
ANTES QUE SEJA TARDE
Antes que seja tarde e o tempo me fuja pelos poros, deixa-me dizer-te dos sonhos que me alucinam e a todo o momento me envolvem, numa ténue nuvem translúcida, teimando em fazer-me vogar, transportando-me para distâncias que, afinal, estão enraizadas dentro de mim.
Deixa-me fazer-te meu fiel depositário e assim transferir a minha inquietação e dor para ti. Tenho de as transmitir a alguém… Podem perder-se no tempo e há toda a urgência em “gritá-las”, para que não sejam esquecidas.
Quero falar-te daquele tempo que nos roubaram, dos dias amortalhados precisamente quando o sol brilhava no seu apogeu.
Pelas tardinhas, eu ia espreitar a bela gajajeira que me esperava todos os dias a despontar sobre o telhado vizinho à nossa casa; falávamos as duas e os meus olhos brilhavam dourados, hipnotizados pelos seus frutos amarelinhos; tanto nos amámos que lhe fiz um poema, um dia, era inocente e aquilo era segredo nosso. Penso que ninguém mais a terá olhado como eu. Eu parti e ela deverá ter tombado de velhinha.
Durante muito tempo, naquele tempo em que os dias não se contavam, – eles eram sempre curtos e fugidios –, eu deixava-me ficar à varanda da casa a olhar a vaidosa acácia rubra que enfeitava a Rua Serpa Pinto… Quando chovia e o pó do chão se levantava numa nuvem breve, a linda acácia virava um palco de dançarinos. Eram as jingunas que rompiam o chão e vinham bailar, até caírem, à volta do candeeiro da rua; umas repousavam nos ramos rubros, outras eram apanhadas por miúdos que apareciam em bandos correndo de todos os lados e as comiam, por entre gritos de alegria e gozo. Então o ar enchia-se de um odor forte a terra molhada, uma terra abençoada antes do nascer dos tempos…
Era um tempo mágico. Aos domingos as famílias abalavam para fora da cidade, rumo às Quedas do Duque de Bragança e ali ficavam em silêncio, por algum tempo, olhando o incrível que era a natureza em todo o seu esplendor; o arco-íris bailava sobre nós e toda a gente jurava ver imagens que se alternavam por entre a neblina constante e eterna da chuva miudinha trazida pela força das águas que saltavam, lá de cima, para o abismo. Eu sentava-me na pedra grande, cá em baixo, sob a árvore linda que enfeitava aquele lugar; hoje, vejo em muitos livros a mesma árvore, solitária, inclinada sobre a pedra e só… Como eu.
Havia domingos em que, depois da missa na Igreja da Maxinde, cheios de paz, após escutar o padre Luís Maria, partíamos para a Fazenda dos Italianos. A Yolanda recebia-nos de braços abertos e corria a fazer uma enorme cafeteira de café porque, momentos depois, chegavam mais amigos; nós ficávamos na cavaqueira e as crianças corriam para as pocilgas ou para os estábulos, descobrindo os segredos da vida dos animais; pela tardinha apanhávamos mangas das mangueiras descomunais, sentinelas e testemunhas de tantos dias felizes e, por fim, espectadoras da imensa tragédia que se iria abater naquele lugar.
E o Gaiato?... A Casa do Gaiato, à saída da cidade, era um fascínio para as crianças. Levávamos o lanche e fazíamos ali um pic-nic, onde não faltava a maionese cor-de-rosa a enfeitar as sanduíches de fiambre e queijo; o “Pluto” atravessava a lagoa para nos apanhar no outro lado e depois espargia-nos com o abanar do corpo molhado e nós corríamos e ele saltava feliz.
A cidade crescia e todos nós nos envaidecíamos dela; havia corridas de automóveis onde não faltava a presença do Emílio Marta e do António Peixinho, os quais faziam balançar os brios do Tino Pereira, malangino de gema a puxar forte pelo seu “Capri”; toda a cidade corria a pendurar-se nos prédios da avenida da República à espera de os ver aparecer na curva do Rádio Clube de Malange. Era dia de festa e muita agitação.
