viveu…
Ele desbravou a terra heroicamente,
sem um temor, sem uma hesitação,
- terra fecunda que lhe deu o pão
e lhe floriu a mesa de tacula…
Mas quando olhava a imagem pequenina
- Senhora da Boa Viagem -,
que a mãe lhe pôs ao peito à hora da partida,
o Homem forte chorava…
Foi arquitecto e foi também pintor,
porque pintou de verde a sua esperança…
Esculpiu na própria alma um sonho enorme,
por isso foi também grande escultor!
Foi genial artista e mal sabia ler!
O que aprendeu foi Deus que o ensinou,
lá na floresta virgem, imensa catedral,
onde tanta vez ajoelhou!
Viveu a vida inteira olhando o céu,
a contar as noites
da lua nova à lua cheia.
E o sol do meio dia lhe queimou a pele,
o corpo todo e até a alma pura.
Foi médico na doença que o matou,
ao homem ignorado e primitivo
que derrubou bravios matagais
e junto deles caiu
como caem árvores sacrificadas
à abundância dos frutos que criaram…
E a primeira mulher que amou e quis
foi sua inteiramente…
E era negra e bela, tal o seu destino!
E ela o acompanhou
como a mais funda raiz
acompanha a flor de altura
que perfuma as mãos cruéis
de quem a arrancou.


………………………………………………………
Foi o primeiro em tudo,
na dor e no Amor,
na honra e na Saudade,
porque nunca mais voltou…
E nas terras de toda a gente
e de ninguém…
- estranha criatura! –
… foi sua também
a primeira sepultura!

 

BIBLIOGRAFIA:

“Quissanje – Saudade Negra” (1932)
“Vitória de Espanha” (1939)
“Tatuagem” (1941)
“Cazumbi” (1950)
“Cinco Poesias de África” (1950)
“Poesia Angolana de Tomaz Vieira da Cruz” (1961)
“Quissanje” (1971)

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UANHENGA XITU (Agostinho André Mendes de Carvalho)


Nasceu em 1924 na sanzala de Kalomboloka, município do Ikolo e Bengo, província de Luanda. Enfermeiro de profissão, desde cedo integrou a luta de libertação. Preso pela PIDE, foi co-réu no famoso “Processo dos 50”, sendo enviado  para o Tarrafal em 1962 onde permaneceu até 1970. Aí escreveu a maior parte das suas obras. Pertence ao grupo fundador da UEA/União de Escritores Angolanos e é deputado e membro do Comité Central do MPLA. Antes foi Comissário Provincial de Luanda, Ministro da Saúde e Embaixador na ex-República Democrática Alemã. Feroz defensor das tradições do seu povo, pela maneira como sempre as defendeu, opondo-se com desassombro e frontalidade aos detentores dos novos poderes, esteve para ser tragado na voragem daquele que foi o período mais negro da história de Angola do pós-independência: o 27 de Maio de 1977. Em 2006 recebe o Prémio Cultura e Artes na categoria de literatura pelo conjunto da sua obra.

Um dos seus trabalhos mais interessantes intitula-se “O MINISTRO”, foi escrito em 1989, e teve a sua primeira edição em 1990 através da UEA. É uma espécie de autobiografia política narrada com muita sátira, muito humor e com um forte apelo aos valores tradicionais tais como o respeito pela sabedoria dos mais velhos ou a identidade própria de cada aldeia, de cada sanzala, de cada povo das diferentes regiões de Angola. Também fala no desencanto das populações com as mil promessas não cumpridas depois da independência. É um livro incómodo para alguns e dele extraio o parágrafo inicial:

“(…) Esta obra dedica-se a um “ministro”, entre aspas, que posso ser eu ou outro qualquer. Há ministros de nome, ministros de cargo e ainda ministros entre aspas. Há um povo que desconhece a nomenclatura e não distingue cargos; para ele um ministro também é o director, o secretário, o chefe de departamento ou do sector e todos os que trabalham com o ministro, inclusive, o contínuo, o trabalhador de limpeza, o servente, a lavadeira, a criada; porque alguns desses, e aqueloutros, nos seus bairros e vilas, fazem-se ou cognominam-se ministros; e constroem e constituem os seus ministérios como órgãos, organismos, e até presidências, nos musseques, falando em nome de superiores, invocando nomes de destaque no Governo para atingir os seus fins, extorquindo, aprisionando, roubando, vigarizando, subornando, assassinando, gerundindo daí para fora com todos os gerúndios negativos. Ora, um povo habituado dessa maneira, crê e acredita serem todos ministros, até o cão do ministro ladra diferentemente do cachorrito do bairro de lata e de caniço sem asfalto, sem luz e sem água.”

