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Maria Alice L. de Pinho e Silva

Memórias que a memória traz

Outros Natais

Carta Póstuma a um Passado Distante

As pregas que os dias vincam nos sonhos

Arrepios de Alma - 1

 

 

ARREPIOS DE ALMA -1
 
Do delta, subirás ao longo do vale verdejante, em contra-corrente. Balançando entre a curiosidade e a inquietação. Lentamente, absorvendo o ar fresco da manhã. Veias para cá, para lá; artérias para lá, para cá; até ao lugar do coração.
Postos, enfim, os pés na poeira da terra seca, sob o calor escaldante do sol e do medo, caminharás por ruelas empedradas com brancos calhaus rolados. Elas te conduzirão ao centro, até ao lugar do coração - da alma. Ei-la, a Stari Most, "lua petrificada". Assombro e fascinação. Ansiando pela sombra, molharás, então, os pés escaldantes na água límpida e fria do Neretva. Sagração. Ritual impulsivo de purificação a que não resistirás, absoluta e vital necessidade de respirar fundo, de (re)ganhar forças e coragem para erguer os olhos, encarar a realidade, os sinais dela, para além dela.
Retomarás a caminhada. Raiva. "Don´t forget 1993". Espectros de outros tempos, tão incrivelmente cruéis e sanguinários. V-E-R-T-I-G-E-M. Trevas. Melancolia e apaziguamento. Esperanças de novas eras. Luz. Claridade.
Ouvirás os sussurros. As vozes. Os "muezzin" e o toque dos sinos. Os Homens e as religiões. Verás. As casas. Os templos. As ruas. As vielas. Os cemitérios. As montanhas. A vida e a morte. A ruína e a reconstrução. A guerra e a paz. O rio. A ponte, outra vez e outra vez a ponte, o lugar do coração. Para cá, para lá. Palavras caladas. Olhares furtivos. Rostos introvertidos. Passos fugazes e silenciosos. Tímidos sorrisos, tão tímidos.

(Mostar, Mostar! Na ponte que te guarda o coração, ficou um pedaço de mim...

Em 10 de Agosto de 2008.)

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As pregas que os dias vincam nos sonhos

A Jean Cautin, muito especialmente,
porque muitas coisas se embrulham com as prendas de Natal: uma carícia, uma conversa, um gesto, um beijo, um abraço, a amizade, a ternura, a gratidão, o tempo, o mundo … o coração escondido na palma da mão.

Impossível não olhar para trás… há portas no passado que não chegamos a fechar definitivamente.

Galgando os limites do tempo e do espaço, eis que chegam, por mãos desconhecidas e que se fizeram amigas – pitangas, goiabas, maracujás, tomates da Índia e uma anona gigante – fruta fresca de outrora, em festa – supremíssima surpresa, deleitosa alegria!
Andam cheiros tropicais passeando pela sala; sei que estão apenas de passagem; mas enquanto duram, em vistoso centro de mesa, adornei-lhes a perfeição em vistoso centro de mesa, na companhia de três abacates, uma mão-cheia de cassússuas, uma papaia e um abacaxi de coroa sorridente. Três proteas, rainhas da garrida mancha de cores e sabores, rivalizam, felizes, com o azevinho remetido para o móvel ao lado.

Repousam mais calmas as saudades na ponte de afectos tecida de uma margem à outra. Recortam-se melodias em lavas de rocha mais sedimentada onde ouço a fantasia de outros cantares – N´Gola Ritmos, Elias Diakamuezu, Duo Ouro Negro, Bonga…

Apetece celebrar a amizade num soprar de velas, as velas deste Natal!

E pensar que tudo isto está apenas à distância de um abraço!

(20 /Dez./06)

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Carta Póstuma a um Passado Distante

Rompe a dimbira em notas soltas e silenciosas. Devagar. Cinco dedos em cada mão dedilhando cordas na distância imprecisa da ausência.

Penso em ti, ó vida! És sonho interrompido que se continua tecendo como um belo pedaço de paraíso saído directamente dos tempos antigos. Recordo-te. Escolho refugos. Fragmentos dispersos. Recomponho rostos e nomes. Minuciosamente. Reconstruo ruas e bairros, passos e corridas. Peça a peça. Pacientemente, tentando preencher lacunas. Fantasmas fugidios e inquietos. Labirintos. Recrio. Invento. Reinvento. Lembro. Remexo nos sulcos sedimentados das telas onde escapam tantos traços já diluídos.
É difícil imaginar-te no presente: situas-te num passado cada vez mais recuado em tonalidades esbatidas. Perda incólume de primaveras interrompidas feitas outonos precoces. Vida balouçada numa teia de que se partiu um fio – não se desfez inteiramente, cambaleia, permanece. E aí cabemos nós e cabe o sonho dentro de nós.
Tudo tinha um sentido. Passageiro e efémero, afinal!...
Corre um fio de saudade nas margens da ternura com que te pressinto. Foste a exaltação e o enlevo de adolescentes descobertas. Sobressalto e acalmia. Lábios entreabertos respirando quietude e alegria. Olhares faiscando aconchegos e esperanças. Tempestade. Doçura de sol poente. Fugidio encontro – tão breve!
Estranho rumor da cadência de ecos perdidos. O canto lavado dos eucaliptos após a chuvada tropical. A infância chapinhada de luz em terra vermelho-ocre. O gesto de colher goiabas quentes e luzidios loengos.
Entre as mãos, apenas as memórias dormem, amaciadas pelo tempo – sonhos preenchendo o vazio entre o que de ti sobra e a dureza dos dias que te seguiram…


Devagar. Rompe a dimbira em notas mudas. Chora de mansinho ao som nostálgico do quissange dolente.  Ensaiando toadas dos Natais de outrora…

21/Dez/05

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Outros Natais

Um som fraterno de quissange dolente envelhece em notas silenciosas, eternas como as pedras, para sempre eternas, ecos de indeléveis melodias.