Agitação, também, era a palavra de ordem nos dias de Carnaval em que as carrinhas passavam cheias de garotos, com sacos de fuba e pelo ar se viam nuvens de farinha e se escutava “ Monangabé”!!!
E a “Tifa?
– Corram, vem aí a “Tifa”! – Dizia a criançada.
A “Tifa” era uma carrinha que trazia um aparelho destinado a desinfectar as ruas da cidade e, periodicamente, passava por áreas determinadas espargindo o ar com insecticida a fim de matar o mosquito “anofélis” portador do paludismo. No ar ficava o cheiro forte do insecticida; dentro de casa o segredo de quem tinha fugido mais depressa.
Não havia televisão, coisa maravilhosa essa ausência!
As senhoras da cidade juntavam-se e jogavam muito à canasta, organizavam-se passeios e bailes no Clube Atlético; criavam-se os filhos, ensinando-os a ser tementes a Deus e a amar o próximo. E comentava-se o aparecimento de uns cabeludos que se passeavam, à noite, em jipes descapotáveis, lançando gargalhadas à noite. Havia que proteger as jovens de tal maralha.
Noite dentro, muitas vezes, partíamos para Cambondo, a 20 km do centro da cidade, e esperávamos que o Sr. Justo acabasse de tirar o pão quentinho do forno da padaria, e já munidos de pacotes de manteiga e chouriços fazíamos uma festa, às tantas da madrugada.
África, a nossa África…
Depois veio o Kilombo. As suas árvores gigantes de raízes adventícias, onde eu me pendurava; as “patas de cavalo”, as cachoeiras, os riachos, as flores dos cactos, o cheiro, o cheiro, o cheiro… toda eu era inocência, numa entrega sem limites, prenha de paz, renascida, descoberta…
O regresso: outra festa.
Comprávamos pelo caminho cachos de bananas, e gaiolas com celestinhas e viúvas. Até apanhámos uma cobra, uma vez, que foi esfolada à beira de um riacho, para ficarmos com a pele. Ficámos com a pele e com o cheiro da sua gordura, muitos dias.
A nossa “Datsun” azul era um presente de Deus: portava-se bem e corria veloz, para onde eu queria; na parte de trás, baixados os bancos traseiros, era colocado um colchão e as crianças iam ali, felizes, fazendo concursos, contando adivinhas e cantando.
Depois, quando podia, escrevia, escrevia muito.
Lembrava o meu tempo de menina, em Luanda, na aprendizagem da vida, na descoberta primeira de África aos meus pés: a cor da pele, a língua, os cheiros, o Rio Bengo, os imbondeiros, as múcuas, as papaias, os maboques, as pitangas, as gajajas… Meu Deus, tanta coisa maravilhosa e eu tão pequenina!
A moringa de apanhar a água que caía, pingo a pingo, do filtro de pedra de granito assente num banco de madeira, alto, de centro aberto.
O Domingos, o meu Domingos que me cantava, cantava…
21 dá gosto do 47
Vai aver o Mário ué
Vai a pa Porto Amboimmm
Vai dari notícia mamã
Da Maria Berta
Eli faiz viagem jutamente cu passarinho ué.
Ele que me ensinava, todos os dias, Kimbundo.
Kidimuene! Jura mesmo, sangue de pacaça!
A construção do Cinema Tropical onde vi o primeiro filme do Cantiflas,
O primeiro namorado, chamado Virgílio e que mandei embora por me pedir um beijo. Tinha 14 anos.
Era o tempo em que eu vinha da escola, direita ao Bairro das Ingombotas, ali pela Vasco da Gama, bata branca e pasta de cabedal luzidia de tão bem encerada; olhava de revés os meninos de cabelo esticado e calções caqui que me diziam graças e elogiavam os meus olhos azuis. Os meus cabelos eram longos e fartos tal como a minha alma, sedenta, sempre, não sabia bem de quê.
…………..///……………
Bebi água do Bengo. A causa da minha saudade, da minha chaga aberta.