Para atestar sobre a frontalidade e desassombro de Uanhenga Xitu aqui deixo também a parte inicial do seu poema “PUEMA”, escrito em 1976 e que lhe valeu muitos amargos de boca:

“Eu sou o pUeta de kimbundu
sem calças nem cuecas e nem sapatos
ando de mulala, passeando na sanzala, cidade, nas matas, nas serras, montanhas,
no makelu
onde há homens que falam e não dizem nada
há homens que falam nas pessoas de pé durante horas-horas-horas
e os ouvintes não ouvem, suam, desmaiam, fogem, têm fome
onde há homens já sem carne no cu
toda fugida na barriga de cuca e nocal
e andam nos mercedes gritando: sou do MPLA
onde há pessoas que fazem camanga selectamente
e não querem ser cangados…”

Bibliografia:

“O Meu Discurso” (1974)
“Mestre Tamoda” (1974)
“Bola Com Feitiço” (1974)
“Manana” (1974)
“Vozes Na Sanzala (Kahitu)” (1976)
“Mestre Tamoda e Outros Contos” (1977)
“Maka Na Sanzala” (1979)
“Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem” (1980)
“Os Discursos do Mestre Tamoda” (1984)
“O Ministro” (1989)
“Cultos Especiais” (1997)

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VICTORIA BRITTAIN


Nesta demanda de livros cujo tema central é Angola não devemos, na minha opinião, cingir-nos apenas aos autores angolanos. Podemos manter o espírito aberto a todas as opiniões, estilos e formas de escrever. O que verdadeiramente nos interessa é Angola, não é mesmo?

Vem este pequeno preâmbulo para trazer a esta partilha uma obra importante cuja autora é uma jornalista ao serviço do “The Guardian”, respeitável jornal britânico especializado em questões africanas e do terceiro mundo.
O livro intitula-se “MORTE DA DIGNIDADE – A GUERRA CIVIL EM ANGOLA” com prefácio do escritor angolano Pepetela. Foi editado pelas “Publicações D. Quixote” em 1998.


Sobre a jornalista/escritora e sobre o seu trabalho Pepetela, prefaciando, diz o seguinte:

“Victoria Brittain, durante as numerosas vezes que esteve em trabalho de reportagem, visitou a maior parte de Angola, falando com pessoas de todos os extractos de população, não se contentando com entrevistar meia dúzia de responsáveis dos vários lados em acção, como muitos fazem. Foi procurar o povo humilde e trabalhador, o que nunca é achado para nada, foi ouvir os relatos confrangedores dos deslocados de guerra, gravou os murmúrios dos mutilados, por minas ou bombas, procurou os órfãos, foi saber dos doentes e feridos nos hospitais. Teve assim a percepção da maneira como as pessoas iam sofrendo e perdendo a esperança, frustradas constantemente todas as ilusões, sabotados inexoravelmente todos os planos. E aponta corajosamente o dedo aos culpados.”


Durante a leitura deste livro torna-se óbvio que a autora beneficiou de uma liberdade de movimentos não acessível a todos. Mas a apreciação do conteúdo político vou deixá-la a quem o ler. Transcrevo apenas um pequeno parágrafo sobre Malanje, a cidade que fiz minha e que me adoptou. Cá vai:


“(…) Em 1984 a cidade de Malanje tentava “segurar as pontas” contra L’Afrique Profonde. Era ainda mais fria que o Huambo e perdida na neblina e na chuva. As ruas cheias de buracos, os edifícios destruidos e as lojas fechadas contavam a mesma história de uma comunidade sob cerco virtual. Mas lá não havia desespero. Esta era uma cidade que lutava numa guerra que entendia claramente, como desencadeada pelo imperialismo. Nas paredes da rua principal, enormes murais do primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, de Fidel Castro e de Che Guevara desafiavam os sul-africanos, a UNITA e os seus apoiantes dos Estados Unidos. Na praça principal, árvores cor de fogo faziam sombra sobre o monumento aos mortos de guerra, inteiramente construido por velhas espingardas AK47 e munições gastas, que prestava homenagem aos soldados cubanos que aí tinham dado as suas vidas. Tal como no Huambo, a defesa da cidade era garantida por uma guarnição cubana, e havia ainda na província um campo clandestino de guerrilheiros sul-africanos do Congresso Nacional Africano (ANC).

Ficámos no palácio do Governador, um castelo em ruínas devido à falta de manutenção, mas com belas salas compridas cheias de sofás portugueses antigos e ornamentados, cadeiras de braços e espelhos baços.


