A DESCOBERTA DAS CORES QUE TEM A DOR
ACABEI DE COMER UMA SUCULENTA MANGA
Acabei de comer uma suculenta manga no lavatório da casa de banho do Hotel da “Mola-Dura-Buraco-Sujo”, em Blantyre; a manga foi cortada com o facalhão de caça do João Luís; sumarenta, carnuda, divina, fiquei babada e suja. Quero lá saber!
Estamos de regresso a Moçambique, acabados de sair do Malawi, e vamos pernoitar aqui a fim de iniciarmos a viagem. Torna-se urgente apontar todos os pormenores, factos, vivências, já que esta aventura, na minha vida, não se repetirá.
“Tá-me” a picar um mosquito, Tchapp! – Foi-se! – Hi! Hi!
Saímos de Alberton, África do Sul, a uns 10 Kms de Johannesburg, a 21 de Dezembro, eu o João Luís a minha doce nora Helena e a minha neta Alícia, a número nove na escala dos últimos descendentes.
Já lá vão alguns dias e aconteceu de tudo!
No primeiro dia, de Alberton a Matola – perto de Maputo – fizemos 700 Kms de uma assentada!
No fim do dia, fiquei admirada com a minha resistência e com a tranquilidade da Alícia de apenas 11 meses. O João Luís já “bufava” pois havíamos esquecido o guarda-sol; dizia mal à vida e dizia, ainda:
- Estranho tudo o que me está a acontecer há dias!
- Compra-se outro – disse eu.
- Pois sim!... Never!
No segundo dia viajámos até Xai-Xai; no terceiro até Inhambane, depois Inhassoro, Chimoio, Beira, novamente Chimoio, Tete, Vila Coutinho, Liwonde e depois acabámos em Mangochi – Malawi. No regresso voltaremos por Zomba, Blantyre e novamente Tete, descendo Moçambique, para o Sul.
A grande maioria das cidades adoptaram outros nomes, como é natural e isso, sem querer, soava-me estranho, trazia-me à lembrança outras designações aprendidas na escola primária, como é o caso de Vila Pery que agora se chama Chimoio.
Em Mlanguei, já na fronteira com Malawi, estivemos em casa da família da Helena. Tive ali uma surpresa maravilhosa: o encontro com uma bosquimane.
Velhinha, magra e pequenina; não sabia a idade nem de onde tinha vindo ou quem a teria trazido para aquele local. Pensa-se que terá vindo pelas mãos de algum mercador que comerciava pela selva. Não falava de forma onomatopaica – aos estalinhos – já tinha assimilado o idioma local. Falámos por gestos, beijei-a, abracei-a e quase lhe peguei ao colo, adorando a sua fragilidade; rimos muito e na despedida dei-lhe uma boa quantia de Kwachas para ela poder comprar um pano ou outra coisa. Agarrou-se a mim aos beijos, enquanto eu lhe olhava os pés, secos, duros, parecendo de barro talhados a sustentar um pequeno corpo de história feito, perdido na imensidão da floresta africana. É incontestável, só África nos traz e mostra a essência da vida. Ali, o acessório cai por terra. África mexe-nos bem dentro, parece chegar-nos aos recônditos dos últimos alvéolos dos pulmões, onde já mais nada tem lugar. Toma conta do nosso corpo e da nossa mente, numa possessão a que nos entregamos rendidos e o que parece escravidão é encantamento que, para todo o sempre, se transforma em êxtase. Tudo isso, uma vez mais, eu sentia naquele lugar, naquele chão, naquela hora.
Deixámos o Malawi e começámos a descida rumo a casa.
Ao chegarmos hoje aqui, ao Hotel da Mola-Dura-Buraco-Sujo, em Blantyre, o João Luís disse ser este um hotel razoável – estávamos cansados de procurar hotel – a diária 2.000 Kwachas. (1 Euro -190 Kwachas). Arranjaram-nos dois quartos.
Ora como já estou escaldadíssima fui dizendo ao João Luís para ver bem os quartos.
– Óh mamã o hotel é novo!...
Fui ver: o banheiro modesto, decente, ou seja, limpo, os sanitários normais, a água corria no chuveiro, quente e fria. Vá lá…
Ao vermos os quartos, o João Luís já punha as mãos na cabeça: o cheiro a catinga dormida era intenso; os lençóis escuros e sujos. Desci à recepção reclamando por lençóis limpos e a empregada, (a única antipática que encontrei em Moçambique) atirando o livro de registo disse: - Estão lavados! E chegou-se para perto de um aquecedor eléctrico que tinha aos pés e que, até hoje, não consigo perceber por que o tinha ali, num País a arder de calor.