Que não fecha… não fecha…
Alastra com o tempo, teima em queimar-me por dentro, como um feitiço adormecido, lançado pelos ares. Vindo, quem sabe, sobre as águas, pegado a caroços de dém-dém, balançando… balançando… sabendo-me à espera, cansada, querendo partir…
Mas é urgente que se saiba daquele tempo, daquela magia, vivência única. Tudo se vai perder no tempo que nos rodeia, cheio de banalidades, onde a matéria, o gozo imediato e o sexo imperam. Chegará o dia em que duvidarão da história e dos testemunhos; rirão da nossa inocência e da nossa paz, dos nossos amores abertos e da nossa alegria.
Resta-me a certeza de que a minha última viagem será para o Sul. É inevitável, é fatal e está escrito na terra vermelha que pisei. Tomo como testemunhas do meu querer as gajajas e as acácias que me ensinaram, em menina, a descobrir a diferença dos cheiros e das cores.
Se me buscarem, à tardinha,”na hora dos mágicos cansaços”, segundo Bela Espanca, não me encontrarão, estarei longe, terei partido para lá do Equador, para África.
1.8.2008
Maria Alice L. de Pinho e Silva
As pregas que os dias vincam nos sonhos
A Jean Cautin, muito especialmente,
porque muitas coisas se embrulham com as prendas de Natal: uma carícia, uma conversa, um gesto, um beijo, um abraço, a amizade, a ternura, a gratidão, o tempo, o mundo … o coração escondido na palma da mão.
Impossível não olhar para trás… há portas no passado que não chegamos a fechar definitivamente.
Galgando os limites do tempo e do espaço, eis que chegam, por mãos desconhecidas e que se fizeram amigas – pitangas, goiabas, maracujás, tomates da Índia e uma anona gigante – fruta fresca de outrora, em festa – supremíssima surpresa, deleitosa alegria!
Andam cheiros tropicais passeando pela sala; sei que estão apenas de passagem; mas enquanto duram, em vistoso centro de mesa, adornei-lhes a perfeição em vistoso centro de mesa, na companhia de três abacates, uma mão-cheia de cassússuas, uma papaia e um abacaxi de coroa sorridente. Três proteas, rainhas da garrida mancha de cores e sabores, rivalizam, felizes, com o azevinho remetido para o móvel ao lado.
Repousam mais calmas as saudades na ponte de afectos tecida de uma margem à outra. Recortam-se melodias em lavas de rocha mais sedimentada onde ouço a fantasia de outros cantares – N´Gola Ritmos, Elias Diakamuezu, Duo Ouro Negro, Bonga…
Apetece celebrar a amizade num soprar de velas, as velas deste Natal!
E pensar que tudo isto está apenas à distância de um abraço!
(20 /Dez./06)
Carta Póstuma a um Passado Distante
Rompe a dimbira em notas soltas e silenciosas. Devagar. Cinco dedos em cada mão dedilhando cordas na distância imprecisa da ausência.
Penso em ti, ó vida! És sonho interrompido que se continua tecendo como um belo pedaço de paraíso saído directamente dos tempos antigos. Recordo-te. Escolho refugos. Fragmentos dispersos. Recomponho rostos e nomes. Minuciosamente. Reconstruo ruas e bairros, passos e corridas. Peça a peça. Pacientemente, tentando preencher lacunas. Fantasmas fugidios e inquietos. Labirintos. Recrio. Invento. Reinvento. Lembro. Remexo nos sulcos sedimentados das telas onde escapam tantos traços já diluídos.
É difícil imaginar-te no presente: situas-te num passado cada vez mais recuado em tonalidades esbatidas. Perda incólume de primaveras interrompidas feitas outonos precoces. Vida balouçada numa teia de que se partiu um fio – não se desfez inteiramente, cambaleia, permanece. E aí cabemos nós e cabe o sonho dentro de nós.
Tudo tinha um sentido. Passageiro e efémero, afinal!...
Corre um fio de saudade nas margens da ternura com que te pressinto. Foste a exaltação e o enlevo de adolescentes descobertas. Sobressalto e acalmia. Lábios entreabertos respirando quietude e alegria. Olhares faiscando aconchegos e esperanças. Tempestade. Doçura de sol poente. Fugidio encontro – tão breve!
Estranho rumor da cadência de ecos perdidos. O canto lavado dos eucaliptos após a chuvada tropical. A infância chapinhada de luz em terra vermelho-ocre. O gesto de colher goiabas quentes e luzidios loengos.