(…) No último dia, quando ia para o encontro de encerramento com o Governador e o Partido, Lucio Lara levou-me a ver uma das maravilhas de Angola, as quedas de água de Kalandula. Fomos de carro ao longo de estradas alcatroadas já gastas, através de florestas de grandes árvores floridas e de campos de milho e de café. Quando saímos do carro para descer a pé até Kalandula, as realidades por trás da escolta de doze soldados, das ordens rigorosas de não andar fora do caminho devido ao perigo de minas, e de começar a voltar para trás muito antes de escurecer, foram esquecidas por um instante, diante da beleza daquelas quedas enormes e atroadoras, iridiscentes ao sol e emolduradas por fetos gigantes de flores cor-de-rosa e brancas. Era algo muito belo que passados poucos meses deixaria de poder ser visto durante anos, à medida que a UNITA avançava para o interior da província, cortando as estradas para Kalandula e outras estradas e zonas agrícolas. A bela Kalandula desaparecia na África profunda.”


E agora venham comigo até Malanje e a Kalandula. Longe? Não. Estão mesmo aqui ao lado, à distância de um clic.

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WANDA RAMOS


Esta escritora já não está fisicamente entre nós: deixou-nos em 1998. Nasceu no Dundo, província da Lunda Sul, em 1948. Filha de um funcionário da Diamang, por lá passou a infância. Depois de fazer o exame de admissão, em Malanje, viajou para Portugal onde frequentou os estudos secundários e universitários. Licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa. Entre 1982 e 1984 pertenceu aos corpos gerentes da Associação Portuguesa de Escritores.


No início da década de 70 voltou a Angola acompanhando o marido, destacado em comissão militar. Foi então que aproveitou a experiência para recuperar as memórias da sua infância angolana. O resultado foi a publicação de um belíssimo livro a que chamou “PERCURSOS – DO LUACHIMO AO LUENA”. Com este trabalho ganhou o Prémio de Ficção da APE em 1980.


Nesta obra, a todos os títulos notável, ficam dorida e claramente expressas as relações humanas orientadas por um regime opressor e discriminatorio. Porém, este livro, dada a sua grande riqueza e complexidade, não se consegue resumir: tem que ser avaliado no todo. DEVE ser lido e não apenas comentado. Para o comprovar extraí o que segue onde em tão poucas linhas é dito tanto…


“(…) Primeira reminiscência
Vai ‘gora no mato, sinhora. Seu matumbo, vai no mato fazer o quê? Vai ver família, mulher lá, no mussôco. Tem ainda os minino, tirar saudade dele. Vai mas vem logo, tem serviço pra fazer, tem hoje visita.
Enchia-se amiúde o quintal de mulheres, traziam com elas os monas, panos garridos enrolados no corpo, carapinha basta, entrançada, ou tão-só sulcada a deixar ver o couro cabeludo esbranquiçado por entre os tufos densos e escuros, traziam também galinhas ou os ovos das galinhas delas para vender, vinham ver os homens delas: acocoradas no quintal, perto de alguma papaeira bem alta. Ladrava-lhes o cão-Ling, corria-lhes atrás, trepavam então de medo árvore acima. De chão de cimento encarnado, era grande a casa, varanda corrida a toda a frente, alpendre atrás. Havia o jardim, canas floríferas da altura de homem, floxes, petúnias, bocas-de-lobo, sécias. As que mais gostava. Regado tudo à tardinha, descido o sol de mil ardências sobre o sossego à hora crescendo, já quase noite, gostava então de ver o jardineiro ensopar a terra de água – sendo à vezes a mãe que o fazia. Ousou algumas vezes ainda pedir a mangueira, sempre lha recusaram, pequena que és, sabes lá tu como se rega um jardim, melhor era se fosses fazer os deveres e, além disso, dar confiança ao preto, pôr-se ele para aí a mangonhar.
Os deveres da escola: tabuada muito de cor, a geografia desse continente longínquo onde como podia lembrar-se de ter estado? – fora no puto não tinha ainda um ano, voltou tão-logo que não deu para conhecer. Só sabia dali, chuvadas torrenciais e a terra muito cheirosa depois delas, assustadoras trovoadas com os musseques a arder, as queimadas acarretando farripas de cinza e emporcalhando as cortinas, preciso era fechar as janelas todas; ou então, as imaginadas serpentes no cocuruto das mangueiras, soltavam-se sobre as pessoas para as matar, dizia-se. Geografia de um continente longínquo de cor, as serras todas, os rios de seguida, os caminhos-de-ferro sem hesitações, as províncias uma a uma. E os inúteis brinquedos que de lá vinham, mandados pela tia beata e solteirona, os avós, portadores de mundo desfasado, necessariamente mitificado nos servicinhos de plástico às florinhas, nas panelinhas de alumínio, nalgum tecido de mais rica textura ou estampado. Supostamente mais à moda, vestir a menina de folhos, organzas e cambraias por entre os calores e poeiradas africanas, laçarotes no cabelo, fitinhas de cetim – pois não era frustrante vesti-la somente com os tecidos de lá, tobralco, róbia, algum escasso pano importado das américas, que o outro mais ordinário empilhado nas prateleiras do único armazém era coisa para pretas porem à roda do corpo, e não havia ali diversidades nem concorrência?”
Alguns de nós se recordarão destas infâncias…