Subi, danada, ao quarto e saquei os lençóis e coberta da cama. Gelei!
Fui a correr ao quarto do João Luís e disse:
– Vejam a cama!
E lá estava o mesmo horror: o lençol sujo, fedorento e rasgado em todo o lado, a tapar as molas soltas do colchão. Agarrei no lençol todo rasgado e cheguei à recepção onde acabava de entrar um “VIP” saído de um Mercedes topo de gama: abri os braços segurando o trapo e perguntei se aquilo era um lençol.
– I’m sorry lady – disse a enjoadinha da Silva, revirando os olhos.
Agora quero ver como vamos dormir?... Pensei. Dobrei cobertores, coberta e pus almofadas sobre as molas e ainda os lençóis, igualmente sujos, que uma empregada acabava de me apresentar. “Aterrei” nas ditas molas embalada pelo aroma quente e denso de catingas antigas entranhadas na alcatifa que, descobri, serve neste País para disfarçar toda a porcaria, Tachapp! (mais um mosquito!).
Ontem dormimos em Mangochi, à beira do Lago Malawi – na outra margem chama-se Lago Niassa, ou seja, o Lago é dividido ao meio, a parte ocidental pertence a Malawi, a parte oriental a Moçambique – no Resort Palm Beach.
Um paraíso! Para lá chegarmos andámos 1 Km de terra vermelha cheia de buracos e lama, a lembrar a Baixa de Kassange; tinha chovido muito nas últimas horas e se não fosse o nosso “Isuzu” que teve de meter a “ traição às quatro rodas” ali ficávamos atolados; a lama voava pelo ar em repuxos grotescos e belos.
O Resort é composto por pequenas cabanas cobertas a colmo e à sua volta há uma imensidão de árvores tropicais, lindas, exóticas, eternas… O lago tem 600Km de comprimento! Em dias de temporal chega a ter ondas de 2 metros, dizem; a água é doce e tem peixes azuis; o peixe mais conhecido é o “Chambo” o qual tem uma carne parecida com a garoupa embora seja cinzento.
Eu e o João Luís levantamo-nos às 5 da manhã e fomos para a margem do Lago ver os pescadores a chegar. Ao sairmos da casinha, um bando de morcegos saiu debaixo do telhado de colmo, assustados e fugiram em várias direcções. Daí para a frente foi o espanto total: à nossa frente saltitavam rolinhas, celestes, toutinegras, red-bishops, robis, pássaros de cor vermelha a lembrar papagaios e outros de que nem sei o nome; esquilos brincalhões foram também aparecendo à nossa frente e fiquei com a certeza de que estavam todos a saudar o raiar do sol que aparecia sobre o lago imenso, adormecido, de tonalidade azul acinzentado. Por essa altura desataram numa cantoria única: maviosa umas vezes depois alegre, gritante, barulhenta, conforme a garganta de quem entoava o canto e o peito de quem aguentava mais. Corremos atrás dos esquilinhos que fugiram árvores acima. Apanhei conchas, sementes e deixei-me estar frente ao Lago aceitando a minha imensa pequenez perante a placidez do momento, respirando serenidade e muita paz. Depois fotografei uma raridade: uma flor de um Imbondeiro que, penso eu, terá sido cortado por uma faísca e ficou ali, dividido em dois, prostrado no chão. A flor era linda, linda, enorme, carnuda e branca.
As casinhas, por dentro, não condiziam com o exterior: as camas eram muito duras, o chuveiro da casa de banho deitava pequenos esguichos de água a ferver e o lavatório era de bonecas; no quarto havia um lavatório de cozinha e ali apareceu uma baratona a olhar-me, atenta, a medir distâncias. Finou-se sob o meu chinelo. Valeu-me o mosquiteiro azul forte enfiado bem apertado sob o colchão, a toda a volta da cama, onde me afundava ao som dos “Il Divo”, no meu MP3 que, milagrosamente, me faziam esquecer o sempre presente cheiro a corpo dormido a exalar das camas dos hotéis. E dormi.
Dormi de tal jeito que devo ter andado a vogar sobre as casinhas, sobre o Lago Malawi, sobre as árvores e a ouvir conversas estranhas de criaturinhas que tinha observado à tarde e me haviam fitado curiosas:
Antes que seja tarde e o tempo me fuja pelos poros, deixa-me dizer-te dos sonhos que me alucinam e a todo o momento me envolvem, numa ténue nuvem translúcida, teimando em fazer-me vogar, transportando-me para distâncias que, afinal, estão enraizadas dentro de mim.