Entre as mãos, apenas as memórias dormem, amaciadas pelo tempo – sonhos preenchendo o vazio entre o que de ti sobra e a dureza dos dias que te seguiram…
Devagar. Rompe a dimbira em notas mudas. Chora de mansinho ao som nostálgico do quissange dolente. Ensaiando toadas dos Natais de outrora…
21/Dez/05
SERPA PINTO (Alexandre Alberto da Rocha Serpa Pinto) (1846-1900)
“(…) As narrações de Livingstone, Cameron, Stanley, Burton, Grant, Savorgnan de Brazza, D’Abbadie, Ed Mohr e muitos outros estão longe de pintar os sofrimentos do viajante africano. Difícil é compreendê-lo a quem o não experimentou; àquele que o experimentou difícil é descrevê-lo.”.
É deste modo que Serpa Pinto, então major do exército, nos prepara para a leitura dos seus cadernos de uma viagem que teve início em Benguela no mês de Setembro de 1877 e que terminou em Durban no mês de Dezembro de 1878. Estes cadernos foram compilados numa obra em dois volumes que intitulou “COMO EU ATRAVESSEI ÁFRICA”. O primeiro volume tem como subtítulo “A ESPINGARDA D’EL REI” e o segundo “A FAMÍLIA COILLARD”. Foram publicados por uma editora britânica em 1881. A última edição portuguesa, completíssima, com fac-similes de mapas, gráficos, desenhos e ilustrações, pertence à Europa-América que, lamentavelmente, não indica a data de reedição. A estética das capas também poderia ser bastante melhor.

Estes diários de viagem são de leitura obrigatória para se perceber como era África nos fins do século XIX, ou melhor, como é que o homem europeu olhava para aquele continente e para os seus habitantes. Aos olhos da sociedade actual muitos dos conceitos explanados na obra são totalmente inaceitáveis. Saliento dois ou três exemplos: “…entre os quimbandes (…) vi algumas mulheres que se poderiam chamar bonitas se não fossem pretas.”, ou então, “… é preciso que em África haja por cada preto um branco (…) porque só então o elemento civilizador equilibrará com o selvagem e poderá vencê-lo.”, ou ainda, em relação ao ambaquista, figura importante na expansão e cultura da língua e dos hábitos portugueses em África, “… em Benguela levam a condescendência a chamarem-no mulato, um pouco escuro; mas a verdade é que nas suas veias não há uma gota de sangue europeu e que ele é preto, não só na cor, como na ascendência, e quiçá na alma.”. Esclarecedor. Mas era assim o políticamente correcto na época.
Contudo o mais importante que fica da leitura desta obra é o reconhecimento da extraordinária aventura que deve ter sido (que foi!) a travessia de territórios inóspitos, quase desconhecidos e, na maior parte dos casos, hostis. Revela uma tremenda coragem e um amor abnegado à Pátria, atributos que já se não usam nos dias de hoje. Por isso a odisseia de Serpa Pinto merece pertencer à galeria onde figuram os feitos de outros grandes exploradores, portugueses e não só.
SÓCRATES DÁSKALOS (Sócrates Mendonça de Oliveira Dáskalos) (1921-2002)
Filho de pai grego e mãe portuguesa este angolano nascido no Huambo é senhor de um riquíssimo e agitado percurso político: fundou a Associação Académica do Huambo e a OSA/Organização Socialista de Angola, desmantelada pela polícia colonial em 1941; ainda nesse ano fundou em Lisboa a Casa dos Estudantes de Angola, embrião da Casa dos Estudantes do Império. Foi membro do MUD-Juvenil da Faculdade de Ciências de Lisboa.
Em 1952 regressou ao Huambo onde trabalhou como agrimensor particular por lhe ter sido vedado o acesso a lugares no Estado. Só em 1957 conseguiu o ingresso no corpo docente do Liceu de Benguela.