Bibliografia:

“Nas Coxas do Tempo” (1970) – poesia
“É Contudo Cantar Sempre” (1979) – poesia
“Percursos – Do Luachimo ao Luena” (1981) – romance
“As Incontáveis Vésperas” (1983) – romance
“Poemas-Com-Sentidos” (1986) – poesia
“Os Dias Depois (1990) – contos
“Litoral (Ara Solis)” (1991) – romance

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XAKOLO MONANGUMBA (João Faria Paulo)


Nasceu na aldeia de Kahunga, província de Malanje, em 1973. Frequentou o Seminário Médio e Maior na Arquidiocese de Luanda. Pertenceu à Companhia de Jesus. Já terá terminado o curso de Filosofia e Humanidades na Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa.


É do seu segundo e último livro que vamos falar um pouco. Intitula-se “MAKAS DA BANDA”, foi publicado em 2001 pela “Campo das Letras”, e tem como inspiração a tradição oral angolana ensinada pelos mais-velhos porque, lá diz o ditado kimbundu “mudikanu diá muadikimi mubola mazué, ki mubole mbimbi”, que é como quem diz, “na boca do ancião apodrecem os dentes não a palavra”.


Numa espécie de prólogo, começa por afirmar: “(…)Por isso, esta escrita não é a escrita de Camilo, de Queirós, de Tolstoi, de Fédor, que magnetiza a inteligência do que lê, mas é o palpitar da literatura capaz de traduzir ansiedades, inquietude e problemas graves de um povo. Se o fizeram Neto, Troni, Viriato, Jacinto, Andrade, Vieira, porque não eu? Todos eles fizeram da literatura a expressão da sociedade.”


E continua fazendo uma chamada de atenção que acaba por ser a sua declaração de intenções: “(…)Todavia desengane-se a artilharia dos académicos, exorcize-se o guardião da Língua, porque aqui, no Rocha Pinto*, não há academias, não existem oficinas das belas-artes. Chamai o que quiserdes a esta escrita: nua de erudição, vaporosa, bagagem de vento e piropo… chamai tudo!, mas crede que este modo de ordenar é sadio e insuflado pela sabedoria oral do povo. Entendestes agora por que ao Camões, o nosso grande Camões, não lhe chego à sombra dos calcanhares? Se sim, então, começa-se.”


Como, então, vamos chamar a esta escrita? Deixo-vos um cheirinho para que possam ajuizar:


(…)Rolava o dia 28 de Agosto de 1980, quando, pela hora nona, ouvi uma gritaria seca, lá no outro lado da rua, no sopé da vivenda, a única que havia no bairro Rocha Pinto. Pertencia ao dito cujo de que te falei atrás. Mas que importa ele ser ricaço, se até a sua roupa interior eu consertava? Vamos ao que interessa.


A meninada toda junta era um enxame de abelhas. Entoavam aos saltos a cantiga costumeira daquele dia:


“Ti Vinti i oito, vinti i oito de Agosto, paga só brinquedos, paga só brinquedos!”


O kamanguista não punha resistência àquela gritaria e logo começava a atirar brinquedos por cima do muro. Cumpria sempre esse rito sem nunca se mostrar a ninguém; mesmo aos pequenos, aos queridos do Reino, não os deixava passar. Sempre que saía, fazia-o sob escolta. Mas se ele fugia da sua própria sombra, quanto mais da sua gente?!


Os brinquedos eram de formato belicoso. Nem bolas, nem bonecas havia. O insólito estava para acontecer. No final da oferta, ao invés de brinquedos, começou a cair uma centelha de resmas de papel caligrafado. Os kandengues amotinados, numa luta de puxa-puxa, tentavam apanhar o máximo de folhas que podiam e que, por ironia, voavam tão longe quanto mais lhes punham a mão. Rasgavam-nas uma por uma. Uns faziam papagaios, outros pequenos barquinhos e as meninas confeccionavam bonecos com uma perfeição quase divina. Só lhes faltava andar para ensinar aos mais velhos as veredas de paz e falar para rogar por um segundo dilúvio sobre esta terra de fogo e de pão amassado pelo rabo do canhão.”