Deixa-me fazer-te meu fiel depositário e assim transferir a minha inquietação e dor para ti. Tenho de as transmitir a alguém… Podem perder-se no tempo e há toda a urgência em “gritá-las”, para que não sejam esquecidas.
Quero falar-te daquele tempo que nos roubaram, dos dias amortalhados precisamente quando o sol brilhava no seu apogeu.
Pelas tardinhas, eu ia espreitar a bela gajajeira que me esperava todos os dias a despontar sobre o telhado vizinho à nossa casa; falávamos as duas e os meus olhos brilhavam dourados, hipnotizados pelos seus frutos amarelinhos; tanto nos amámos que lhe fiz um poema, um dia, era inocente e aquilo era segredo nosso. Penso que ninguém mais a terá olhado como eu. Eu parti e ela deverá ter tombado de velhinha.
Durante muito tempo, naquele tempo em que os dias não se contavam, – eles eram sempre curtos e fugidios –, eu deixava-me ficar à varanda da casa a olhar a vaidosa acácia rubra que enfeitava a Rua Serpa Pinto… Quando chovia e o pó do chão se levantava numa nuvem breve, a linda acácia virava um palco de dançarinos. Eram as jingunas que rompiam o chão e vinham bailar, até caírem, à volta do candeeiro da rua; umas repousavam nos ramos rubros, outras eram apanhadas por miúdos que apareciam em bandos correndo de todos os lados e as comiam, por entre gritos de alegria e gozo. Então o ar enchia-se de um odor forte a terra molhada, uma terra abençoada antes do nascer dos tempos…
Era um tempo mágico. Aos domingos as famílias abalavam para fora da cidade, rumo às Quedas do Duque de Bragança e ali ficavam em silêncio, por algum tempo, olhando o incrível que era a natureza em todo o seu esplendor; o arco-íris bailava sobre nós e toda a gente jurava ver imagens que se alternavam por entre a neblina constante e eterna da chuva miudinha trazida pela força das águas que saltavam, lá de cima, para o abismo. Eu sentava-me na pedra grande, cá em baixo, sob a árvore linda que enfeitava aquele lugar; hoje, vejo em muitos livros a mesma árvore, solitária, inclinada sobre a pedra e só… Como eu.

Havia domingos em que, depois da missa na Igreja da Maxinde, cheios de paz, após escutar o padre Luís Maria, partíamos para a Fazenda dos Italianos. A Yolanda recebia-nos de braços abertos e corria a fazer uma enorme cafeteira de café porque, momentos depois, chegavam mais amigos; nós ficávamos na cavaqueira e as crianças corriam para as pocilgas ou para os estábulos, descobrindo os segredos da vida dos animais; pela tardinha apanhávamos mangas das mangueiras descomunais, sentinelas e testemunhas de tantos dias felizes e, por fim, espectadoras da imensa tragédia que se iria abater naquele lugar.
E o Gaiato?... A Casa do Gaiato, à saída da cidade, era um fascínio para as crianças. Levávamos o lanche e fazíamos ali um pic-nic, onde não faltava a maionese cor-de-rosa a enfeitar as sanduíches de fiambre e queijo; o “Pluto” atravessava a lagoa para nos apanhar no outro lado e depois espargia-nos com o abanar do corpo molhado e nós corríamos e ele saltava feliz.
A cidade crescia e todos nós nos envaidecíamos dela; havia corridas de automóveis onde não faltava a presença do Emílio Marta e do António Peixinho, os quais faziam balançar os brios do Tino Pereira, malangino de gema a puxar forte pelo seu “Capri”; toda a cidade corria a pendurar-se nos prédios da avenida da República à espera de os ver aparecer na curva do Rádio Clube de Malange. Era dia de festa e muita agitação.
Agitação, também, era a palavra de ordem nos dias de Carnaval em que as carrinhas passavam cheias de garotos, com sacos de fuba e pelo ar se viam nuvens de farinha e se escutava “ Monangabé”!!!
E a “Tifa?
– Corram, vem aí a “Tifa”! – Dizia a criançada.
A “Tifa” era uma carrinha que trazia um aparelho destinado a desinfectar as ruas da cidade e, periodicamente, passava por áreas determinadas espargindo o ar com insecticida a fim de matar o mosquito “anofélis” portador do paludismo. No ar ficava o cheiro forte do insecticida; dentro de casa o segredo de quem tinha fugido mais depressa.