Em 1961, juntamente com Fernando Falcão, Aires de Almeida Santos, Luís Portocarrero, Carlos Costa, Manuel Brazão Farinha entre outros, fundou a FUA/Frente de Unidade Angolana. Foram todos presos e deportados para Lisboa. Em 1962 exilou-se em França e organizou a FUA no exílio transferindo-se para Argel. Aí manteve contactos com outros exilados políticos nomeadamente o general Humberto Delgado.
Em 1965 esteve na China com Gentil Viana, Viriato da Cruz, Carlos Morais e Onésimo da Silveira, durante a Revolução Cultural, até 1968.
De 1969 a 1972 esteve na Guiné-Conakri colaborando com o PAIGC.
Quando se deu o 25 de Abril encontrava-se como professor em Daloa, Costa do Marfim.
Regressado a Angola foi seu representante na Comissão de Descolonização da 29ª Assembleia Geral da ONU. Foi Governador de Benguela, director da Sorefame (hoje Lobinave) e membro do Conselho da República até 1992.
Uma vida destas tinha que dar um livro o que acabou por acontecer: intitula-se “DO HUAMBO AOHUAMBO – UM TESTEMUNHO PARA A HISTÓRIA DE ANGOLA” e foi editado pela Vega em 2000.
Desta autobiografia, aconselhável a todos os títulos para quem queira conhecer um pouco mais da História de Angola, deixo-vos um excerto do Prefácio escrito por Manuel Rui:
“(…) A história tem de ser escrita. Mesmo por cima de todos os acordos de paz ou de guerra. O que se passou foi que todos os urbanos foram mortos ou tiveram que abandonar a cidade, várias vezes, e a ela regressando outras várias até ao cansaço que faz desistir. E os camponeses, pela força da metralha, tiveram que fugir do campo – salvo poucos que mesmo assim inquinaram a demografia de Luanda – e eles nunca tiveram a hipótese de apanhar o avião para o estrangeiro. E não tiveram outro remédio que não fosse ocupar a cidade. O resto, na desgraça que estivemos com ela e ainda estamos, tudo isso está neste livro.”
BIBLIOGRAFIA
“Memórias. Eu Foi S. Tomé. Aiué (Piratas do Séc. XX)” (1992)
“Memórias. A Casa dos Estudantes do Império” (1993)
“Do Huambo ao Huambo – Um Testemunho para a História de Angola” (2000)
SUZANA BENJE (Graça de Sousa)
Médica de profissão, filha de médico (o muito conhecido por terras da Huíla e um pouco por toda a Angola, Dr. Farrica) actualmente a residir e a trabalhar no Algarve, nasceu em Sá da Bandeira (Lubango) em 1946. A sua primeira obra, de cariz autobiográfico, retrata uma faceta pouco divulgada da descolonização: a dos que acreditaram, a dos que ficaram lá arriscando a vida, bens e conforto com o desejo e a legítima ambição de contribuir para o nascimento de uma nação. Foram forçados a descrer quando o descalabro se abateu sobre todos os angolanos; quando uma guerra mais cruel e mortífera que todas as outras se instalou e empapou aquele chão com o sangue de irmãos desavindos. Obrigados a deixar tudo para trás tornaram-se filhos bastardos de uma Mãe que não lhes sai do coração: Angola.
O livro retrata o percurso de uma família através das guerras de libertação, a chegada da independência, o fraccionismo, os consequentes e tenebrosos acontecimentos de 27 de Maio e as eleições de 1992 que trariam aos angolanos a tão desejada paz. Mas que afinal não trouxe, como sabemos…
O livro intitula-se “BANDEIRA A MEIA HASTE!” e foi publicado pela Hugin em 2003. Dele transcrevo partes de uma carta endereçada aos filhos quando o casal regressou a Angola em 1991, depois de alguns meses passados em Portugal.
“(…) Luanda, Setembro de 1991
(…) Enquanto nos bastidores se prepara ou “desprepara” o futuro, a população vive como habitualmente. A cordialidade, o calor humano, a naturalidade no convívio, a alegria de viver, são a palavra de ordem.
Povo sofredor, aguenta as maiores agruras sem um queixume e, numa primeira oportunidade, festeja o pouco de bom que vai surgindo. Mergulhada durante uma semana nas trevas, por avarias que simultaneamente surgiram na barragem de Cambambe e nas turbinas de energia alternativa, Luanda acordou ontem com a novidade que “a electricidade voltou!”. Nem de propósito a uma sexta-feira… altura para combinar a “desbunda”.