Acácias e cassuarinas emolduram o caminho de regresso ao passado. Eis-nos de novo, neste difícil e frio Dezembro europeu. Tão frio.

Junto ao regato, por trilhos de areia ladeados de pedrinhas e trevos de quatro folhas, nos angolanos presépios da nossa infância, crescia livre a vida, embrulhada em sonhos de criança. Da árvore de Natal - que era sempre um cedro e não um pinheiro - exalava um perfume intenso e cheiroso como a candura da meninice pendurada em balões e chocolates, tão quente, tão doce, como as redondas laranjas, inseparáveis das macias memórias desses natais distantes.  Acontecia isto quando a realidade era o que a fantasia permitia que ela fosse. Lá longe, tão longe, no tempo em que Dezembro se vestia de quentura e dispensava agasalhos.

Hoje somos a grande ilha de saudade onde sobram enfeites e prendas na árvore de Natal que já não é um cedro oloroso. Mas o sol insiste em tecer Outonos e Invernos, mesmo quando as festas são menos mudas. Fazemos tréguas com o passado, ainda que haja o peso de um bloco de saudade no lugar do coração. E resistimos, re-inventando afectos.

Nos sorrisos desenhados de ternura, fica sempre um pedaço de mundo por contar.

24/Dez/04

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Memórias que a memória traz

A todos os bienos de alma e coração

              "O tempo é a maré que leva e traz
              o mar às praias
              onde eternamente somos"
       
(Ruy Belo)

Fecho os olhos cansados e rebusco nas “telas da memória”.... Kufungulula... kufungulula...

Volto aos sonhos da meninice perdida no capim das picadas à caça de gafanhotos gigantes e salalés, lá para os lados das xitacas.

Saltito sobre trilhos de kissondes assanhados sob abóbadas de arco-íris tropicais.
Retorno aos caminhos antigos de tabaibos maduros e espinheiras bravas, loengos silvestres, kassússuas e lumuinhos do mato, maracujás e mamoeiros em flor, maboques amarelinhos em bolas redondas, rubras pitangas em cachos balouçando livremente nos galhos das árvores — da vida.

Deambulo pelos bairros ancestrais e intocados de uma infância traquina e de uma adolescência que não sabia dourada.

Como eu queria voltar a sonhar e a rir no centro desse imenso paraíso!... Lá, onde as ruas eram largas e o chão de terra avermelhada, espreitando cajus e múkuas ressequidas ao vento, quase a soltarem-se, velhos leques de coqueiros e dendém, seculares mulembas arredondando-se em sombras, velhos troncos de embondeiros apegados ao solo, à vida e ao céu. Cafezais floridos. Floridos campos de girassol e algodão. Quimbos. Cubatas. Lavras de mandioca, batata-doce, quiabo, feijão-macunde.

Repito brincadeiras nas mangueiras ou nas cassuarinas em busca de pirilampos ou martrindindes cantores, de anduvas coloridas e piriquitos macios e meigos.

Sonhos de infância e adolescência, chipipas desfazendo-se em flocos de sumaúma leve, leve, levezinha...

Havia kissângua em início de fermentação. Havia barras doces de ginguba bem torrada. Havia goiabada acabada de fazer. Havia matete. Havia cana-doce. Peixe-seco com gindungo queimoso. Suanga. Pirão comido às bolas moldadas entre três dedos da mão gulosa. Havia os sabores e os cheiros e os sons do nosso encantamento. Havia rostos e almas e corações de muitas cores e raças.

Havia lagoas com pedras e cobras d'água, rios de jacarés remexendo correntezas, vultos fugidios de animais selvagens nas savanas e vozes quebrando silêncios; ecos de batuques, conversas e cânticos nas sanzalas. Havia chuvas tropicais serenando queimadas nas anharas ao anoitecer.

Havia as esperas e as demoras, as partidas e as chegadas do comboio-mala e do camacôve em apeadeiros de esperanças.

Havia olhares perguntadores. Compêndios de vida onde quase não cabia a morte nem a tristeza. Futuros promissores em quindas-berços, agasalhos-de-apenas-sonhos: sem temores de incógnitas, sem aflições, porque nenhuma treva faria sentido a ensombrar-nos as luas-cheias de fantasias.

Era tempo de sol sem comprimento, ardente, acolhedor; e de dias longos... Era tempo de quase-sempre-verão e de cacimbos-às-vezes... Era tempo de poesia, de amizades, de correrias, passeios e repousos no tempo do nosso deslumbramento.

Dos verdes anos, "no antigamente da vida", ficou uma crepuscular poeira onde se vislumbram nomes e rostos que conservámos definitivamente amigos...

Kufungulula...


(Abril/2004)  publicado em   www.sanzalangola.com

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