(*Rocha Pinto – nome de um dos musseques de Luanda.)


Felicitações Xakolo Monangumba, irmão malanjino, e que o teu caminho prossiga livre de escolhos agora que se calaram os canhões.


Bibliografia:


“Quissanje” (ano?) – poesia
“Makas da Banda” (2001) - romance

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ZÉ MULEMBA (Alberto Telésforo Afonso)


Sobre este autor podemos dizer que nasceu em Luanda no ano de 1942, que concluiu o curso na Escola de Regentes Agrícolas do Tchivinguiro em 1962. Era figura conhecida no mundo dos rallyes automóveis. Foi director do Quilombo, uma estância agrícola  paradisíaca situada em Ndalatando, província do Kwanza Norte. Saiu de Angola em 1975. Contudo não abandonou África tendo trabalhado na África do Sul, Moçambique, Suazilândia, Zâmbia, Quénia, Botswana e República do Zaire (ex-Congo Belga). Em 1992 rumou para Portugal onde veio a falecer em 2007. Mas enquanto recuperava da grave doença que o afectava foi “abrindo a gaveta dos seus tesouros para transmitir aos mais interessados a felicidade de conhecer África, o grandioso Continente, com a sua natureza única, tradições e cultura dos seus povos.”


O primeiro resultado foi a publicação de um pequeno livro de contos e poesia intitulado “KURIKUTELA – Nos caminhos de Angola” que foi publicado em Edição de Autor, conjuntamente com a “Atelier de Produção Editorial”, em 2006. São estórias acontecidas e poemas sentidos, escritos e descritos com muito humor e com muito amor pela terra mater, que nos fazem sorrir e que, por vezes, nos comovem.


No mesmo ano, pressentindo que o tempo não lhe sobrava, lançou um segundo e derradeiro livro a que deu o título de “PARLAMENTO SELVAGEM – A Anarquia dos Animais” também em Edição de Autor mas acompanhado, desta vez, pela “Edições Ecopy”. Tive o prazer de estar presente na ocasião do lançamento deste segundo trabalho do meu amigo ZÉ MULEMBA. Trata-se de uma fábula com muito simbolismo que espelha o mundo político dos nossos dias colocando os animais selvagens, através das suas características próprias, na pele dos homens.


Mas é na obra “KURIKUTELA – Nos Caminhos de Angola” que, na minha opinião, se pode ver a verdadeira alma do ZÉ MULEMBA. Desse livro deixo-vos um pequeno poema bem demonstrativo da sensibilidade do autor. Chama-se “Fula Maria” e foi escrito em 1968. Diz assim:

 “Fula Maria 
Filha do Soba Sapalo
Da sanzala Camilunga,
Nasceu, brincou, amou,
Junto à beira da estrada.
Zé Catraio
Satambinja da carrinha
Do siô Zé Miúdo,
Fazia adeus ao passar
Na sanzala Camilunga.
Fula Maria esperava
Sentada na árvore caída,
Que a carrinha encarnada
Aparecesse lá na curva,
Com Zé Catraio sentado
Em cima do saco de fuba.
E tanto tempo esperava,
Dia e noite sem cansar
Que o tuku-tuku aparecia
Trazendo pó e barulho.
Fula Maria acenava,
Fula Maria sorria.
E lá de cima emproado,
Zé Catraio faz banga
Com sua boina bonita
E cambriquite coçado.
Fula Maria acenava,
Fula Maria sorria.
E certo dia estreou,
Vestido novo encarnado
Com sapato de fivela,
Para ver Zé Catraio
Que nesse dia passava.
Mas seu coração bateu,
Quando Catraio não viu!
Satambinja era outro,
Que nem p’ra ela olhou.
Fula Maria gemeu,
Fula Maria chorou.”

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Zé Mulemba

Xacolo Monangumba

Wanda Ramos

Victoria Brittain

Uanhenga Xitu

Tomaz Vieira da Cruz

Tomás Jorge

Tchikakata Balundu

Tazuary Nkeita

Suzana Benje

Sócrates Dáskalos

Serpa Pinto

Ryszard Kapuscinsky

Ruy Duarte de Carvalho

Rola da Silva

Rocha de Sousa

"... um livro é um espelho que segue por uma grande estrada. Tão depressa reflecte aos nossos olhos o azul dos céus como a lama dos caminhos. (Stendahl)"