(…) Entretanto no hospital infantil da cidade morrem diariamente cerca de vinte crianças por desidratação provocada pelo paludismo e pela cólera. Os mutilados de guerra passeiam a sua desdita pelas ruas, pedindo esmola. Os loucos alimentam-se do lixo dos contentores…
E é assim… Luanda é morna na felicidade e na desgraça. Os mortos repousarão num solo quente, onde a degradação vai ser rápida e, num instante, nascerão outros seres, frutos do calor da desbunda ou da monotonia da falta de corrente.”.
BIBLIOGRAFIA
“Bandeira a Meia Haste!” (2003)
TAZUARY NKEITA (José da Costa Soares Caetano)
Jornalista e escritor, nasceu em Luanda no ano de 1956. Foi chefe de redacção da ANGOP (1975-1984), chefe da secção de informação internacional do DIP do MPLA (1984-1990), director do gabinete do ministro da comunicação social (1990-1991), director de informação da ANGOP (1991-1994) e jornalista da OMS em Angola (1995-2001). Currículo vasto que lhe permitiu, aliado a um agudo sentido de observação, recriar situações do quotidiano luandense com aquele humor tão típico do povo angolano que sofre, imensa e injustamente, mas que nunca esqueceu o valor do riso.
“Quem não dizer como eu, mãe dele é mbica!”, falavam os miúdos para convencer os outros a imitar. Assim nasciam as modas, atitudes extravagantes que todos seguem, uns bem, outros mal, mas que ninguém explica. Durante o ano de 1986 apareceram em Luanda uns ténis “à joão-domingos” que o povo alcunhou de dibengos (ratos, ratazanas). Ténis práticos mas que não davam banga. A miudagem via nos dibengos um motivo de troça, e todos os que saíssem à rua com eles eram insultados: “Meteu dibengo, meteu dibengo com atacadorê!”. E reportaram-se casos de violência por causa dos dibengos…
Seis anos depois os dibengos voltam em livro, ou melhor, num filme descrito em livro. Agora é o cineasta que diz: “Quem não ver a voz dos dibengos mãe dele é mbica” e alerta que “os doentes cardíacos devem medir a pulsação antes da exibição deste filme! Cuidem-se! Os dibengos vão falar!”.
E assim surgiu um livro-filme (ou um filme-livro) que o autor, numa edição sua de 1991, intitulou “42.4 – A VOZ DOS DIBENGOS”. Dele transcrevo um pedaço da sua prosa deliciosa:
“(…) Dibengo significa rato, o animal que rói e sopra, bastante conhecido pela invulgar esperteza. Mas o termo “dibengo” foi vulgarizado na cidade de Luanda para troçar a miudagem e graudagem que usava ténis de marca; azuis, pretos ou vermelhos, ridicularizados pelos seguidores da moda, mas muito práticos e acessíveis ao cidadão de baixa renda. Em terra de descalços foi crime “meter dibengo”.
“Méteu dibengo! Méteu dibengóóó! Atacadore!”, gritam em máxima potência os miúdos de rua, numa caça feroz e numa troça mortífera a quem usasse tal calçado. Fossem homens ou mulheres; pretos, brancos ou mestiços, kimbundus, bakongos ou umbundus. Desde o bairro mais luxuoso de Luanda, ao musseque mais pobre. Os dibengos foram avisados para não sair à rua. Ninguém investigou as origens desta guerra.”.