Não havia televisão, coisa maravilhosa essa ausência!
As senhoras da cidade juntavam-se e jogavam muito à canasta, organizavam-se passeios e bailes no Clube Atlético; criavam-se os filhos, ensinando-os a ser tementes a Deus e a amar o próximo. E comentava-se o aparecimento de uns cabeludos que se passeavam, à noite, em jipes descapotáveis, lançando gargalhadas à noite. Havia que proteger as jovens de tal maralha.
Noite dentro, muitas vezes, partíamos para Cambondo, a 20 km do centro da cidade, e esperávamos que o Sr. Justo acabasse de tirar o pão quentinho do forno da padaria, e já munidos de pacotes de manteiga e chouriços fazíamos uma festa, às tantas da madrugada.
África, a nossa África…
Depois veio o Kilombo. As suas árvores gigantes de raízes adventícias, onde eu me pendurava; as “patas de cavalo”, as cachoeiras, os riachos, as flores dos cactos, o cheiro, o cheiro, o cheiro… toda eu era inocência, numa entrega sem limites, prenha de paz, renascida, descoberta…
O regresso: outra festa.
Comprávamos pelo caminho cachos de bananas, e gaiolas com celestinhas e viúvas. Até apanhámos uma cobra, uma vez, que foi esfolada à beira de um riacho, para ficarmos com a pele. Ficámos com a pele e com o cheiro da sua gordura, muitos dias.
A nossa “Datsun” azul era um presente de Deus: portava-se bem e corria veloz, para onde eu queria; na parte de trás, baixados os bancos traseiros, era colocado um colchão e as crianças iam ali, felizes, fazendo concursos, contando adivinhas e cantando.
Depois, quando podia, escrevia, escrevia muito.
Lembrava o meu tempo de menina, em Luanda, na aprendizagem da vida, na descoberta primeira de África aos meus pés: a cor da pele, a língua, os cheiros, o Rio Bengo, os imbondeiros, as múcuas, as papaias, os maboques, as pitangas, as gajajas… Meu Deus, tanta coisa maravilhosa e eu tão pequenina!
A moringa de apanhar a água que caía, pingo a pingo, do filtro de pedra de granito assente num banco de madeira, alto, de centro aberto.
O Domingos, o meu Domingos que me cantava, cantava…
21 dá gosto do 47
Vai aver o Mário ué
Vai a pa Porto Amboimmm
Vai dari notícia mamã
Da Maria Berta
Eli faiz viagem jutamente cu passarinho ué.
Ele que me ensinava, todos os dias, Kimbundo.
Kidimuene! Jura mesmo, sangue de pacaça!
A construção do Cinema Tropical onde vi o primeiro filme do Cantiflas,
O primeiro namorado, chamado Virgílio e que mandei embora por me pedir um beijo. Tinha 14 anos.
Era o tempo em que eu vinha da escola, direita ao Bairro das Ingombotas, ali pela Vasco da Gama, bata branca e pasta de cabedal luzidia de tão bem encerada; olhava de revés os meninos de cabelo esticado e calções caqui que me diziam graças e elogiavam os meus olhos azuis. Os meus cabelos eram longos e fartos tal como a minha alma, sedenta, sempre, não sabia bem de quê.
…………..///……………
Bebi água do Bengo. A causa da minha saudade, da minha chaga aberta.
Que não fecha… não fecha…
Alastra com o tempo, teima em queimar-me por dentro, como um feitiço adormecido, lançado pelos ares. Vindo, quem sabe, sobre as águas, pegado a caroços de dém-dém, balançando… balançando… sabendo-me à espera, cansada, querendo partir…
Mas é urgente que se saiba daquele tempo, daquela magia, vivência única. Tudo se vai perder no tempo que nos rodeia, cheio de banalidades, onde a matéria, o gozo imediato e o sexo imperam. Chegará o dia em que duvidarão da história e dos testemunhos; rirão da nossa inocência e da nossa paz, dos nossos amores abertos e da nossa alegria.
Resta-me a certeza de que a minha última viagem será para o Sul. É inevitável, é fatal e está escrito na terra vermelha que pisei. Tomo como testemunhas do meu querer as gajajas e as acácias que me ensinaram, em menina, a descobrir a diferença dos cheiros e das cores.
Se me buscarem, à tardinha,”na hora dos mágicos cansaços”, segundo Bela Espanca, não me encontrarão, estarei longe, terei partido para lá do Equador, para África.
1.8.2008