BIBLIOGRAFIA
“42.4 – a Voz dos Dibengos” (1991)
“A Minha Pulseira de Ouro” (2005)
MINHAS MEMÓRIAS - em Outras imagens
Os esbracejadores
Estávamos em meados dos anos 50, quando a aspiração independentista africana ganhava adeptos e na ONU começavam a pressionar Portugal. E de um dia para o outro eles apareceram com um certo estilo bajulador, com uma certa existência oportunista. Durante anos foram uma presença constante, mais o seu ritual do faz de conta. No limite, actores passivos numa peça encenada pela História: os esbracejadores que nos pareceram de supetão, por volta de 1954 ou 1955 e ainda se mantiveram até ao início dos anos 60. … ( Cinquenta e poucos anos depois, eles persistem: moldando-se às circunstâncias, ajustando slogans, reproduzindo compadrios, robotizando gestos fruto das campanhas de marketing político, mimetizando tiques. Envergonho-me quando recordo a amanadação despudorada que o PS conduziu nas últimas autárqicas de Lisboa, fazendo chegar à sede de campanha cidadãos desprevenidamente enganados para apoiar um seu correligionário: Malanje, cinquenta anos depois, diluviou sobre mim: em vez de carros do lixo, autocarros.)
Estudava eu no 1º ou no 2º ano do liceu, no Colégio Veríssimo Sarmento. Arregimentavam-nos para o jardim municipal, para o Palácio do Governo Civil. Como nós, alunos de outras escolas eram arrebanhados: os da Escola Comercial e Industrial, as alunas do Colégio das Madres e os das Escolas Primárias da cidade.
Evidentemente, os funcionários públicos também não podiam escapar ao “chamamento”.
As camionetas do lixo e de apoio às obras municipais chegavam abarrotadas, no sentido literal da palavra, e estacionavam do lado oposto do jardim, do lado da estação dos caminhos-de-ferro, onde despejavam a população das sanzalas. Sorte para estes “dedicados” portugueses porque as camionetas não dispunham de sistemas hidráulicos de basculção. O raio de acção da convocação dependia da importância do acto no sentir dos esbracejadores.
Os regedores ataviados ao mais puro estilo colonial iam colocar-se num local visível. Nunca percebi se era para serem mais facilmente contados e identificados, evidenciando a sua presença; se era uma forma de expressarem a angústia de anos de repressão, como que em afronta, em silêncio digno e dorido: “estamos aqui, não têm vergonha?”; ou se era para poderem também beneficiar pessoalmente de benesses coloniais … mais-barril-menos-barril-de-vinho; mais-lantejoulas-menos-lantejoulas para enfeitar as fardas …
Havia de tudo e para todos …
Entretanto, na varanda do Palácio, os esbracejadores num esforço de união iam incentivando os correligionários com soturnos “muito bem”, “apoiado”, enquanto que os chefes da claque no terreno percorriam da Fazenda às Obras Públicas a gritar “Viva Portugal”. Patético. Aqui se começou a ensaiar o movimento “onda” actual dos estádios de futebol. Com uma diferença: quando se chegava ao meio da assistência o bloco inicial dialogava em Kimbundo, num tom monocórdico, não ciente e não sentido, do momento que os esbracejadores entendiam como solene.
Acabado o ritual, sem perceber, porque não conseguia seguir a verborreia, e depois de muitas palmas e assobios de regozijo não sei de quê, a correr dirigia-me para a parte central do jardim, mesmo em frente do Palácio do Governador. Era a delícia, o mel, o perfume, o êxtase, o clímax da jornada. Os marimbeiros do Duque de Bragança.
Rompia a frente que se entrepunha entre mim e os músicos. Lutava por um lugar. Talvez por ser um kandengue deixavam-me ir avançando até conseguir ver os marimbeiros. Ali, à minha frente. Hoje ainda retenho a magia do momento. Africano. Puro.
Acocorados, como só os africanos o sabem fazer, conscientes de que o tempo não conta, os marimbeiros acocoravam a magia da música. Aos pares, ou isolados, frente às marimbas que os convocavam, iam numa aparente dissonância, entre o timbre metálico e da cana rachada das tábuas sobre as cabaças que percutiam, melodiando e ritmando África. A minha África … ( bem-haja os esbracejadores, que me deram a conhecer estes momentos encantatórios ).
Algum tempo depois, um ou dois anos, acastelaram-me. Comecei a integrar este momento com a farda da Mocidade Portuguesa. Estava institucionalizado. Servilmente, passei a pertencer aos "apoiantes tácitos" dos esbracejadores, com direito a situar-me mesmo defronte da varanda do Palácio do Governo Distrital.
Por onde andavam os meus marimbeiros ?...